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O último grande herói

Quando ele apareceu era diferente dos outros: juntava o talento sem fim ao sentido de humor, à constante brincadeira, àquela honestidade pueril de quem diz o que pensa mas com um toque de leveza. Hoje, no dia em que faz 40 anos e prestes a começar a 24.ª temporada no Mundial, Valentino Rossi continua a ser o mais popular e mais carismático piloto da grelha, para lá dos nove títulos que o colocam como um dos mais ganhadores de sempre. E apesar do último título já ter quase 10 anos, ele continua a ser diferente e continua a querer ganhar

Lídia Paralta Gomes

NurPhoto

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O paddock de qualquer corrida do MotoGP é um sítio curioso. Há uma série de camiões, perfeitamente alinhados em várias filas, aqueles monstros de metal milimetricamente separados uns dos outros em pequenos corredores onde há um vai e vem constante de mecânicos. Pelo meio, estão os enormes pavilhões do hospitality de cada equipa, alguns verdadeiros castelos andantes, para onde convergem patrocinadores, convidados, pilotos e jornalistas na hora das conferências de imprensa que antecedem a corrida.

Há um certo afã naqueles movimentos pendulares, aos quais se juntam alguns fãs com privilégios de por ali passear, mas o paddock é quase sempre um sítio tranquilo.

Exceptuando numa situação: quando Valentino Rossi aparece.

Quando Valentino Rossi aparece - e ele às vezes fâ-lo de supetão, junto ao camião da equipa ou na sua trotineta eléctrica - o paddock entra em convulsão. Há burburinho, o rumor espalha-se rapidamente e há gente a correr de uma ponta a outra de caneta e bloco de notas na mão à procura de um autógrafo do italiano, de telemóvel em riste à espera de conseguir aquela selfie.

Há ali uns 10 minutos de êxtase. Sempre com aquele sorriso que parece impossível de lhe tirar da cara, Rossi rabisca umas rubricas, tira umas fotos, manda piadas em italiano gingão ou naquele inglês que na verdade é uma espécie de italglish, apesar dos anos e anos a correr o Mundo. Depois desaparece de novo no escuro da box no seu passo leve mas acelerado, jovial, como se continuasse a ter 20 anos - ele sabe que aqueles 10 minutos com os fãs, os indefectíveis fãs, os mais apaixonados do MotoGP, são 10 minutos que deixam uma marca na vida de umas quantas pessoas.

A cada grande prémio, o amarelo fluorescente de Rossi continua a ser a cor dominante nas bancadas

A cada grande prémio, o amarelo fluorescente de Rossi continua a ser a cor dominante nas bancadas

ROBERT MICHAEL/Getty

Sempre foi assim e continua a ser assim, mesmo no dia em que olhamos para o calendário e nos damos conta da inexorável passagem do tempo: este sábado, 16 de fevereiro de 2019, Valentino Rossi faz 40 anos e aos 40 anos, no meio de alguns miúdos que nem eram nascidos quando ele começou nestas lides do Mundial, Rossi pode já não ser o que ganha mais, mas continua a ser o mais carismático e o mais popular.

Aos 40 anos, lá vai ele para a sua 24.ª temporada na alta roda e o amarelo fluorescente que ele tanto gosta e que é a sua imagem de marca em pandilha com o 46 – o seu número de sempre porque já era o número do seu pai – vai continuar a ser a cor mais presente nas bancadas. E o paddock vai continuar a entrar em polvorosa sempre que ele aparecer de surpresa.

Porque, e perdoem o coloquialismo, Rossi é Rossi. Quando ele apareceu era diferente dos outros: juntava o talento sem fim ao sentido de humor, à constante brincadeira, àquela honestidade pueril de quem diz o que pensa mas com um toque de leveza. E hoje, quase 25 anos depois, continua a ser diferente dos outros, porque os putos novos, como Lorenzo ou Márquez, são muito bons, mas como o próprio Rossi disse em tempos “são muito sérios, treinam todos os dias, nem bebem uns copos”.

DE TAVULLIA PARA O MUNDO

Há exatamente quatro décadas que em Urbino, ali algures a meio da bota que é Itália, nascia Valentino Rossi, que poucos anos depois haveria de mudar-se para Tavullia, uma terriola de oito mil habitantes ali ao lado que se hoje é conhecida é por ele: Rossi.

Era ainda Rossi um garoto quando o pai lhe comprou o primeiro kart, porque Stefania, na altura mulher de motociclista, ficava com o coração nas mãos por ver o filho nas mesmas andanças que Graziano, que nos seus tempos também tinha andado pelo Mundial, onde chegou a vencer por três vezes.

