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As meninas-prodígio que dominam a patinagem artística no gelo têm duas coisas em comum: são russas e treinam sob o olhar da mesma mulher

Além das capacidades, proezas e quádruplos que executam sobre uma fina camada de gelo e com lâminas presas aos patins, há um certo grupo de patinadoras artísticas que é especial porque estão a cargo de Eteri Tutberidze, histórica treinadora russa. “São excelentes, mas já não são crianças nenhumas. Têm todas entre 15 e 18 anos e adaptaram-se todas muito bem ao seu crescimento até agora”, resume, à Tribuna Expresso, o principal comentador televisivo da modalidade que, esta sexta-feira, arranca a temporada internacional. Os Jogos Olímpicos de inverno são já em fevereiro de 2022 e, em Portugal, não há atletas inscritos em provas internacionais. Falta investimento, diz a federação

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Anna Shcherbakova, da Rússia, a atual campeã do mundo de patinagem artística

Joosep Martinson - International

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As suas caras quase de bonequinhas ou de princesinhas, combinadas com uma timidez normal para a sua tenra idade, escondem um reportório técnico invejável. Dominam assim o mundo da patinagem artística, algo que esperam conseguir reproduzir em todas as competições internacionais importantes desta época, que tem início esta sexta-feira.

Até parece fácil o deslizar sob a camada de gelo fina com umas lâminas nos patins, mas atletas desta modalidade conjugam elementos de extrema dificuldade com a harmonia e a beleza, algo que tem de estar em constante sintonia com a música.

Estes elementos difíceis, como saltos com quatro rotações — mais conhecidos por quádruplos — carregam uma elevada dificuldade, recompensando as atletas com um valor técnico elevadíssimo, especialmente para as suas idades. É que a maior parte destas patinadoras têm entre 15 e 18 anos, e realizam estes elementos desde os tempos de juniores (escalão entre os 13 e 15 anos). Isto permiti-lhes ganhar as competições mais importantes, como as etapas do Grande Prémio, campeonatos da Europa e do mundo.

A realização de quádruplos não é uma surpresa na patinagem artística no gelo, visto que se realizam com muita frequência e já a alguns anos nos homens (uma das quatro categorias desta modalidade). Nas mulheres, contudo, surgiu na época de 2017/18, quando a jovem russa de então de 13 anos, Alexandra Trusova, realizou dois quádruplos no mesmo programa, batendo recordes mundiais.

Mas Trusova não é um acaso, foi apenas uma das pioneiras nestas andanças. Desde então têm surgido inúmeros prodígios, que têm dois aspetos em comum: são todas russas e treinam sob o olhar gélido e estrito da treinadora, Eteri Tutberidze, conhecida por conduzir Alina Zagitova e Evgenia Medvedeva até ao ouro e prata, respetivamente, nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018.

Segredo da equipa Tutberidze

Desde essas vitórias, a equipa Tutberidze, assim conhecida no mundo da patinagem, tem produzido grandes estrelas da modalidade como Trusova, Anna Shcherbakova, Alena Kostornaia, entre muitas outras. Todas têm a oportunidade de competir nas próximas olimpíadas de inverno, programadas para decorrerem em Pequim, na China, em fevereiro de 2022.

Mesmo com estes excelentes resultados, todos os elementos desta equipa insistem que não existe nenhum segredo para o que têm alcançado. “Não há nenhum segredo para o nosso sucesso. Apenas adoro trabalhar com estas crianças e vê-las alcançar os seus objetivos, mas é necessário muita disciplina”, disse Tutberidze, em entrevista ao "Primeiro Canal" russo, responsável pelas transmissões da modalidade no país.

Este amor é algo recíproco por parte de todas as atletas, que quase veneram a treinadora. Kostornaia, campeã da Europa em 2020, descreveu-a como alguém “que sabe ser bem sucedida” numa pequena reportagem, lançada em março de 2018. Shcherbakova, que treina com Tutberidze desde 2013 descreve-a como “uma pessoa que trabalha muitíssimo e que nos ensina a definir os nossos objetivos”, disse, ao “Olympic Channel”.

