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Foi recebido pelo cartel de Sinaloa e virou superstar no México: esta é a história de Jonas, o ‘Forrest Gump alemão’

Arrancou em setembro de 2020 e propôs-se a fazer o triatlo mais longo de sempre. Já lá vão mais de 400 dias na estrada e agora, visando os cerca de 40 mil quilómetros, entra na reta final, rumo a Munique, em cima da Esposa. Depois de muitas aventuras e emoções, não sentiu nada como naquela noite em que acendeu uma pequena fogueira e dormiu em cima do congelado Lago Baikal, na Sibéria. O truque para a estabilidade está em pensar em pequenas vitórias, numa barra de chocolate no horizonte de cada vez. Jonas Deichmann esteve em Lisboa e a Tribuna Expresso conversou com ele

Hugo Tavares da Silva

Nuno Fox

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O herói de infância era o avô, um caçador de cobras em África. Jonas Deichmann lembra-se de ter seis anos e de ver o senhor chegar perto dele com uma grande cobra pendurada no pescoço. A natureza, como o sangue, corre-lhe nos canais interiores do corpo, qual fábrica de coragem e ousadia. Este alemão, de 34 anos, está a cumprir há 408 dias o que diz ser o primeiro triatlo da história à volta do mundo: serão, ao todo, cerca de 40 mil quilómetros a correr, pedalar e nadar.

Quando chegamos ao ponto de encontro, num hotel de Lisboa, Jonas está a tratar de alguns detalhes da sua estadia na receção. A barba dele e a câmara fotográfica da singela comitiva deste lado dão um aperto de mão à distância, denunciam intenções. É alto, magro e veste um riso terno debaixo da máscara. Surpreende ao falar em português, com uma boa vontade notável e simpatia atípica para quem acabou de chegar num interminável voo sem dormitar. O alemão viveu em Salvador da Bahia três anos, há quase dez anos, e agora até planeia passar uns meses por ano no sul de Portugal, para continuar a trabalhar nos projetos como viagens, palestras e, quem sabe, em livros, depois do que está para sair em dezembro, mantendo assim a proximidade à sua Alemanha. Acordamos bater bolas em inglês.

Facebook Jonas Deichmann Adventures

Se o avô era uma espécie de valente semideus no lado palpável da vida, por essa altura também Forrest Gump se transformou num herói distante. “Foi sempre o meu filme preferido quando eu era criança, amava a história. Sempre soube que, se corresse num país ou continente, ia fazê-lo com uma longa barba e com o boné do Bubba Gump Shrimp.” E assim foi, conta este germânico, natural de Estugarda.

A aventura que lhe vai sovando o corpo desenrolou-se por países como Croácia, onde viveu talvez o maior susto, Rússia, Japão, México, Portugal e, nesta altura, já está por Espanha, rumo a Munique para descansar os ossos.

Deichmann trabalha com duas organizações não governamentais: a Oxfam, uma confederação de 19 organizações e mais de 3000 parceiros que procura soluções para a pobreza e desigualdade, e a World Bicycle Relief, que distribui bicicletas no continente africano, para as distâncias não impedirem as crianças de ir à escola.

Markus Weinberg

É certo que há um lado pessoal, insaciável, não tanto pelos recordes que vai batendo, mas sim por uma razão mais crua e intrigante ao mesmo tempo: “É a minha maior motivação, a aventura. Todos os dias sei coisas novas, coisas que nunca vi antes”.

Tem sido incrível? Jonas diz que sim. Tem sido duro? Muitíssimo. E momentos de tensão? Ocorre-lhe de imediato um momento na Croácia, dentro de água.

“Tive uma noite em que estava ao largo da costa e calculei mal as correntes, demorei mais do que tinha previsto. Ficou escuro, fiquei na escuridão, uns três quilómetros ao largo da costa. Não consegues estimar distâncias, à noite é impossível. Não sabes se estás a chegar perto. Foi um sentimento horrível”, conta, com um tom que ainda remete ao respeito.

Bem depois, já no México, onde esteve qualquer coisa como cinco meses, viveu episódios dignos de um guião televisivo. “Estive em contacto com os narcos, com o cartel do el chapo Guzmán, em Sinaloa”, começa a contar com algum entusiasmo, eventualmente adivinhando que suscitaria uma gulosa curiosidade alheia.

“Foi uma experiência super interessante, digamos assim, no sentido em que Sinaloa é um narcoestado, não há polícia ou governo, trabalham para eles. Certa vez, estava a correr nas montanhas de Sierra Madre, numa rota remota, a 3000 metros [de altitude] e a primeira coisa que havia nessa estrada eram crianças pequenas, em motos, com walkie talkies, a patrulhar. Mais tarde, vieram os narcos armados, em motos, e disseram-me: ‘Jonas, bem-vindo, estávamos à tua espera. Seguimos-te no Instagram. Aqui estás seguro, somos o governo. Vamos tomar conta de ti… e queremos tirar uma selfie contigo”, conta entre risos, garantindo que realmente se sentiu seguro. “A última coisa que quereriam era um alemão morto, viria a polícia federal, investigações e tudo o resto”.

