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Há 20 anos, Felisberto pegou numa 500. Foi o primeiro. “Agora, o Miguel Oliveira abriu uma porta muito grande que estava soldada”

Antes de Miguel Oliveira, houve Felisberto Teixeira. O antigo piloto nascido em Paris, em 1970, foi o primeiro e, até 2019, único português a fazer uma corrida na categoria máxima do mundial de velocidade. Aconteceu em 1998, através de um convite que surgiu para fazer o GP Espanha, em Jerez. Em conversa com a Tribuna Expresso, Teixeira lembra essa tarde de maio, a única corrida que fez nas 500cc, e deixa rasgados elogios a Miguel Oliveira, um piloto com quem a maior parte das equipas gostaria de trabalhar"

Lídia Paralta Gomes

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Este domingo, quando as luzes vermelhas se desligarem na grelha de partida do circuito de Losail, no Qatar, arranca mais uma temporada do Mundial de MotoGP. E este ano é especial, já que pela primeira vez teremos um português a tempo inteiro na categoria máxima do motociclismo de velocidade.

Mas Miguel Oliveira não será o primeiro a fazer uma corrida na mais importante categoria do Mundial. Antes de Miguel, houve Felisberto Teixeira. O português, nascido em Paris em 1970, destacou-se no nacional de velocidade antes de receber um convite para estar no GP Espanha de 1998, nas então 500 cc.. Aos volantes de uma Honda, foi 22.º classificado, a uma volta do vencedor, o espanhol Alex Crivillé.

De Felisberto a Miguel, passaram mais de 20 anos e o antigo piloto, que foi ainda o primeiro português a fazer o Mundial de Supersport a tempo inteiro e viria também a fazer o GP Portugal nas 250 cc., diz ser um completo fã do homem da KTM, a quem, garante, não precisa de dar conselhos. Lembra também aquela tarde de maio em 1998, que acabou por não ter seguimento. Mas ficou o concretizar do sonho de conduzir junto aos melhores do Mundo.

O Felisberto correu o GP Espanha de 1998, em Jerez, com um wild card. Em que circunstância surgiu esta oportunidade?
Na altura eu fazia parte da estrutura do Team Suzuki Shell, em que tínhamos um apoio muito forte da Shell, e havia um desejo muito grande da federação, da Shell e minha também em fazermos o campeonato do Mundo de velocidade. Tivemos esse convite para fazer a corrida e achámos na altura que seria o melhor caminho para vir a fazer o campeonato completo, mas na altura acabou por ficar só por essa corrida.

Foi então também uma aposta da Federação Portuguesa de Motociclismo em ter um piloto no Mundial.
Sim, sem dúvida. Foi com o apoio da federação e tenho de agradecer a quem na altura liderava, o Jorge Viegas, que hoje em dia, com todo o mérito é presidente da federação internacional. Teve sempre um empenho muito grande e sempre teve vontade em ter um português, pelo menos um, para abrir portas no campeonato do Mundo de velocidade. Isso aconteceu comigo, porque também depois fiz uma prova nas 250 cc. [GP Portugal de 2000], e agora temos lá o Miguel.

Que recordações tem da corrida, em Jerez? Era algo completamente diferente do que até então tinha feito?
Foi tudo novo, porque na altura as 500 cc. eram uma moto diferente, que só competia no campeonato do Mundo. Foi a primeira vez que guiei uma 500 cc., primeira e única, e toda a envolvência do que é o Mundial de velocidade, um mundo em que tudo se vive muito intensamente... mas depois no momento da corrida, as memórias que tenho é que é uma corrida igual a tantas outras que fiz. A partir do momento em que estamos para arrancar acho que aí abstraímos-nos do peso da categoria. É mais uma corrida em que tentamos fazer o melhor.

Sentiu no paddock e na corrida que estava em algo tão importante como na altura já era o Mundial de velocidade?
Ah, sim. Enfim, a diferença que existe para agora é que hoje em dia existe uma exposição maior devido à internet, há muito mais informação e a informação chega mais rápido. Quanto ao resto acho que as diferenças não são muito grandes.

Qual é a melhor recordação que tem dessa corrida?
A sensação de que estava a concretizar de um sonho de vários anos, o perceber que era possível concretizar aquele sonho que tinha alimentado.

Em 1998 parecia-lhe possível que Portugal tivesse no futuro um piloto a tempo inteiro na categoria máxima?
Sempre acreditei que sim. Eu próprio tentei, não foi possível, mas houve um caminho longo que o Miguel e as pessoas que estão à volta do Miguel, como o pai dele, percorreram de forma exemplar e exímia. E deu frutos: hoje o Miguel é um piloto que está de pedra e cal no campeonato do Mundo, é um piloto desejado por grande parte das equipas. Não tenho dúvidas que grande parte das equipas gostaria de ter o Miguel a trabalhar para eles.

