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Voleibol feminino. Federação diz que acusação de misoginia é “polémica fictícia”, mas a modalidade vive tempos conturbados

As declarações de Rui Pedro Costa, treinador do Sporting, baseadas, entre outros, na falta de juízes de linha, foram descritas pela Federação Portuguesa de Voleibol como “questões estéreis” que poderão “ter resposta em sede própria”, mas várias vozes da modalidade, ouvidas pela Tribuna Expresso, apontaram críticas ao voleibol feminino no país, como o modelo competitivo, o excesso de jogadoras estrangeiras ou a mentalidade das atletas

Alexandra Simões de Abreu

JOHANNES EISELE

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No dia em que a Federação Portuguesa de Voleibol (FPV) decidir sentar-se à mesma mesa com clubes e treinadores para discutir o futuro da modalidade no feminino, bem pode preparar os ouvidos e alguns panos quentes porque os ânimos prometem exaltar-se.

Esta época, após a 2.ª jornada, Rui Pedro Costa, treinador do Sporting, criticou publicamente o modelo e calendário do campeonato e terminou a acusar a FPV de misoginia, com alegações de que há um tratamento desigual entre homens e mulheres.

Contactado pela Tribuna Expresso para comentar as declarações do técnico leonino, Vicente Araújo, presidente da FPV respondeu que “questões estéreis que não passem de polémicas fictícias, lamentamos, mas não estamos interessados em alimentar, dizendo tão somente que as mesmas poderão ter resposta em sede própria”.

Vamos aos factos para perceber o que está em causa.

Na flash interview, após a vitória por 3-1 sobre o Porto Vólei, Rui Pedro Costa lamentou à "Volei TV" ter de jogar oito vezes num mês, em jornadas duplas “que obrigam o clube a grandes deslocações de um dia para o outro” e apontou a “pouca sensibilidade” por parte da federação para a saúde das atletas. Argumentou que dois jogos no mesmo fim de semana põem em causa a verdade desportiva”, dado que, nas equipas com um plantel menos apetrechado, “se calhar uma lesão é suficiente para colocar os seus objetivos em causa”.

Criticou ainda o modelo do campeonato, jogado na 1.ª fase a uma volta, “em que ficar em primeiro ou oitavo é igual, visto que a única coisa que faz é nivelar por baixo e fomentar o ‘chico espertismo’”. Segundo o treinador, “as equipas com mais responsabilidade social, como nós [Sporting], têm que se preparar desde o primeiro minuto, enquanto há outras que vão esperar por janeiro para tranquilamente prepararem o título”.

Embalado no discurso, Rui Pedro falou também na falta de juízes de linha e quis “dar os parabéns aos árbitros, porque numa modalidade que tem a larga maioria dos seus praticantes femininas, o que significa que quem financia isto são as mulheres, continua a não haver juízes de linha para ajudar os árbitros”. E continuou: “Eles [árbitros] cometem erros, o que é normal, mas não se percebe como é que no masculino há [juízes de linha] e no feminino não há”. Ao concluir o seu raciocínio, acusou diretamente a federação: “Quando era criança ensinaram-me a palavra misoginia, mas parece que continua a haver, e que quem nos tutela se preocupa pouco connosco”.

Perante as críticas e a falta de resposta da federação às mesmas, a Tribuna Expresso contactou vários clubes da I Divisão feminina para saber se apoiam o pensamento de Rui Pedro Costa, mas só cinco responderam, e destes, dois não quiseram dar a cara.

A injustiça da fase a uma volta

Sobre as jornadas duplas, Miguel Coelho, treinador do Leixões, começa por esclarecer que sempre existiram. O que está em questão no feminino é a carga imposta às equipas. “Nesta primeira fase que apura os oito primeiros classificados para a próxima fase e os seis últimos para outra distinta, cada equipa vai fazer 13 jogos, sendo que no presente mês de outubro fazem-se oito destes 13 jogos. Isto significa para muitas equipas jogar sábado no norte e domingo em Lisboa, ou vice-versa, o que implica duas coisas: uma, o desgaste físico de jogar, não recuperar do último jogo e ter a acrescentar a isto uma viagem, mais um jogo e outra viagem de regresso a casa”. Em plantéis na sua grande maioria curtos “este desgaste tem ainda maior preponderância”.

O treinador do Leixões assume também não entender este formato do campeonato, por ser jogado a uma volta “uma fase que decide uma coisa tão importante para muitos clubes, como é a permanência na I Divisão”. E explica como o sorteio pode ser prejudicial sobretudo para as equipas mais fracas: “Uma destas equipas arrisca-se a jogar sempre “fora” contra os adversários diretos” ou pode ter “o azar de jogar em casa contra as melhores equipas do campeonato”.

Há clubes nesta fase que jogam seis jogos em casa e sete fora. Para Miguel Coelho não há dúvida de que é “tremendamente injusto e põe de fora o que deveria ser o princípio de qualquer quadro competitivo, a igualdade”. Por outro lado, acrescenta que “se surge uma lesão de três ou quatro semanas numa jogadora crucial para um qualquer plantel, significaria que, por exemplo, neste mês de outubro, essa jogadora ficaria de fora oito jogos e, não havendo 2.ª volta para reverter resultados, isso poderia empurrar uma equipa dos oito primeiros para os seis últimos lugares”.

Sobre estas duas matérias, as jornadas duplas e o modelo do campeonato, dois dos clubes contactados assumiram, sob anonimato, que também não concordam com este modelo.

