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Miguel Oliveira: “Tenho a certeza de que vou ser campeão do Mundo”

Aos 23 anos, o primeiro português a correr no Mundial de Motociclismo quer acelerar rumo ao título de Moto 2, o último degrau antes da categoria rainha da modalidade. A Medicina Dentária pode esperar. Esta entrevista foi publicada originalmente no Expresso a 5 de outubro de 2018

Nelson Marques

Nuno Botelho

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"És o maior!”, grita-lhe um homem de um carro em andamento junto à baía do Seixal. Ele, Miguel Oliveira, nem é propriamente grande: mede 1,70 m e pesa apenas 64 quilos, o que parece pouco, mas é ideal para quem quer acelerar na pista até aos 300 km/h. Porém, quando se senta em cima de uma moto, serpenteando entre os adversários, o jovem de Almada parece enorme no talento e na determinação com que ataca cada ultrapassagem.

Cinco corridas e 19 pontos separam-no de ser, de facto, o maior, o campeão do mundo de Moto 2, antecâmara do Moto GP, a F1 do motociclismo. O campeonato do mundo não passa por Portugal desde 2012, mas pelo menos aqui, na Margem Sul, onde nasceu há 23 anos, Miguel joga em casa. O homem que há pouco lhe gritara um incentivo inverte a marcha, estaciona na berma e sai do carro de telemóvel na mão. “Posso tirar uma foto consigo? Caramba, não é todos os dias que se tem esta oportunidade?” O piloto sorri, diz que sim. Já tinha sido assim minutos antes, quando um jovem motard o reconheceu e parou para tirar uma selfie com aquele que é o primeiro português a competir no Mundial de Motociclismo.

Desde a estreia, em 2011, não tem parado de subir degraus. Foi vice-campeão em Moto 3, está na luta pelo título de Moto 2 e para o ano estará no Olimpo da modalidade, a competir ao lado do seu ídolo de sempre, o italiano Valentino Rossi. O curso de Medicina Dentária é para ir fazendo a conta-gotas. Por agora, a prioridade é outra: continuar a fazer história. Ao ouvir a sua determinação, ninguém duvidará que o conseguirá.

Qual é a tua primeira memória de infância?
É relacionada com as motos, elas estiveram sempre muito presentes. Comecei num triciclo elétrico e gastei as rodas de tanto andar. Depois, com três anos, o meu pai ofereceu-me uma moto 4. Lembro-me de sair com ele, cada um na sua, andávamos na rua, íamos para um areal na Charneca da Caparica. Com três, quatro anos, já andava em duas rodas, fazia peões, saltava um bocadinho alto. Um dia tive um acidente, aterrei dentro de uma vala. O meu pai ficou um pouco assustado e vendeu a moto. Dos 5 aos 9 anos nunca mais voltei a andar.

Por causa do susto?
Sim, e também devido a outros incidentes. Eu não tinha muito controlo, fazia muitas maluquices. Lembro-me de descer umas escadas de moto 4 e só parei dentro da porta do carro da minha tia, amolguei-lhe a porta toda. Algumas pessoas diziam ao meu pai: “Ó Paulo, vê lá, o miúdo ainda é muito novo.” Ele decidiu que era melhor deixar-me crescer um bocadinho.

Por pouco não nasceste em cima de uma moto.
Nesse dia os meus pais decidiram ir à Lagoa de Albufeira numa moto, por uma estrada de areia com muitas lombas, por onde só andam jipes ou motos. Nasci mais tarde, às não sei quantas da manhã. O meu pai era motard, ia às concentrações, fazia viagens e gostava de dar a sua volta ao fim de semana. Cresci rodeado de motos na garagem e elas fascinavam-me. Mais tarde, quando eu tinha 8, 9 anos, ele juntou algum dinheiro e começou a correr no Campeonato Nacional de Velocidade. E isso fez despertar em mim esse interesse.

Ainda te lembras da primeira corrida que fizeste?
Lembro-me, julgo que foi no autódromo de Braga, mas não tenho a certeza. Tinha 9 anos e estava muito nervoso, a tremer. Saí de último, tinha acabado há pouco tempo de aprender a pôr mudanças, era uma experiência muito nova para mim. Estava muito fora da minha zona de conforto.

