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Portugal voa até ao topo do mundo nas asas de Pany Varela

Dois golos do jogador do Sporting deram a vitória (2-1) à equipa de Jorge Braz frente à Argentina e levaram Portugal a vencer, pela primeira vez, o título mundial de futsal, o qual junta ao Europeu conquistado em 2018

Pedro Barata

Oliver Hardt - FIFA/Getty

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Os acordes do hino nacional iam soando no pavilhão em Kaunas, na Lituânia. Nunca na história aquela canção havia sido ouvida numa final de um Mundial de futsal e, para atestar a dimensão do momento, o melhor retrato encontrava-se na cara de "um dos melhores jogadores de sempre da modalidade", como disse Matías Lucuix, técnico da Argentina. As lágrimas que escorriam pela face de Ricardinho, instantes antes do apito inicial do último jogo do último Mundial da sua carreira, eram o prenúncio da dimensão do momento.

E Portugal esteve à altura. Pela primeira vez, a equipa lusa sagrou-se campeã do mundo de futsal, após bater, por 2-1, a Argentina, até aqui detentora do título, na final. Juntando esta conquista ao estatuto de campeã da Europa, obtido em 2018, a equipa de Jorge Braz eleva-se como referência indiscutível da modalidade a nível global, culminando um processo de crescimento de muitos anos.

Alex Caparros - FIFA/Getty

Frente à competitiva e aguerrida Argentina, o nome que desbloqueou o duelo a favor de Portugal foi o do costume. Pany Varela fez dois golos á Sérvia, nos oitavos, um à Espanha e outro ao Cazaquistão, nos quartos e meias, e agora fez um bis na final. O acerto goleador do jogador do Sporting coloca-o com um lugar gravado a ouro na história desta conquista.

O começo da partida trouxe o cenário de equilíbrio que era previsível num embate entre os campeões do mundo e da Europa. Sem muitas oportunidades de golo nos primeiros minutos, a cautela e a tensão competitiva viam-se mais do que a magia ou a criatividade. Aos 8 minutos, houve os primeiros sinais de perigo, com Santi Basile a atirar ao poste, respondendo Tiago Brito com dois tiros para duas boas defesas do guardião Sarmiento.

Se a tensão competitiva pairava no ar, esta deve ter toldado o discernimento de Borruto. O argentino agrediu Ricardinho, viu o vermelho e foi expulso, deixando Portugal a jogar dois minutos contra quatro elementos. Justamente no final dessa fase, a menos de 6 minutos do final do primeiro tempo, Pany Varela abriu o marcador para a equipa de Braz.

Alex Caparros - FIFA/Getty

O jogo ficou depois repartido, com ocasiões para ambos os lados (Zicky, em excelente posição, falhou o alvo, e já na segunda parte Erick, após grande iniciativa individual, acertou na barra), mas voltou a ser Pany o desbloqueador. Durante estes dias na Lituânia, Varela pareceu como que tocado por uma varinha, a qual teve o condão de o fazer estar sempre no sítio certo, à hora exacta, e com a execução técnica abençoada. Foi o Mundial da sua vida.

Ao minuto 28, o deslumbrante pé esquerdo de Ricardinho, que ao longo do torneio, devido às limitações físicas do craque, realizou funções mais gregárias e menos luxuosas, serviu Pany Varela que, de primeira, atirou para o 2-0. Foi o oitavo golo do jogador neste Mundial, o que lhe valeu para ser o segundo melhor marcador do torneio, só atrás do brasileiro Ferrão, com nove tentos.

Angel Martinez - FIFA/Getty

O pavilhão, com imensa maioria de adeptos portuguesas, explodia de alegria, mas logo no reatamento da partida Claudino, um dos mais habilidosos dos argentinos, reduziu para 2-1. Faltavam 12 minutos no relógio e uma eternidade na cabeça dos jogadores portugueses.

Bruno Coelho esteve perto do 3-1, mas foram os argentinos a pressionar muito nos instantes finais. Aí, emergiram Bebé, o guarda-redes dos Leões de Porto Salvo que, aos 38 anos, realizou um Mundial soberbo, a concentração defensiva dos portugueses e, também, a sorte, esse factor incontrolável que tanto controla.

No último segundo da partida, quando muitas mãos portugueses já estariam prontas para abrir o champanhe, a Argentina rematou de fora da área em zona frontal. O tiro viajou até à baliza lusa, passou Bebé e bateu no poste, que devolveu a bola em formato de presente para a equipa de Jorge Braz. O árbitro apitou imediatamente a seguir, levando à explosão de alegria portuguesa.

Alex Caparros - FIFA/Getty

Se há 21 anos, na Guatemala, o 3.º lugar conquistado foi uma espécie de despertar da modalidade em Portugal, esta conquista é, agora, a consolidação de todo o trabalho feito, do esforço de todos os clubes, jogadores, treinadores ou dirigentes. Os estatutos de campeão da Europa e do mundo colocam Portugal, de maneira definitiva, no Olimpo do futsal.

No último Mundial de Ricardinho, o grande porta-estandarte deste jogo em Portugal, o pé esquerdo que terá influenciado muitos dos seus atuais companheiros de equipa a abraçarem esta paixão, a seleção foi muito menos dependente do talento individual do seu número 10 do que noutras alturas. "Mais do que nunca, esta seleção adaptou-se e nunca foi só o Ricardinho. É a seleção de Portugal", disse o jogador antes da final.

Que Portugal seja capaz de ser campeã do mundo sem depender da sua grande estrela também atesta o crescimento global da modalidade no país. Neste voo até ao topo do mundo feito nas asas do goleador Pany Varela, a contribuição coletiva foi, mesmo, a chave do êxito.