Com o pai Graziano em 1997, ano do primeiro título mundial

Com o pai Graziano em 1997, ano do primeiro título mundial

Mondadori Portfolio/Getty

Nas quatro rodas, Valentino era quase tão bom quanto nas duas e pai e filho chegaram a avaliar a hipótese de Rossi seguir para campeonatos europeus de kart, o primeiro passo para se chegar aos monolugares e depois à Fórmula 1. Mas os elevados custos demoveram a família e Valentino passou a dedicar-se exclusivamente às minimotos, onde se tornaria campeão italiano de endurance, em 1992.

A partir daí foi sempre a progredir. Em 1994 e 1995 competiu no campeonato italiano de 125 cc e em 1996 estreou-se no Mundial. Um ano depois tornar-se-ia campeão mundial pela primeira vez, a primeira de nove. A passagem para as 250 cc e depois para as 500 cc, então a categoria-rainha, fez-se ao mesmo ritmo: um ano de adaptação e campeão à segunda temporada.

Na categoria máxima, que a partir de 2002 passou a denominar-se de MotoGP, Rossi venceu cinco vezes seguidas, de 2001 a 2005, três vezes com a Honda e duas com a Yamaha. E depois de dois anos de hiato, voltou a ser campeão em 2008 e 2009, também com a Yamaha.

A SECA

Em 2009, quando venceu o seu 9.º título, 7.º na categoria máxima, número só ultrapassado pelo mítico Giacomo Agostini, Rossi tinha 30 anos e já se considerava um veterano. No GP Malásia, onde garantiu o 1.º lugar no Mundial de pilotos, subiu ao pódio com uma t-shirt em que se podia ler, em bom italiano, Gallina vecchia fa buon brodo, que em português é qualquer coisa como “Galinha velha faz bom caldo”.

A declaração, à altura, parecia um pouco exagerada: Rossi era dominador, parecia dominador para os anos seguintes, mas daí para cá, num misto de azar, más decisões e o surgimento de uma nova geração de talentos deixou Rossi a seco – mas quase sempre na luta.

A festejar o último título, em 2009

A festejar o último título, em 2009

Victor Fraile Rodriguez/Getty

O ano de 2010 perdeu-se no momento em que nos treinos do GP São Marino, em Mugello, uma queda escaqueirou-lhe a perna direita. A época esteve para acabar ali, mas Rossi, que parece pequeno mas é difícil de quebrar, regressou às pistas apenas 40 dias depois, ainda de muletas. Era a primeira vez que Valentino perdia corridas por lesão e a ausência deixou-o fora da luta pelo título.

No ano seguinte, Rossi tomou aquela que hoje reconhece ter sido uma das piores decisões da carreira. Melindrado pela contratação de Jorge Lorenzo pela Yamaha, mudou-se para a Ducati, uma moto temperamental e de controlo difícil. E em 2011 e 2012, pela primeira vez, Valentino não venceu qualquer corrida. O ano de 2011 ficou ainda negativamente marcado pela morte de Marco Simoncelli, amigo e protegido de Rossi, durante o GP Malásia.

Honesto como é, como sempre foi, em 2015, numa entrevista a Colin Edwards, seu companheiro de equipa entre 2005 e 2007, admitiu que em 2013 voltou a Yamaha “com o rabinho entre as pernas”.

“Ir para a Ducati foi um bom erro, e digo bom erro porque agora compreendo a Yamaha: quando tens uma grande moto queres ter dois pilotos de topo e por isso quando voltei tentei dar-me bem com o Lorenzo e com todos”, revelou.

Certo é que a relação entre os dois nunca foi pacífica e a animosidade atingiu o topo em 2015, quando Rossi acusou o seu colega de equipa e Marc Márquez de se unirem para evitarem o seu 10.º título mundial – e o campeão seria mesmo Lorenzo, num GP Valência em que Rossi partiu do último lugar da grelha após ser penalizado por provocar uma queda a Márquez, para recuperar até ao 4.º lugar. Foi insuficiente, mas na terra do seu rival, foi Rossi que o público de Valência aplaudiu de pé. Já Lorenzo, no pódio, festejou o título sob um coro de assobios.

As rivalidades assanhadas

O Grande Cisma de 2015 terá sido o momento em que o público, habituado a amar Rossi, a admirar-lhe o talento e o descaramento, percebeu que, dentro das pistas e entre os seus pares, nem todos sentiam o mesmo.

A luta de dentes arreganhados entre o italiano e Marc Márquez, que chegou inclusivamente ao TAS depois da sanção ao transalpino, dividiu a grelha entre os que apoiaram incondicionalmente Rossi e os viram no miúdo espanhol uma vítima inocente de um certo mau perder do veterano.