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Foi o teu pai que te incentivou a competir?
Não, não, eu queria correr. A moto tem uma coisa fascinante: quando começamos a andar não sabemos nada, o que nos causa algum receio; depois aprendemos a pôr a mudança, a tirar, a travar, entramos num circuito, percebemos que a moto inclina, que dá para inclinar um pouco mais, que dá para travar um pouco mais tarde, acelerar um bocadinho mais cedo, vamos aproximando-nos cada vez mais do limite e isso é uma sensação que não se explica. Senti um grande vício por essa adrenalina desde muito miúdo. Cada vez que me monto em cima de uma moto tenho essa sensação. Quando não a sentir, vou retirar-me.

Quando não estás a correr, como é que preenches o vazio provocado pela ausência de adrenalina?
É muito difícil ir buscá-la a outros sítios. Já tive outras experiências e nada se compara a andar de moto, sentir a velocidade, o vento, as forças que a moto nos dá. É uma coisa que muito dificilmente se consegue reproduzir. Por isso, a minha vida fora das pistas acaba por ser um contraste enorme, quero é estar calmo para ter a estabilidade de que preciso para correr.

No primeiro ano em que competiste ficaste em último lugar em todas as corridas. Não perdeste o entusiasmo?
Não, não. [risos] Sabia que estava a competir com meninos mais velhos do que eu, sabiam muito bem pôr mudanças, já tinham outras experiências de moto. Queria ser como eles e aceitava o facto de que tinha de trabalhar mais. Por isso é que no ano a seguir ganhei tudo o que havia para ganhar: todas as provas do troféu onde competia em Portugal, o Mini GP. Também já fazia corridas lá fora [em Espanha] e ou ganhava ou ficava em segundo. Ganhei nesse ano uma corrida em Valência em que participavam mais de 90 jovens de todo o mundo. Venci com 17 segundos de vantagem.

Antes ainda experimentaste os karts.
Fiz um troféu em Palmela com oito anos, mas foi só. Não voltei a correr.

Porquê?
Afastei-me por causa do ambiente, senti que não me enquadrava. Venho de origens humildes e na altura passávamos dificuldades económicas, o meu pai não era uma pessoa com um bruto Mercedes como tinham os outros pais. Havia essa vertente socioeconómica que me fazia estar muito distante dos outros miúdos. Depois, passavam-se muitas situações com as quais eu não me identificava, era um ambiente demasiado competitivo, os pais a dizer aos filhos que tinham de ficar à frente dos outros. Disse ao meu pai que não queria continuar.

O que é que os teus pais faziam na altura?
O meu pai estava ligado à construção civil, tinha uma empresa, foi largando-a aos poucos quando começou a tratar da minha carreira. A minha mãe era empregada a dias.

Ela lidava bem com o perigo a que estavas exposto?
Sim, tive a felicidade dos meus pais serem muito abertos em relação a isso. Talvez no início houvesse algum desconforto, porque eu caía muitas vezes. Um dia cheguei a dizer ao meu pai que compreendia se ele quisesse que eu deixasse de andar, mas ele respondeu-me que enquanto eu me divertisse iria tentar proporcionar-me isso. Continuo a divertir-me.

Quando é que o motociclismo se tornou uma coisa séria?
Não sei, não houve uma transição clara. Os passos nunca foram maiores do que as pernas, fui progredindo nas categorias. Com 14 anos estava a disputar um europeu e um campeonato de Espanha, mas para mim era mais uma corrida, mais um passo, mais um objetivo. Tem sido assim até hoje. Mesmo quando eu sabia que o meu pai gastava muito dinheiro nas corridas e tínhamos muitas dificuldades para ir correr em Espanha nunca senti esse peso da responsabilidade, de ter de ganhar a corrida para justificar alguma coisa. O meu pai tem muito mérito nisso, porque nunca me cobrou nada e sempre tentou que eu não percebesse esses sacrifícios. Dou por mim e, com 18, 19 anos, estou a correr no Campeo­nato do Mundo.

Tens ideia de quanto é que a tua família investiu na tua carreira?
É uma pergunta mais para o meu pai, mas [foram] centenas de milhares de euros. Quando comecei ele devia gastar 50, 60 mil euros por ano nas corridas. Foi-se pagando também com a ajuda de amigos e de patrocínios. Comecei a ser pago para correr em 2012, no meu segundo ano de Mundial. Desde então não tenho pago absolutamente nada e é assim que deve ser, porque corremos ao mais alto nível e não devemos pagar para estar em cima de uma moto a arriscar a nossa vida, deve ser o contrário. Só os muito bons é que são pagos e tenho a felicidade de o ser desde os 17 anos. Tive muitas ajudas, de empresas portuguesas e não portuguesas, sem elas não teria chegado onde cheguei, mas não levei uma mala com dinheiro para chegar ao Moto GP. Entrei por mérito próprio.