Nuno Fox

"Quebrar grandes e pequenos objetivos é o segredo"

Apesar da solidão, Deichmann nunca se sentiu sozinho, está confortável entre os corpos que moldam e ocupam a natureza. Pensou sobre a vida e sobre outras muitas formas de vida. Afinal, “há coisas ótimas a acontecer em todos os momentos”.

Para Jonas, o mais importante de um desafio como este é ter “objetivos pequenos”, pois pode tornar-se muito desmotivante, perante o cansaço, pensar no que falta ou em grandes feitos. “Quebrar grandes e pequenos objetivos é o segredo”, resume. Em vez de arrojadas metas, este aventureiro preferia antes focar-se na barra de chocolate seguinte, ou nos tacos que acabariam por passar a fronteira dos lábios e descansar no estômago, ou ainda nas estações de serviço que lhe iam permitindo repor as energias. O alemão necessitava e necessita de 7000 calorias diariamente. Muitas vezes não teve uma alimentação adequada a um atleta, já que não contava com carro de apoio ou algo que se parecesse.

Sem piedade do corpo e desconhecedor dos efeitos que o poderão assolar a longo prazo, Jonas admite, entre gargalhadas, que lhe disseram que não devia fazer uma viagem deste género. Não conversou com nenhum médico, pois acredita que o tentaria impedir de aventurar-se. “Sinto-me bem, não tive nenhum problema maior. Claro que às vezes tens dores, sentes-te cansado, perdes peso, mas recuperas.” Uns dias depois desta conversa, já em Espanha, Jonas teve de parar, pois ficou de cama, com febre.

As dormidas, ao longo desta jornada que mais parece eterna, aconteceram muitas vezes ao lado da estrada, numa tenda. “Na Rússia e na Europa acampei quase sempre, mas no México foi mais em hotéis, por causa da segurança”, admite. O clima foi castigador também: tanto apanhou -30º na Sibéria como 40º ou 45º nas terras mexicanas. "Uma escolha muito inteligente", ironiza.

Desistir, apesar das agruras do dia a dia, nunca foi um cenário viável. “É muitas vezes muito difícil, [mas pensei em] objetivos pequenos, há sempre uma solução”, reforça a receita. Talvez seja por isto, para ouvir-se certas histórias inspiracionais de resistência, resiliência e controlo emocional, que as empresas lhe pagam para falar aos funcionários.

Esta vida é trabalho, desenganem-se quem a associa com um mero ato libertário ou prazeroso. “Depois da universidade, trabalhei dois anos, em Munique, como gerente de vendas. Vivo de patrocínios, palestras, [publicação] de livro e filmes. É um trabalho”, insiste. E não se imagina a voltar a um escritório.

Lago Baikal, Sibéria

Lago Baikal, Sibéria

Andrej Bavchenkov

Mas, e desenganem-se aqueles que acham também que não há prazer na labuta, houve muitos momentos regados por uma beleza singular. As pessoas, que chegaram a ser centenas atrás dele no México, durante uma correria ou outra, emocionaram-no. Houve até batedores, carros e motos da polícia sem fim a bloquear estradas para ele passar. “Na Alemanha, a Angela Merkel recebe esse privilégio... talvez”, diz, misturando uma vaidade serena com uma gargalhada.

Mas há um momento que foi o pináculo do deleite até aqui.

“Há tantas coisas pequeninas que fazem isto valer a pena, e sorris nas horas seguintes. O mais memorável foi no Lago Baikal, na Sibéria”, vai dizendo melancolicamente. “Estava congelado, fiz um buraco no lago, com pedras, e saltei. Não tomava banho há um tempo, queria ficar fresco. Fiz uma pequena fogueira ao lado do lago e, à noite, dormi mesmo no lago. Foi incrível, porque o lago fazia sons, era estranho, porque pensas que estava a rachar, mas não. Estava tudo bem. Estava sozinho, no meio do nada, na Sibéria.”

No domingo, dia 31 de outubro, Jonas disse adeus a Lisboa. Agora, na sua bicicleta, batizada “Esposa”, vai pedalando rumo a Munique. Pelo caminho vai tropeçar em alcatrão, que funciona quase como um amigo bom ouvinte, pessoas e, claro, em momentos sublimes que lhe vão permitir continuar a pedalar. Um pequeno objetivo a seguir ao outro. Mais um quilómetro, mais um metro, mais um centímetro. Um dia de cada vez, até à barra de chocolate seguinte.