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Angelina Melnikova, a russa que acabou com o domínio dos EUA na ginástica artística. Agora, vai fazer uma pausa

Gelya Melnikova, como é conhecida, mostrou "não ter medo" de ser o centro das atenções nos Mundiais de ginástica artística em Kitakyushu, no Japão, onde conquistou o único título que lhe faltava na carreira. A nova campeã do mundo pôs fim à hegemonia norte-americana no all-around, que durava há uma década, tornando-se na ginasta russa com mais medalhas de sempre

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Angelina Melnikova com a medalha de ouro conquistada na final do all-around

CHARLY TRIBALLEAU

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Quando Angelina Melnikova partiu numa viagem exaustiva e quase interminável de 36 horas rumo aos Campeonatos do Mundo de ginástica artística em Kitakyushu, no Japão, tinha um objetivo em mente: tornar-se campeã, o título que tanto almejava para o seu currículo brilhante e invejável.

Depois de ter feito história nos Jogos Olímpicos de Tóquio, este verão, juntamente com as restantes ginastas da seleção russa, Melnikova regressava ao país que tem como “um sítio feliz”, já com o cansaço acumulado de uma temporada longa, mas com a determinação e confiança que lhe são tão características desde 2016, quando começou a participar nas provas de elite.

Foi exatamente essa característica, mas também muitas horas de treino, que fizeram com que a russa de 21 anos se proclamasse campeã do mundo no all-around (concurso geral), título que não saía dos Estados Unidos desde 2011. A última russa a conquistá-lo foi Aliya Mustafina, há 11 anos. “Sinto que fiz história. Estou extremamente contente por ter conseguido fazer tudo como queria”, disse, entre risos, à Federação Internacional de Ginástica (FIG).

Mas o conto de fadas de Melnikova não ficou por aí.

Conquistou mais duas medalhas nas finais por aparelho, fechando assim a sua “competição de sonho”, como a própria descreveu, na sua conta de Instagram.

Instagram

A consistência e mentalidade certa para competir

No início da carreira, contudo, nem tudo foi uma fantasia. Embora tenha sido rapidamente apelidada como uma grande promessa, muito devido aos seus excelentes resultados como júnior, a russa teve dificuldades em encontrar a consistência e mentalidade certas para competir contra as melhores do mundo.

Foi apenas em 2019 que teve o clique e começou a encarar tudo de uma maneira diferente. “Criei o meu próprio método e sigo-o há alguns anos”, revelou ao “Olympic Channel”, em março.

Melnikova considera também que a preparação mental é um dos aspetos mais importantes, algo que a ajudou a ganhar as suas primeiras medalhas individuais em Mundiais, em 2019. Para o conseguir, confessa ter passado por uma “mudança colossal”, visto que agora “consegue controlar quais os elementos que necessita de realizar e como tem de os preparar”, explicou ao “Olympic Channel”.

Este ano, viu-se como a líder indiscutível da equipa russa, composta por muitas jovens promessas. Esse estatuto acrescenta-lhe “um pouco mais de responsabilidade”, admite. A ginasta, porém, ressalva que também é "uma pessoa completamente diferente" daquela que participou nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.

Melnikova durante o seu execício de solo nos campeonatos do mundo no Japão

Melnikova durante o seu execício de solo nos campeonatos do mundo no Japão

Toru Hanai

Vida para lá da ginástica

A russa, de 21 anos, não vive apenas do sucesso e das medalhas. Adora a vida que tem fora da vivência entre a elite da ginástica, quando não anda na berlinda de entrevistas e de encontros com o Presidente russo, Vladimir Putin — é tradição depois de cada olimpíada.

Foi uma das protagonistas da All Around, do “Olympic Channel”, série que acompanhou três ginastas de nacionalidades diferentes no seu caminho até Tóquio. Melnikova disse que adora fotografia e de protagonizar sessões fotográficas, porque lhe ajudam “a focar melhor e a espairecer”.

Contou, igualmente, que aprecia passar tempo com família e amigos em Voronezh, cidade no sudoeste da Rússia onde nasceu. Em 2018, criou a sua própria linha de maiôs específicas para a modalidade, porque não quer desligar-se da ginástica artística e também porque se considera "uma pessoa criativa e que adora design", área que chegou a pensar em seguir.

Acrescentou à FIG que "como não conseguiria conciliar os estudos com o desporto, pensei criar a minha linha maiôs, visto que sou uma ginasta ativa e sei tudo sobre eles."

A paixão pela ginástica pode ter começado aos seis anos e, na prática, traduz-se desde 2014, quando começou a competir pela Rússia, mas Melnikova confessa que gostaria de "ficar até Paris 2024". Para que isso, contudo, necessita de "fazer uma pausa, pelo menos no próximo ano".

*texto escrito por Mariana Alves Antunes e editado por Diogo Pombo.