Ganha-se bem?
Podia ganhar-se mais. Se compararmos com o futebol, ganhamos uma miséria, mesmo em relação a futebolistas medianos. E o risco que corremos não tem nada a ver. Mas compreendo e aceito que é assim, pelos milhões que o futebol move. Tem a ver com a indústria e o que ela gera.

Esta época, o teu salário anual estará entre os 100 mil e 150 mil euros.
Exatamente.

Para o ano, com a subida ao Moto GP, deverá superar os 200 mil.
Muito provavelmente, sim.

O que é que muda com o Moto GP? No primeiro teste que fizeste com a moto do próximo ano disseste que era como estar dentro de uma máquina de lavar.
Muda muita coisa, a responsabilidade, as velocidades a que andamos, sei lá... É uma moto que anda muito, em menos de 15 segundos estamos nos 300 km/h. É uma coisa parva mesmo, uma sensação brutal, difícil de explicar. Chegar ao Moto GP traz-me alguma calma, porque era um objetivo que tinha desde pequeno e finalmente consegui. Trabalhei para ter esta oportunidade e agora vou aproveitá-la ao máximo. Mas logicamente há objetivos maiores.

Qual é a tua ambição para o primeiro ano?
Quero ser o melhor estreante, sem dúvida.

Vais ter de te preparar de forma diferente?
Imagino que sim, será mais difícil a todos os níveis, será preciso mais força julgo eu, mas depois dos testes perceberei melhor.

Como é que é a tua preparação durante a época?
Há sempre umas horas por dia dedicadas à preparação física. Três dias por semana são feitos em ginásio, três são cardio. Trabalhamos a força, a resistência muscular, o equilíbrio. Se há alguma corrida que tem uma exigência mais específica, também trabalhamos isso. Aproveitamos a pré-época para trabalhar alguma área que queiramos melhorar. Durante a época é mais manutenção.

Dói muito o corpo depois de uma corrida?
Dói a cabeça, doem as costas, os braços, as pernas, depende muito do circuito. Mas passa rápido.

Já partiste um dedo, um mão, um braço, uma clavícula. Nunca há medo de cair?
Não existe medo. Os nossos meios de segurança são muito bons, tanto a nível de circuito como de equipamento. Estamos muito bem protegidos, é muito improvável haver uma falha mecânica que nos provoque uma queda. Cada vez que me sento na mota estou muito confortável, sei que se acontecer alguma queda será por algum erro meu ou de outro piloto. Na maior parte do tempo estamos no controlo, mas existe uma parte que temos de deixar à sorte.

Uma tragédia como a do Marco Simoncelli [morreu em 2011 durante uma corrida, depois de cair e ser atropelado por dois concorrentes] não mexe com os pilotos, não cria dúvidas?
Vi a prova e lembrei-me que o nosso desporto é realmente fantástico. Sim, houve uma pessoa que nos deixou, mas a recompensa vale muito o risco que corremos. São sensações que valem realmente a pena, é o estilo que vida que levamos e é o reconhecimento que depois temos das pessoas. Para mim, vale a pena correr o risco para ter um miúdo que vem ter comigo e me diz que este ano tenho de ser campeão. Servir de exemplo, servir de ídolo para alguém, sobretudo para miúdos, é extremamente gratificante. Isso para mim não tem preço. Vale tudo.

Vale uma vida?
Não vale, mas vale a pena correr o risco.

É mais perigoso na pista ou na estrada?
Na estrada, sem dúvida. A lei não obriga a usar os equipamentos que nós usamos, nós temos uma ambulância, helicópteros, uma equipa médica a segundos do nosso auxílio... Na estrada não se tem isso.

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Consegues desligar o chip do piloto no dia a dia?
Claro, quando ando de carro — e ando muito mais de carro do que de moto — sou supertranquilo, não tenho pressa para chegar a lado nenhum. Sou o oposto do que sou nas pistas.

Quando é que começaste a correr com o 44?
Em miúdo, tinha corrido em Espanha como convidado e os números eram sorteados, saiu-me o 41. Nesse fim de semana, vim correr a Portugal no domingo e, como já não sobravam números nenhuns, colocámos um 4 ao lado do outro. Ficou 44.

