Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Modalidades

De uma cama de hospital para a glória mundial em seis meses. A viagem de Ricardinho rumo ao "melhor dia" da sua vida

Em março, uma rotura do tendão longo da perna direita levou o capitão da seleção nacional a "mal conseguir chutar uma bola". Após uma recuperação "dura", a grande referência do futsal português conseguiu, no seu quarto e último Mundial, o troféu pelo qual "tinha esperado durante toda a carreira", juntando o título de campeão ao de melhor jogador da competição, na coroação definitiva a um percurso de excelência, isto mesmo jogando "com menos um tendão"

Pedro Barata

Angel Martinez - FIFA/Getty

Partilhar

As lágrimas até podem sair sempre do mesmo sítio e escorrerem sempre pela mesma face, mas aquelas gotículas possuem sabores bem diferentes, contêm significados que variam ao sabor do momento em que são vertidas. A 3 de outubro de 2021, enquanto o hino de Portugal soava, pela primeira vez na história, na final de um Campeonato do Mundo de futsal, as lágrimas na cara de Ricardinho evidenciavam a importância do momento mas, também, todo o esforço que o capitão daquela equipa havia feito para estar ali, na "maior final da carreira", como o próprio a havia qualificado.

195 dias antes, a 22 de março de 2021, Ricardinho anunciou que, após ter sofrido uma rotura do tendão longo da perna direita num jogo entre Portugal e a Polónia, teria de ser operado e, assim, terminaria a sua temporada. A partir daquele momento, o Mundial tornava-se, na cabeça do jogador, no único objetivo. O canhoto abdicava do resto da época no seu clube, os franceses do ACCS Paris, com a mente colocada na Lituânia, para a sua derradeira participação na mais importante prova do futsal a nível global.

Angel Martinez - FIFA/Getty

"Foi a cirurgia mais dura da minha carreira. Mal conseguia chutar uma bola depois da operação", revelou Ricardinho. Aos 36 anos, os meses seguintes à intervenção cirúrgica seriam de grande sofrimento, dedicados a tentar "o fechar de cortina perfeito", a "melhor forma de encerrar a carreira internacional" do capitão da seleção, tal como este disse.

Ao longo dos últimos anos, "Ricardinho" e "futsal" foram quase sinónimos no dicionário do desporto português. O jogador apareceu na elite pouco depois do primeiro "boom" que a modalidade teve no país, na sequência do 3.º lugar obtido no Mundial da Guatemala, em 2000. Após o crescimento do interesse e mediatismo do futsal, um canhoto de 1,65 metros agarrou nas rédeas do jogo em Portugal para se tornar no seu porta-estandarte.

VANDERLEI ALMEIDA/Getty

No Benfica, no Japão, em Espanha ou com a camisola da seleção nacional, Ricardinho construiu uma carreira recheada de momentos de magia eficaz. As fintas, as assistências ou os golos iam ajudando as suas equipas a vencerem de maneira consecutiva, como se atesta pelo domínio que o Benfica teve a nível interno quando contava com o jogador ou nos êxitos do Inter Movistar no período em que foi liderado pelo luso.

A fama do jogador levou-o a ser eleito por seis vezes o melhor do mundo e, mais importante que isso, a levar para a modalidade uma legião de fãs. E esses seguidores foram-se tornando jogadores profissionais, colegas ou adversários que partilhavam o campo com um ídolo. A fotografia que a seleção de Marrocos pediu para tirar com o craque após o embate contra Portugal na fase de grupos do Mundial é a melhor evidência disto mesmo.

A seleção de Marrocos com Ricardinho após o jogo contra Portugal

A seleção de Marrocos com Ricardinho após o jogo contra Portugal

Chris Ricco - FIFA/Getty

O talento de Ricardinho fê-lo, de maneira natural, o líder da seleção portuguesa. Os sete golos que marcou rumo à conquista do Europeu, em 2018, ou os 12 tentos que somou no Mundial de 2016 são marcas de um Ricardinho que, nesses e noutros torneios, carregou consigo o peso das ambições lusas.