Tutberidze e os restantes elementos da equipa técnica não são simplesmente respeitados na Rússia. O comentador Ted Barton, antigo patinador canadiano, considera que no mundo de competição de elite não existem segredos nenhuns. “Esta mentalidade vem dos treinadores, que por sua vez passam-na aos seus patinadores, que treinam várias horas por dia para desenvolver uma boa técnica base”, diz, em entrevista à Tribuna Expresso.

Acrescentou, também, que “existe sempre um risco quando se executam estes elementos, mas estão muito bem organizados com uma equipa médica competente por detrás para apoiar sempre que necessário.”

Kamila Valieva, a campeã do mundo de juniores em 2020 é uma das estrelas da equipa Tutberidze

Kamila Valieva, a campeã do mundo de juniores em 2020 é uma das estrelas da equipa Tutberidze

Sergei Bobylev

Financiamento em Portugal

Tudo isto são aspetos que custam dinheiro e para uma modalidade tão dispendiosa como a patinagem artística é preciso muito investimento para poder ter as melhores condições possíveis. Em países como a Rússia, os Estados Unidos e o Japão está o topo porque contam com um apoio imenso. Barton, natural do Canadá e ex-patinador, comenta que “embora seja difícil de dizer a razão, a falta de fundos e de investimento pode explicar parte da falta de patinadores em países mais ocidentais”.

É exatamente esse aspeto que faz de Portugal um país com “pouca cultura de desportos no gelo”. A Federação Portuguesa de Desportos de Inverno, contudo, admitiu haver mais esforço para a construção de pavilhões adequados para a prática da modalidade. “A pista de gelo, ‘Serra da Estrela - Ice Arena’, que está em fase final, terá a capacidade de metade de uma pista olímpica, mas permite ao treino e desenvolvimento desta e outras modalidades”, explicou a entidade, em resposta à Tribuna Expresso.

Todo este esforço está a ser financiado pela própria federação, esperando que todo o trabalho e planeamento dê frutos ao chamar mais praticantes para a modalidade, que não conta com nenhum atleta nacional inscrito nas competições mais importantes da União Internacional de Patinagem (ISU, na sigla em inglês).

As competições

A ISU é a organização que tutela todas a maior parte das provas internacionais da modalidade, como os campeonatos do mundo e da Europa, todas as etapas do Grande Prémio (incluindo a Final do Grande Prémio) e, também as challenger series, de segundo escalão.

As épocas iniciam sempre em outubro e decorrem até finais de março. Todos os fins de semana, entre a segunda quinzena de outubro até final de novembro, realizam-se as etapas do Grande Prémio, onde os atletas são nomeados pelas federações dos seus próprios países a participarem, no máximo, em duas dessas competições. A atual temporada tem início marcado para esta sexta-feira com o “Skate America”, competição a contar para o Grande Prémio.

Aí, cada atleta recebe pontos consoante o lugar em que termina, mas apenas os seis melhores entre as quatro categorias garantem a sua participação na Final do Grande Prémio, que é marcada, na maior parte das vezes, no segundo fim-de-semana de dezembro.

O circuito internacional regressa novamente em janeiro (depois dos campeonatos nacionais de cada país), onde estão programados os campeonatos europeus que, este ano, vão decorrer em Tallinn, capital da Estónia. A cada quatro anos decorrem as olimpíadas de inverno e, depois, em março, a temporada termina com os campeonatos do mundo. Todos os atletas que participam nestas competições com mais nível de elite são nomeados a seguir aos respetivos campeonatos nacionais, que decorrem durante o mês de dezembro. Todas as competições serão transmitidas em direto no canal de YouTube da ISU.

Todas estas etapas do Grande Prémio contarão com a presença de Trusova, medalha de bronze nos últimos campeonatos do mundo; a atual campeã mundial, Shcherbakova, e Kamila Valieva, vencedora do título internacional de juniores em 2020 e detentora de dois recordes mundiais (batidos numa competição internacional na Finlândia, no início deste mês).

Equilíbrio entre técnica e beleza

Embora ainda sejam muito jovens, estas estrelas da patinagem artística não têm somente apresentado quádruplos, mas também o triplo axel, que corresponde a um dos saltos mais complexos da modalidade).