Foste vice-campeão em Moto 3 e, na tua última época no Moto 2, estás em 2º lugar a cinco provas do fim. Sentes que é desta que vais ser campeão do mundo?
Há uma diferença entre sentir e ter a certeza. Tenho momentos em que sinto que sim, outros em que o sinto menos, mas tenho a certeza que irei ser. Tenho trabalhado muito para isso, as coisas estão a correr bem, agora vêm corridas em que no ano passado comecei a explodir e tive três vitórias seguidas, portanto estou tranquilo, o que tiver de ser será. Já tive nesta posição várias vezes, a perseguir o primeiro classificado, e sei que para quem vai à frente é difícil gerir a pressão. Estou numa posição favorável para poder atacar.

Estão separados por apenas 19 pontos.
Há uma particularidade interessante neste campeonato, que não houve nos anos anteriores: o primeiro e o segundo classificados não estão a falhar em nenhuma corrida, ninguém está a cair, e é bastante óbvio que o título se poderá decidir em função de um erro durante a corrida. Não me posso dar ao luxo de falhar e ele também não.

Sendo que os motores são iguais para todos, como é que se fazem as diferenças?
É nas unhas [risos]. O Moto 2 é dos campeonatos mais competitivos a nível de pilotagem. A igualdade técnica é extrema, depois as diferenças fazem-se no detalhe, na afinação e na pilotagem. Diria que 80% é piloto e 20% é moto.

Qual é a lição de que nunca te esqueces dentro da pista?
[hesita] Talvez seja o respeito pelos outros, é isso que tento levar sempre para dentro da pista. Faço tudo para passar quem vai à minha frente, mas é preciso ter consciência de que dentro do outro capacete também vai uma vida humana. Há um limite.

O Fenati passou esse limite quando puxou o travão da moto de um adversário em corrida?
Teve uma atitude menos boa e foi punido pela organização com duas corridas de suspensão por causa dessa ação. Mas a comunicação social não parou de massacrá-lo, de denegrir a imagem dele, e ele acabou por sofrer as consequências disso: a equipa despediu-o, depois rescindiram-lhe o contrato na equipa onde ele ia correr no próximo ano, a Federação Internacional retirou-lhe a licença...

Foi uma punição excessiva?
Foi. Toda a gente merece uma segunda oportunidade. O Fenati se calhar teve essa segunda oportunidade antes, mas as segundas oportunidades são dadas com o propósito de ajudar não só o piloto mas também o ser humano. Uma pessoa que teve uma atitude daquelas — e que tem fama de ter tido atitudes semelhantes no passado — precisa de ajuda. Ele irá acabar na empresa de serralharia que a família tem quando era apontado como o sucessor do Valentino Rossi [nove vezes campeão mundial]. Como é que se passa em quatro ou cinco anos de ser o sucessor do Rossi a ninguém?

Competiram na mesma categoria?
Sim, muitos anos. Partilhámos pódios, sempre foi um piloto simpático, apesar de ter um temperamento complicado. Há outras histórias graves que se passaram com outros pilotos, alguns deles campeões, com atitudes se calhar piores do que as do Fenati e que não sofreram as mesmas consequências: o Casey Stoner deu um murro nas costas do De Puniet dentro da pista; o [Loris] Capirossi, que surpreendentemente hoje faz parte da comissão de segurança do Moto GP, não travou e mandou um colega da equipa ao chão; o Karel Hanika, que na altura era meu colega de equipa, foi contra outro piloto, que caiu e partiu a clavícula, e a penalização que lhe deram foi sair de último na corrida seguinte. Aquilo que fizeram ao Fenati é uma injustiça.

Tens amigos no paddock?
Nunca tive, nem vou ter. É muito difícil haver amizade entre pilotos. Este é um desporto individual, onde cada um tem de fazer por si. Os amigos posso ter em casa.

Já não há tanta farra nos bastidores das corridas como havia noutros tempos?
Não tem nada a ver. Há 20 anos, havia pilotos que fumavam e bebiam cerveja antes de irem correr, isso hoje é impensável. O nível de profissionalismo é enorme, não somos só pilotos, mas também atletas, as motos exigem muito de nós fisicamente, muito mais do que exigiam há 20 anos. Existe uma grande responsabilidade até na imagem que temos de passar cá para fora. Com as redes sociais, qualquer pessoa pode seguir o que fazemos e o que dizemos, e a margem para errar é muito menor do que era.

É mais aborrecido do que as pessoas imaginam?
Não é aborrecido, mas é uma indústria, um negócio, e nós, os pilotos, somos os palhaços do circo. Este desporto trouxe-me coisas e oportunidades que de outra forma jamais teria. Com 17 anos já tinha ido a quase todos os continentes. São muitas experiências vividas e só por isso já valeu a pena.