No entanto, o quarto e último Mundial da sua carreira seria diferente. O contra-relógio que protagonizou para estar na Lituânia tirou-o dos pavilhões durante muitos meses e condicionou o seu jogo.

O objetivo de estar no grande certame global foi conseguido e, desde o primeiro momento, Ricardinho foi peça fundamental na manobra de Jorge Braz. Sem tantos golos (dois em sete jogos), mas com muitas assistências (sete, mais do que qualquer outro atleta na competição) e, sobretudo, experiência e compromisso com a equipa, a qual foi superando duras batalhas contra a Sérvia, a Espanha e o Cazaquistão, antes da grande final contra a Argentina.

Angel Martinez - FIFA/Getty

"As pessoas estão sempre à espera de um 'cabrito' [fazer passar a bola por cima de um adversário], de uma 'cueca' ou de um golo de bicicleta", disse o capitão antes da final, "mas o Ricardinho que veio para este Mundial sabia que essas coisas tinham 10% de possibilidades de acontecerem."

O jogador referiu que "não ia chegar nas melhores condições em termos de dribles e confiança," mas que estaria disponível com a sua "experiência, passes, a visão de jogo e e o respeito que os adversários têm" pela sua figura. Ricardinho explicou que estava "a jogar com menos um tendão, é a mesma coisa que andar de bicicleta com menos uma roda", e resumiu: "mais do que nunca, esta seleção adaptou-se e nunca foi só o Ricardinho. É a seleção de Portugal".

Estas palavras são a expressão perfeita do Ricardinho versão Mundial 2021: longe da plenitude física, distante daquela espécie de super-herói que agarrava pelo pescoço na seleção e a levava para outra dimensão, mas plenamente dedicado à causa, totalmente disponível para ajudar com uma gama de recursos diferentes, mas que mostram que os verdadeiros craques também são donos de uma inteligência e competitividade superiores.

Chris Ricco - FIFA/Getty

Na final contra a Argentina, o seu jogo número 187 com a camisola da seleção, as lágrimas iniciais rapidamente foram substituídas por esforço e combatividade em campo. E, claro, por um toque de magia, expresso na suave assistência para que Pany Varela (o jogador que, em muitos momentos deste Mundial, assumiu a capa de homem decisivo que era de Ricardinho) apontasse o 2-0.

Após o apito final, a explosão de alegria voltou a fazer com que as lágrimas pintassem a face do camisola 10 da seleção. Infantino, o presidente da FIFA, deu-lhe o prémio de melhor jogador do Mundial, o qual "tornou tudo ainda mais perfeito", mas Ricardinho não parou de frisar que se tratou "de um esforço coletivo" e que "todos tiveram o seu papel" na conquista.

Angel Martinez - FIFA/Getty

Se boa parte da história do futsal português nos últimos 15 anos se escreveu pelo pé esquerdo de Ricardinho, o momento em que o capitão agarrou o troféu mundial foi o coroar de todo o esforço feito por tanta gente em prol da modalidade no país. Esforço esse que, desde logo, havia sido feito por Ricardinho para conseguir estar ali.

"Tive de trabalhar mais duro do que possam imaginar para estar nesta equipa de Portugal, para a conseguir ajudar. Há sei meses estava numa cama de hospital e este momento parecia impossível. Sabia que esta seria a última oportunidade de vencer este troféu, com o qual sonhei durante toda a minha vida. Arrepender-me-ia sempre caso não tivesse ganho o Mundial. Ganhei três Champions, 15 ligas, o Euro, mas este troféu é o mais especial. É o maior momento da minha carreira, o melhor dia da minha vida. Esperei durante toda a minha carreira por este troféu".

O sonho de Ricardinho já é bem real. Neste Mundial, podem não ter havido "cabritos", "cuecas" ou golos de bicicleta, mas todos esses pedaços de magia que o seu corpo produziu ao longo dos últimos anos contribuíram para dignificar e fazer crescer a modalidade da qual ele se tornou símbolo global. E, só por isso, Ricardinho já era, há muito, um campeão do mundo.