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Leveza, paixão e uma certa treinadora: as chaves para a hegemonia da Rússia, que voltou a prevalecer nos Mundiais de ginástica rítmica

Dina Averina foi, sem admiração, a atleta mais dominante nos Mundiais de ginástica rítmica, onde quebrou o recorde de títulos mundiais. Não foi a única, contudo, a estar no centro das atenções, visto que a seleção russa se destacou mais uma vez nesta prova — o que poderá ter algo a ver com Irina Viner, histórica selecionadora russa

CHARLY TRIBALLEAU/Getty

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As cores imaginárias brancas, azuis e vermelhas da bandeira da Rússia, apesar de as ginastas competirem sob a bandeira neutra da Federação de Ginástica Russa, brilharam e dominaram mais uma vez nos Muindiais de ginástica rítmica, que decorreram entre 27 e 31 de outubro em Kitakyushu, no Japão. Mas, pelo meio houve algumas surpresas, com a Bielorrússia e a Itália a conseguirem adoçar o seu final de temporada em algumas ocasiões.

Era uma edição da prova já histórica, por acontecer pela primeira vez em ano olímpico, mas a ginasta que brilhou com mais força foi, sem surpresa, a russa Dina Averina, que conquistou cinco das seis medalhas de ouro possíveis.

Mas não é essa a razão para tanto destaque.

A ginasta de 23 anos quebrou o recorde de medalhas de ouro conquistadas em Mundiais que pertencia à bicampeã olímpica, Evgenia Kanaeva. Agora, o recorde é de 18 títulos.

Parte dessas conquistas foi a sua quarta vitória no all-around (concurso geral), algo que nenhuma ginasta tinha conseguido e que deixou Dina completamente estupefacta com tantas emoções. “Uma vez sonhei com tal recorde. Quando vi o resultado final fiquei chocada e felicíssima de ter conseguido alcançar este feito”, disse, totalmente radiante em entrevista à Federação Internacional de Ginástica (FIG).

Dina Averina, da Rússia, a verdadeira estrela dos mundiais de ginástica rítmica, em Kitakyushu, no Japão

Dina Averina, da Rússia, a verdadeira estrela dos mundiais de ginástica rítmica, em Kitakyushu, no Japão

Toru Hanai

O segredo por trás das conquistas da Rússia

O facto é que as conquistas e o domínio russos não são um espanto, principalmente numa modalidade que têm dominado desde o colapso da União Soviética, em 1991. Ao longo dos anos surgiram inúmeras campeãs da Rússia, todas fruto do trabalho árduo e extremamente rigoroso de Irina Viner, histórica treinador e atual selecionadora nacional.

A paixão que dedica ano após ano às atletas da seleção nacional russa faz com que seja respeitada e conhecida como "uma senhora da ginástica" por toda a comunidade desta modalidade. Embora o currículo seja coberto pelo brilho das imensas medalhas ganhas pelas suas ginastas ao longo das últimas duas décadas, insiste que o segredo é “simplesmente adorar trabalhar com crianças” e que "tudo se consegue com amor”, como revelou no documentário sobre o sucesso de ginástica rítmica na Rússia.

Acrescentou ainda que “leveza e paixão são as palavras que temos que repetir antes de sairmos a competir.” É este o pensamento que tem conseguido transmitir a todas as suas ginastas durante os últimos anos.

Mas nem tudo é devido ao amor e paixão. Por detrás de todo o sucesso e das quase 60 horas de treino semanais, há um investimento que poucos países conseguem igualar. Para todas as competições, as russas viajam com uma equipa completa que, além das treinadoras, inclui médicos, fisioterapeutas e massagistas, entre outras pessoas tudo para que as ginastas tenham a melhor preparação e desempenho possível.

Feitos históricos de Alina Harnasko

Um dos poucos países que consegue competir com a Rússia é o país vizinho, que nestes Mundiais escreveu a sua própria história pela ginasta nascida em Minsk, que partiu para o Japão com um objetivo em mente: ganhar um título mundial. E conseguiu, na final de fita, tornando-se na primeira ginasta não russa desde 2013 a conseguir vencer uma medalha de ouro em Campeonatos do Mundo. Além disso, também se tornou na primeira ginasta bielorrussa desde Larisa Lukyanenko, em 1996, a sagrar-se campeã do mundo.

O percurso até estes Campeonatos do Mundo, porém, não foi um mar de rosas, pois a ginasta de 20 anos testou positivo para a covid-19 cerca de duas a três semanas antes de partir rumo a Kitakyushu. E, para se manter em forma, treinou a partir de casa, como revelou numa publicação recente na sua conta do Instagram.

Instagram

Embora tenha conseguido alcançar o título que tanto almejava, Harnasko conquistou ainda mais quatro medalhas, sendo uma delas a prata na tão prestigiada final do concurso geral, onde se tornou na primeira ginasta bielorrusa desde Yulia Raskina em 1999 a conseguir tal feito. Foi também a única em toda a competição que separou as gémeas Averina, as estrelas deste último ciclo olímpico. “Parece surreal, mas é real. Sei o que trabalhei para chegar até aqui e alcançar estes resultados”, disse no meio de lágrimas de felicidade à FIG.

A festa italiana

Não foi apenas Harnasko que teve o prazer de poder saborear essa felicidade. Itália, um país mais conhecido pela sua potência nos conjuntos, conseguiu levar para casa cinco medalhas. Uma dessas conquistas foi da nova promessa italiana, Sofia Raffaeli.

A ginasta de apenas 17 anos estreou-se numa competição deste calibre e surpreendeu tudo e todos ao conseguir a sua primeira medalha individual na competição. "Não pensava em ganhar uma medalha, apenas queria executar um exercício forte", confessou, à FIG, acrescentando, com um sorriso meio tímido, que não tinha a certeza se era "um sonho, mas se fosse não queria que a acordassem".

Sofia Raffaeli, de Itália durante a final de arco, onde conquistou a medalha de bronze

Sofia Raffaeli, de Itália durante a final de arco, onde conquistou a medalha de bronze

Toru Hanai

O conjunto italiano, também conhecido como farfalle (borboletas) foram o único conjunto a bater a Rússia, algo que as deixou felicíssimas, visto que para algumas dessas ginastas estes Mundiais do Japão foram a despedida da vida de elite.

Kitakyushu pode ter sido a última dança para muitas ginastas, mas, para algumas, a cidade japonesa pode ter sido a primeira de muitas competições onde andarão nos destaques da elite mundial.

*texto escrito por Mariana Alves Antunes e editado por Diogo Pombo.