A F1 baniu as grid girls. O Moto GP faria bem em seguir o mesmo caminho?
Para mim não faz sentido. É algo que faz parte do glamour, do show, a maldade está na cabeça das pessoas que pensam de maneira diferente. Ninguém as obriga a estar lá. Elas querem ir, são pagas para isso, porque não? Se é uma opção delas... Não tiro nenhum benefício disso, não estou lá a olhar, não me fico a babar. O desporto motorizado é um mundo de homens. É muito mais apelativa uma mulher bonita com o nome de um patrocinador no peito do que um rapaz alto e loiro.

O que é que tens feito ao dinheiro que vais ganhando?
Vou poupando e investindo, por exemplo neste Fan Club onde estamos. Quisemos que fosse algo para os fãs, aproveitar o facto de ser o único português no Mundial de Motociclismo e tentar criar aqui uma mancha de apoio, em Portugal e fora dele. Depois, surgiram outros projetos, como a Oliveira Cup, um troféu-escola onde ensinamos miúdos dos 6 aos 14 anos. Todo o dinheiro que fazemos no merchandising aplicamos na Oliveira Cup, para dar condições aos miúdos para que não tenham as mesmas dificuldades que eu tive quando comecei. Estes miúdos podem correr por valores muito longe dos 50 mil euros que o meu pai teve de pagar. O resto tento poupar, porque a carreira de piloto é curta.

Tens algum plano para o futuro?
Em teoria é arrancar dentes [risos].

Porque é que escolheste Medicina Dentária?
Entrei noutros cursos, todos relacionados com saúde: primeiro cardio­pneumologia, depois anatomia patológica. Concorri a medicina dentária por curiosidade, nem estava a pensar ser dentista. O Instituto Superior Egas Moniz ficava perto de casa, entretanto entrei e pensei: porque não? Comecei a fazer o curso e adorei.

Quando é que foi a última vez que foste a uma aula?
Já foi no semestre passado. Abril, maio.

E o último exame?
Nesta época não fiz nenhum. O último foi de farmacologia.

Falta-te muito para terminar?
Ainda não completei o segundo ano. A minha mensagem em relação aos estudos é muito clara: não é por estarmos a chegar a algum lado na nossa carreira que temos de deixar tudo. O facto de estar a estudar é também para passar essa mensagem. Há que saber gerir a carreira, mas nunca largando os estudos com 14, 15 anos, como vejo muitos miúdos fazerem, porque têm “de treinar muito”. Nunca fiz isso e acho que esse não é o caminho. Por exemplo, ter boas notas é um dos requisitos para entrar na Oliveira Cup.

Como é a tua vida para lá do motociclismo? Há tempo para estar com os amigos?
É muito contado. Sou um miúdo normal, que gosta de estar em casa, que vê Netflix, vê corridas, vai às compras, faz a cama, cozinha...

Vives com os teus pais?
Não, vivo com a namorada.

És tu quem cozinha lá em casa?
Sim, é algo que faço bem, então a namorada adjudicou-me essa tarefa [risos]. Safo-me na cozinha, não sou nenhum atado.

Qual é a tua especialidade?
Ela gosta muito do meu esparguete com camarão. No outro dia pus-me a fazer umas fajitas mexicanas, ela não estava à espera. Adorou.

Não há Moto GP em Portugal desde 2012. Custa-te muito não correr em casa?
Custa, em primeiro lugar porque adorava poder ouvir o hino em Portugal, ganhar uma prova cá. Depois porque logicamente me fecha portas a vários patrocínios. Não ter cá um grande prémio dificulta muito mais ter um patrocinador português.

É um bom negócio para o país?
É muito simples: não há nenhuma prova a nível mundial que traga tanta receita ao país como o Moto GP traria em restauração e hotelaria. Só no IVA que o Estado recuperaria já valeria a pena. Depois, não podemos esquecer que quem paga para trazer um grande prémio pode ir buscar patrocínios. É um negócio muito atrativo, que gera grandes receitas. É por isso que existem países a pagar 20 milhões para terem uma prova. Portugal tem boas condições, o autódromo de Portimão é um excelente circuito, mas não basta querer trazer o Moto GP, é preciso que a comissão de construtores tenha interesse nisso. É lógico, por exemplo, que se vendem muito mais motos em Espanha, que tem quatro provas no calendário, do que em Portugal.

O patrão da tua equipa, o finlandês Aki Ajo, diz que não há nenhuma razão para que não sejas um dia campeão mundial de Moto GP. Sonhas com esse dia?
É como ele diz: não há nenhuma razão para não o ser [risos].