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Ricardinho: a despedida do mago que levou o futsal português para outra dimensão

Aos 36 anos, e após somar 187 jogos e 141 golos por Portugal, o até aqui capitão da seleção comunicou que não voltará a atuar pela equipa lusa. Presente em nove fases finais, nas quais apontou um total de 44 golos, Ricardinho foi o grande símbolo do crescimento do futsal português, abandonando a seleção como líder da equipa campeã europeia e mundial

Pedro Barata

Angel Martinez - FIFA/Getty

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"Eu sei que, se alguém me pressionar muito e eu tocar a bola no Ricardo, ninguém tem coragem de o pressionar, ninguém lhe vai meter o pé pelo respeito que lhe têm." As palavras são de Pany Varela, o herói da final do Mundial de futsal conquistado por Portugal, em entrevista à Tribuna Expresso, e são a prova fiel do peso de Ricardinho no futsal global. Dono de um pé esquerdo como poucos, o respeito que, à base de fintas, golos e títulos, foi conquistando, teve impacto não só na sua imagem pessoal mas, como que a reboque, catapultou a modalidade em Portugal para um nível que, no início da sua carreira, poucos acreditariam.

Ricardo Filipe Silva Duarte Braga estreou-se pela seleção nacional a 26 de junho de 2003, contra Andorra. Agora, depois de 187 internacionalizações, 141 golos e presença em cinco Europeus e quatro Mundiais, Ricardinho anunciou que não voltará a jogar com as cores portuguesas.

Numa emocionada conferência de imprensa na Cidade do Futebol, o jogador - que continuará a sua carreira a nível de clubes - explicou que "a questão não é" que "não se sinta útil ou capaz", porque "a nível físico" sabe que "se pode superar". Mas a "exigência" que coloca em si "diariamente", para ser "preponderante e decisivo", "causa um desgaste mental", sendo "aí que está, neste momento", a sua "dificuldade".

"Continuo a sentir-me útil, mas há um momento da nossa vida que, na minha opinião, é o mais difícil, que é o saber sair e dar o lugar a outro", disse o jogador, que considerou que "dar um passo ao lado não é sinal de fraqueza, mas sim abrir portas a outros atletas para que o futuro seja mais brilhante".

O percurso de Ricardinho com a camisola das quinas é um relato que conjuga magia e competitividade, "cabritos" e títulos, "vírgulas" e conquistas. Através do seu jogo virtuoso, capaz de atrair as atenções da "geração Youtube" para a modalidade, Ricardinho foi elevando e prestigiando o futsal português, exercendo, simultaneamente, o papel de líder dentro da quadra e embaixador fora dela.

Estreando-se por Portugal menos de três anos depois do Mundial 2000, na Guatemala, quando um inesperado 3.º lugar marcou o pontapé de saída para a ascensão do futsal no nosso país, Ricardinho rapidamente se tornou no homem que, a cada nova fase final, carregava as esperanças lusas. Afinal de contas, aqueles pés com cola, ancas dançarinas e mente criativa e competitiva mostravam-se capazes de dominar o futsal de clubes em Portugal (cinco vezes campeão nacional), Espanha (hexacampeão espanhol) e Europa (três vezes campeão continental de clubes).

Ian MacNicol - FIFA/Getty

No entanto, durante algum tempo, o brilhantismo individual de Ricardinho na seleção não tinha correspondência em títulos coletivos. No Europeu 2007 disputado em Portugal, a sua primeira fase final, um golo num pontapé acrobático colocou a equipa de Orlando Duarte a vencer, nas meias-finais, a Espanha por 2-0, mas os vizinhos ibéricos conseguiriam o empate e venceriam nos penáltis; no Mundial 2012, três golos contra Itália não foram suficientes para evitar a eliminação nos quartos-de-final; no Europeu 2016, seis golos em três jogos - incluindo aquele contra a Sérvia - não evitaram a queda nos quartos-de-final contra Espanha; e nem os impressionantes 12 tentos em sete encontros no Mundial 2016 valeram mais do que um 4.º lugar.

Foi já depois das três décadas de vida que os muitos anos de talento esforçado de Ricardinho, conjugados com a aposta sistemática da Federação Portuguesa de Futebol na modalidade, tiveram a recompensa da glória coletiva. Em 2018, na Eslovénia, Portugal sagrou-se campeão europeu, com Ricardinho como melhor jogador e melhor marcador da competição, enquanto em 2021, na Lituânia, os homens de Jorge Braz sagraram-se campeões do mundo, sendo o capitão luso considerado o melhor jogador do certame.

Com Ceferin, o presidente da UEFA, a dar-lhe o prémio de melhor jogador do Euro 2018

Com Ceferin, o presidente da UEFA, a dar-lhe o prémio de melhor jogador do Euro 2018

JURE MAKOVEC/Getty

Condicionado pela lesão que colocou em risco a sua participação no Mundial, Ricardinho assumiu que "cada dia era um sofrimento" ao longo do torneio na Lituânia. Sem a relevância goleadora de outras ocasiões - marcou duas vezes na competição, chegando aos 22 golos em Mundiais, aos quais junta outros 22 tentos em Europeus, foi, ainda assim, o líder em assistências da prova (sete) e fez sempre valer a sua liderança, competitividade e até capacidade defensiva.

"Nós, portugueses, temos sempre a mania de querer desvalorizar um pouco esse tipo de feitos, mas eu digo-o claramente: para mim, é o melhor jogador de sempre. Ponto", disse, à Tribuna Expresso, Pany Varela depois da inédita conquista na Lituânia.

Alex Caparros - FIFA/Getty

Ainda jogador dos franceses do ACCS, a possibilidade de Ricardinho abandonar a seleção já vinha a ser discutida há vários meses sendo, agora, confirmada. Recorde-se que Portugal disputará, em janeiro e fevereiro, o Europeu de futsal, nos Países Baixos, no qual tentará defender o título conquistado em 2018.

Após 18 anos ao serviço da seleção nacional, Ricardinho deixa-a como campeã da Europa e do Mundo, estatutos que se cruzam com o patamar de lenda do desporto português no qual o canhoto, indiscutivelmente, se encontra. Em 2003, o futsal português era, tal como Ricardinho, um adolescente talentoso à procura da afirmação internacional. Em 2021, a modalidade é, tal como Ricardinho, uma referência consolidada a nível global. A viagem do futsal é a viagem de Ricardinho, o mago que, com o seu pé esquerdo, ajudou a desenhar grande parte de um percurso glorioso.