Uma das “rainhas” deste elemento é Kostornaia, vencedora de todas as competições internacionais em que participou durante 2019/20 e também conhecida pela sua vertente artística. As patinadoras que o executam têm uma grande vantagem, visto que o podem realizar no programa curto e programa livre (os dois programas que somados determinam a pontuação total).

As regras da ISU ditam ainda que os quádruplos só se podem realizar no programa livre. Assim, Trusova e companhia reservam essa arma no seu arsenal, executando vários num só programa, algo que certos especialistas da modalidade consideram sobrecarregar os exercícios com técnica e até perder a componente artística — ou até mesmo a feminidade.

Porém, patinadoras como Shcherbakova (17 anos) e Valieva (15) parecem terem conseguido encontrar o equilíbrio perfeito entre a parte técnica e a parte estética, criando assim “arte no gelo.” Ambas realizam, no máximo, três quádruplos no seu programa, mas o seu estilo é extremamente clássico e contam em todos os seus programas uma história, algo que deixa os oficiais da ISU maravilhados.

Depois de Valieva bater dois recordes mundiais há umas semanas, membros oficias da ISU ficaram maravilhados com a excelente técnica e a beleza e entrega às componentes de interpretação. Leena Laksonen, membro do comité técnico da união de patinagem era apologista que se mudasse a idade mínima para competições seniores, para que houvesse mais feminidade. “Quando vi a Kamila ao vivo fiquei completamente chocada. Compreendi que a feminidade não tem tanto haver com a idade, mas sim com a educação, treino e natureza que se tem — algo totalmente visível em Kamila”, disse Laksonen, em entrevista a um ex-treinador da União Soviética.

Educação para a vida e competição lá fora

Embora a equipa Tutberidze seja responsável por todas estas atletas, a famosa treinadora russa percebe que não se trata apenas de uma carreira desportiva, mas, sim, de uma educação para a vida. Todas estas atletas têm os programas talhados para a sua personalidade e, muitas vezes, isso passa por criá-los com temas do gosto das atletas, como se viu em Kostornaia e o seu programa livre de há dois anos: foi inspirado nos “Diários de um Vampiro” (“Vampire Diaries”, em inglês).

Barton, principal comentador da modalidade, já foi testemunha de todas estas patinadoras desde os tempos juniores, quando tinham 13 anos. “São excelentes, mas já não são crianças nenhumas. Têm todas entre 15 e 18 anos e adaptaram-se todas muito bem ao seu crescimento até agora”, afirmou.

Alena Kostornaia da Rússia executando o seu programa livre inspirado no "Diário de um Vampiro"

Alena Kostornaia da Rússia executando o seu programa livre inspirado no "Diário de um Vampiro"

Maja Hitij

Depois de dominar por completo os últimos campeonatos do mundo, em março, a Rússia deu mais uma prova da sua superioridade. Todas as patinadoras possuem um estilo diferente, dando mais ênfase à beleza ou à técnica. Daria Usacheva, de 15 anos, combina a técnica de base com uma interpretação e graciosidade diferente, algo que torna cativante de ver, como reconhece Ted Barton.

Embora ainda não tenha ganhado qualquer competição importante, consegue levar medalhas de variadíssimas competições, como a prata nos mundiais de juniores do ano passado. Contudo, Usacheva está determinada a mudar a história, revelando, numa entrevista recente a um canal de televisão russo, que pretende introduzir o triplo axel no seu reportório o quanto antes. Competirá este fim-de-semana no “Skate America”, a sua estreia no circuito internacional de seniores.

Mesmo depois desta época olímpica, estas meninas prodígio vieram para ficar. Tanto a equipa Tutberidze como outras academias russas já revelaram que talento e promessas não faltarão no futuro, como é o exemplo de Sofya Akatyeva, treinada por Tutberidze e detentora de dois recordes mundiais de juniores.

Daria Usacheva, da Rússia na Final do Grande Prémio de patinagem artística em 2019

Daria Usacheva, da Rússia na Final do Grande Prémio de patinagem artística em 2019

Joosep Martinson - International