Mas Márquez está longe de ser a única pedra no sapato de Rossi, que ao longo de toda a carreira na categoria principal teve as suas tricas com rivais. A primeira grande batalha foi com o compatriota Max Biaggi, um prodígio nas categorias inferiores mas que nas 500 cc e MotoGP esbarrou com o aparecimento de Rossi, coisa que não lhe caiu particularmente bem, até porque o romano não podia ter um comportamento mais distante da simpatia e extravagância de Rossi.

Rossi ladeado de Biaggi e Gibernau, os dois primeiros grandes rivais

Rossi ladeado de Biaggi e Gibernau, os dois primeiros grandes rivais

Dan Regan/Getty

A rivalidade ficou feia no GP Japão de 2001, quando Biaggi terá tentado tirar Rossi de pista com uma cotovelada. O miúdo respondeu com o dedo do meio em riste umas quantas voltas mais à frente, depois de ultrapassar o rival. Os dois chegaram mesmo a vias de facto alguns grandes prémios depois: em Barcelona, antes do pódio, voaram punhos.

A rivalidade entre os dois italianos amainou quando Biaggi deixou de ter pedalada para fazer face a um Rossi que se tornou imbatível nos primeiros anos do século 21.

E com Biaggi em queda, Sete Gibernau tomou o lugar de nemésis de Rossi. Os dois começaram por ser amigos de casa, mas a rivalidade na pista afastou-os, depois de alguns desaguisados em corridas, nomeadamente no GP Jerez de 2005, onde o catalão acusou Rossi de o colocar fora de pista na última curva da prova. Durante anos e anos não se falaram, até 2009, quando Gibernau fez um fugaz regresso à competição.

A TERNURA DOS 40

Foi nesse ano de 2015, com 36 anos, que Rossi esteve mais próximo do decacampeonato, que ficou a apenas 5 pontos. Em 2016 voltou a ser vice-campeão e em 2017 foi apenas 5.º no Mundial, ano em que aos 38 anos e 129 dias se tornou no mais decano dos vencedores de corridas deste século. Na última temporada foi 3.º apesar de não ter vencido qualquer corrida, o que nos diz que aos 40 anos Rossi continua a ser um dos mais consistentes da grelha.

E ainda não perdeu a esperança de voltar aos títulos, ele que tem contrato com a Yamaha até ao final de 2020. Numa recente aparição num programa de entrevistas da RAI, o canal estatal italiano, Valentino recordou como ainda mantém todos os seus rituais, de como ainda fala como a sua moto durante uma boa meia-hora antes da corrida começar (“É como uma saída romântica”, disse), de como continua a assistir sempre à partida da corrida de Moto3 para contar quantos segundos demora o sinal vermelho a apagar-se, de como mantém a tradição de, antes de subir para a moto, parar a cerca de dois metros dela e fazer uma espécie de vénia.

Contou ainda uma curiosa história, sobre o dia em que uma professora da juventude se cansou definitivamente dos seus constantes atrasos, ele que ao contrário dos colegas chegava sempre na sua adorada moto à escola. “Apontou para a moto e disse-me que eu nunca ia ganhar dinheiro com ela”, disse a sorrir, sempre a sorrir, até porque os sorrisos são mais fáceis nos milionários.

Rossi: 40 anos e o mesmo amor à moto

Rossi: 40 anos e o mesmo amor à moto

D.R.

Na apresentação da nova Yamaha para a temporada de 2019 não fugiu ao grande número, ao grande 40. “Infelizmente vou fazer quarenta - sim, estou mesmo velho! - e vai ser um desafio continuar a ser competitivo com esta idade. O importante é a motivação e, mais ainda, manter-me forte. Tenho de trabalhar muito em casa, tentar treinar todos os dias com a moto mas também no ginásio”, admitiu, sublinhando que não sente muita diferença entre “os 36 e os 40”, mas que muita coisa mudou dos “25 para os 40”.

Vencer uma corrida com 40 anos será, per se, um feito: desde 1962 só dois pilotos o fizeram, em todas as categorias. E ser campeão com 40 anos é algo que não se vê há mais de 50 anos.

Mas mesmo que não chegue lá, Il Doctore, que quando deixar as motos quer dedicar-se à sua academia de pilotos e fazer um Dakar, já é dono de alguns dos mais impressionantes recordes da história do motociclismo de velocidade. Na categoria-rainha é de longe o piloto com mais grandes prémios da história (323), o piloto com mais vitórias (89), o piloto com mais pódios (196) e com mais pódios consecutivos (23). E este são só os números mais importantes.

Difícil fica o recorde de mais grandes prémios ganhos em todas as categorias: Giacomo Agostini tem 122 e Rossi 115.

Mas, para quem tem o desejo de correr pelo menos mais dois anos, não é impossível.