Um deles sublinha que esta 1.ª fase “não conta para nada, a não ser para apurar os que vão lutar ou não pelo título, porque nem os pontos, nem a posição classificativa transitam para a fase seguinte” e concorda com Rui Pedro Costa sobre o facto de levar a que algumas equipas “andem a brincar, poupem dinheiro e só se reforçam em janeiro, para a luta pelo título”.

Outro clube, também em “off”, acrescenta que podendo as equipas ser reforçadas mais tarde ou atendendo ao nível a que querem chegar, “põe em causa o mérito desportivo de um campeonato. “Nada disto faz sentido e é o voleibol que neste momento está desfasado das outras modalidades porque nenhuma tem este modelo”, realça.

Limite de estrangeiras como parte da solução

João Saudade, coordenador geral do Lusófona Voleibol, começa por afirmar que o atual modelo favorece o seu clube porque “se não fosse assim, com 14 equipas, clubes como o nosso, formador, nunca estaria na I Divisão dado que não existe limitação de jogadores estrangeiros e as estruturas maiores optam por comprar a outros países e não gastar o tempo necessário a formar”.

Aquele coordenador reconhece que “as jogadoras estrangeiras com qualidade podem e trazem muito ao voleibol português”, mas sublinha que o seis titular de muitas das equipas da I Divisão é quase totalmente formado por brasileiras e que, “assim, o voleibol feminino português não vai a lado nenhum”. Por isso, defende que “os plantéis seniores devem ser limitados a 18 jogadoras e dessas, 15 devem ser obrigatoriamente portuguesas, porque só isto vai permitir o crescimento do voleibol português”.

Ainda sobre o quadro competitivo, João Saudade concorda que um campeonato a duas voltas “seria melhor”, com um modelo de “todos contra todos, corrido, como no futebol”. Já José Moreira, responsável pela AJM FC Porto, prefere deixar para o fim da época a sua avaliação. “Só no final é que vamos fazer uma análise do que foi o campeonato e se há necessidade de que permaneça assim ou não”.

Mais juízes sim, mas sem pagar

Sobre a falta de juízes de linha nos jogos femininos, Miguel Coelho, técnico do Leixões, começa por esclarecer que “o feminino não tem juízes de linha, a não ser na Supertaça, final four da Taça e play-off final do campeonato. Ou seja, falamos de 8/10 jogos por época”. Para ele é “completamente descabido” que exista esta diferença entre feminino/masculino. Julgo que a justificação sempre foi que os gestos de ataque e serviço no masculino exigem juízes de linha pela velocidade que a bola atinge, mas penso que no feminino já há uma velocidade muito grande, para que o primeiro árbitro tenha de decidir sozinho” e não tem dúvidas que essa falta de ajuda “influencia negativamente a performance do primeiro árbitro”.

Há, porém, uma nuance sobre esta matéria.

Porque se é verdade que todos os clubes gostavam de ter fiscais de linha em todos os jogos, tal realidade implica custos que não parecem dispostos a pagar. “Nós já pagamos a cada árbitro antes do jogo 50€, se ainda houvesse juízes de linha... Não há orçamento para isso”, afirma João Saudade.

Também José Moreira não é favor dos juízes de linha nesta fase do campeonato porque “estar a pagar mais 50€ por cada fiscal de linha” representa um acréscimo no final da época de “mais 4.000 ou 5.000€” .

Sobre a acusação de misoginia feita por Rui Pedro à FPV, os clubes que nos responderam não sentem que exista tratamento desigual, embora o número de praticantes femininos seja muito superior ao masculino, numa relação de “sete para um”, diz José Moreira da AJM FC Porto. “Como clube de voleibol feminino nunca senti desigualdade”, garante João Saudade, deixando ainda uma bicada ao treinador do Sporting: “O voleibol feminino em Portugal ainda é muito fraco. Mas que oportunidades as jovens jogadoras têm para jogar em clubes e em grandes clubes? Quantas jogadoras tem o treinador Rui Pedro Costa no seu plantel e quantas foram formadas no SCP ? Nenhuma”.

Setor feminino atrasado 30 anos

Já José Moreira tem outra opinião, bem mais controversa, ao afirmar que “o grande mal do voleibol português não está nos campeonatos, porque se tem de jogar duplas ou porque o modelo é este ou aquele, está na mentalidade das atletas portuguesas, que para terem outro nível têm de trabalhar mais. O voleibol feminino está atrasado 30 anos em questões de mentalidade de treino e de jogo, em relação ao masculino”.

O técnico do Leixões, por seu lado, defende “a criação de uma Liga profissional feminina”, que teria de ser anunciada com “dois anos de antecedência” para dar tempo às equipas de se prepararem. Miguel Coelho defende igualmente “medidas mais restritivas no que toca à inscrição de estrangeiras”.

Contactada pela Tribuna Expresso, a recém-eleita direção da Associação Nacional de Treinadores de Voleibol (ANTV) respondeu que se “encontra nesta fase a recolher e analisar as principais preocupações dos treinadores relativamente à organização e planeamento das competições” e que está prevista para breve uma reunião com a FPV para, “em conjunto enquanto parceiros”, procurarem soluções e alternativas que contribuam para a melhoria das condições de trabalho dos treinadores e para a evolução da modalidade, nomeadamente no que se refere aos quadros competitivos em geral e à eventual desigualdade entre as duas categorias, masculinos e femininos.