Felisberto Teixeira foi 22.º no GP Espanha de 1998

Felisberto Teixeira foi 22.º no GP Espanha de 1998

Entre a participação do Felisberto e a estreia do Miguel Oliveira no MotoGP passaram mais de 20 anos. Porque é que acha que foi preciso tanto tempo até voltarmos a ter um piloto na categoria máxima?
Portugal não é um país com tradição de motociclismo e parte logo por aí. Por isso, todo o trabalho e todo o esforço são sempre maiores do que em outras modalidades. No motociclismo isso não acontecia. E o Miguel fez um longo caminho, um caminho bem feito, que demorou anos a dar frutos, mas eles estão aí e bem maduros e sãos.

E acha que agora será mais fácil aparecer outros Miguéis e que não teremos de esperar 20 anos para que tal aconteça?
Sim, não tenho qualquer dúvida disso. Para já porque o Miguel abriu uma porta que estava soldada e vai fazer com que haja mais pessoas a acreditar que é possível. O Miguel criou também, e é de salutar isso, a sua escola, que está a fazer um excelente trabalho. Não tenho dúvidas que num futuro próximo vai sair de lá mais alguém para o campeonato do Mundo.

Somos vizinhos da maior potência do motociclismo de velocidade. Porque é que este sucesso dos espanhóis não "contaminou" Portugal? É por sermos mais pequeninos?
É uma questão de mentalidade. Os espanhóis têm uma mentalidade no desporto muito distinta da nossa. Eles, para já, têm tradição no motociclismo, mas além disso as próprias entidades estatais têm um empenho muito particular e muito ativo em qualquer desportista e dão-lhes meios para que estes cheguem ao topo. Daí os espanhóis terem campeões do Mundo em tudo o que é modalidade.

O que lhe parece que o Miguel Oliveira pode fazer nesta temporada de rookie na categoria máxima?
O Miguel, acima de tudo, vai crescer, junto da equipa e da moto, que é um moto nova e que precisa de muito desenvolvimento. E está numa equipa excelente, que gosta de trabalhar bem os novos pilotos. Penso que o Miguel vai crescer imenso e penso que poderemos ter boas surpresas durante a época. A nível de resultados, numa fase inicial, não creio que seja possível esperar muito, por tudo o que já referi, mas no futuro acho que teremos boas surpresas.

Ele está mais que tarimbado nas lides do Mundial, já são muitos anos a correr, mas enquanto único português que fez uma corrida na categoria principal o Felisberto tem algum conselho a dar ao Miguel Oliveira?
Não, não. Felizmente acho que não preciso de dar conselhos ao Miguel porque toda a carreira dele tem sido bem gerida e o Miguel é um piloto com muitas qualidades. Acho que vai mais uma vez fazer tudo bem feito.

Quando hoje vê uma corrida, não fica com aquela sensação de que talvez com outra sorte ou se tivesse corrido numa outra época poderia ter feito mais no Mundial?
Hoje em dia já não penso dessa forma. À época sim, vivia com esse sonho e um sonho pelo qual sempre lutei. Não foi possível fazer mais corridas, mas sinto-me muito feliz com o que fiz e com a minha passagem pelos vários campeonatos em que competi. E é um orgulho enorme ver o Miguel hoje na posição em que está. Sou completamente fã dele.

Sente que também abriu as portas para que hoje um português estivesse nesta posição?
Não sei se poderemos levar por aí, mas garantidamente fui um dos que tentou abrir portas. A porta foi encostada, mas o Miguel agora abriu uma porta muito grande.

O Felisberto não deixou as duas rodas porque está agora a trabalhar com a equipa de ciclismo da W52-FC Porto.
É verdade. Faço parte do staff. Somos uma equipa pequenina, mas com ambição muito grande e vamos tentar criar o nosso espaço e estatuto lá fora.

São meios muito diferentes?
Seja no motociclismo ou no ciclismo, estamos a falar de um grupo de pessoas que tem uma paixão, que leva aquilo não só como um emprego mas também como uma paixão. Acho que a grande diferença é que fisicamente há um esforço muito maior dos ciclistas, algo quase sobre-humano, mas tirando isso as semelhanças são grandes.

Miguel Oliveira estreia-se este domingo numa prova da categoria máxima

Miguel Oliveira estreia-se este domingo numa prova da categoria máxima

Mirco Lazzari gp/Getty