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Perfil. Joan Mir: o novo campeão do Mundo de MotoGP começou tarde nas motos, mas nunca chegou atrasado

Joan Mir é o novo campeão do Mundo de MotoGP, cuja difícil temporada de 2020 termina este fim de semana em Portimão. É lá que se vai consagrar este rapaz de 23 anos, educado e sem ego, perfecionista e consciente do Mundo, que não foi um piloto de grande precocidade, como tantos outros campeões, mas fez o seu caminho paulatinamente, seguro nas suas escolhas, até quando surpreendeu ao assinar pela Suzuki, a menos endinheirada das gigantes japoneses. Mas foi a Suzuki que lhe deu a moto perfeita para ser o mais regular dos pilotos nesta atípica temporada, em que venceu apenas uma corrida

Lídia Paralta Gomes

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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A história é pequenina, foi contada por Mat Oxley, motociclista tornado escritor, especialista nos assuntos de duas rodas da revista “Motorsport”, e pode até não parecer grande coisa, mas aí vai: já com o título de campeão do Mundo de MotoGP no bolso, Joan Mir terá deixado fugir, em jeito de lamentação - porque os tempos não estão para outra coisa -, o seguinte desabafo:

“Quero tanto ir a uma discoteca!”

Ouvir um miúdo de 23 anos que acaba de chegar ao topo do seu mundo dizer que gostava muito de ir festejar um título a uma discoteca de Valência não seria nunca notícia não fosse Joan Mir ser conhecido precisamente por não ser um miúdo de 23 anos comum. O mais recente campeão mundial de MotoGP, que terá a sua season finale este fim de semana em Portimão, num GP Portugal sem público, é, na essência, um rapaz de poucas exuberâncias, de ego pouco inflamado, sem inimigos nem polémicas conhecidas no paddock, atento ao detalhe, que passa grande parte do tempo fechado entre as montanhas de Andorra, onde vive com a namorada, Alejandra, e os três cães do casal, Dakota, Kirby e Bruno.

Talvez as pessoas assim, quase impossivelmente focadas num objetivo, que ano após ano jogam na mesa mais um sacrifício - deixar de viver na sua Palma de Maiorca natal, por exemplo, na praia, com o mar à volta, para se enclausurar nas montanhas -, talvez essas pessoas precisem uma vez por outra de tirar a válvula da panela de pressão, ir a uma discoteca, beber um copo, cometer uma loucura, fugir do seu comportamento habitual.

E isso só faz delas pessoas saudáveis.

Aos 23 anos, Joan Mir foi o surpreendente campeão mundial de MotoGP do atípico 2020

Aos 23 anos, Joan Mir foi o surpreendente campeão mundial de MotoGP do atípico 2020

Steve Wobser/Getty

A covid-19 não permitiu essa frescura a Joan Mir e ele sabe e compreende isso; aliás, a covid-19 até foi a sua grande inimiga neste ano atípico do MotoGP, que atípico foi não só porque a pandemia deixou toda a gente em casa e depois encolheu o calendário, mas também porque logo à primeira prova o dominador absoluto, o ditador Marc Márquez caiu, lesionou-se com gravidade e ficou fora de jogo para 2020. E num ano em que o título, de repente, ficou em aberto, o campeão nem sequer foi quem mais ganhou, mas sim quem foi mais cerebral, mais regular - foi com apenas uma vitória na categoria principal que Mir se tornou campeão do Mundo de MotoGP e nunca ninguém o tinha feito com tão poucas idas ao púlpito principal do pódio.

Tudo isto numa temporada que nem começou bem para o espanhol da Suzuki, a menos endinheirada das gigantes japonesas, a anos-luz do orçamento de Honda e Yamaha, e até da potência das rivais, mas que ao contrário delas construiu uma moto completa, fácil de pilotar, que ao longo do ano se adaptou como nenhuma outra às diferentes condições de pista.

Mir arrancou a temporada com dois abandonos nas três primeiras corridas, mas os sete pódios nos últimos 10 GPs, numa demonstração de consistência pouco comum para um rapaz de 23 anos e apenas na sua segunda época no MotoGP, foram essenciais para garantir o título mundial há uma semana, em Valência. Vitória foi só uma, no GP Europa, num ano em que o Mundial teve nove vencedores diferentes, um dos quais Miguel Oliveira. E o título chegou porque atrás dessa única vitória houve muitos segundos e terceiros lugares, enquanto homens como Fabio Quartararo ou Mavericks Viñales, no topo de uma lista de favoritos em que Mir seria sempre um outsider, foram complementando triunfos com resultados desastrosos.

Nada disto se faz sem os pés no chão, a cabeça fria e a inteligência de um piloto que começou tarde para os parâmetros do motociclismo, um detalhista humilde que soube esperar pacientemente pelas oportunidades, conseguindo chegar ao título máximo do motociclismo em menos temporadas que Marc Márquez ou Valentino Rossi.

Dos skates para as duas rodas

Joan Mir nasceu junto ao mar, em Palma de Maiorca, há 23 anos, filho de uma decoradora de interiores e de um comerciante. O pai, Joan como ele, tem ainda hoje bem no centro de Palma uma loja que vende material de surf, patins e skates e esse foi o mundo de Mir em miúdo. “Sempre fui apaixonado por tudo o que tivesse rodas. Os skates e as trotinetes foram a minha infância, saltar rampas no meu jardim com os meus amigos era o que eu gostava mais”, pode ler-se na biografia do maiorquino publicada no seu site oficial.

Em 2018, Mir surpreendeu ao assinar pela Suzuki, que há 20 anos vivia uma seca de títulos

Em 2018, Mir surpreendeu ao assinar pela Suzuki, que há 20 anos vivia uma seca de títulos

NurPhoto/Getty

A paixão por rodas, mas motorizadas, apareceria mais tarde. Na verdade, só aos 10 anos Joan Mir fez as primeiras voltas a um circuito, bastante tarde se compararmos com outros campeões, praticamente nascidos em cima de motos. O clique surgiu quando viu Joan Perelló, um familiar afastado do pai, a correr nas antigas 125cc. Daí seguiu para a escola de Chicho Lorenzo, pai de Jorge Lorenzo, três vezes campeão mundial de MotoGP, também ele de Maiorca, onde aprendeu os fundamentos (mas não adorou o método), antes de passar para a escola da federação balear de motociclismo.

A primeira oportunidade de correr num campeonato internacional aconteceu na Red Bull Rookie Cup, onde foi vice-campeão na segunda época, em 2014. Contudo, os bons resultados não significaram facilidades para continuar a subir. O pai arcava como podia com as despesas básicas para o filho conduzir, mas para chegar ao Campeonato Espanhol de Velocidade - uma das mais importantes portas de entrada para o Mundial - era preciso o apoio cego de uma equipa ou muito dinheiro. Foi Paco Sánchez, que ainda hoje é o seu representante, que lhe comprou um lugar numa das piores equipas do campeonato. Mas mesmo numa estrutura que sofreu várias restruturações ao longo da temporada, Mir venceu quatro corridas e no final do ano fez a estreia no Mundial de Moto3, substituindo um piloto lesionado no GP Austrália.

A subida definitiva aconteceu no ano seguinte, em 2016, já maior de idade, num Mundial de Moto3 em que não é estranho vermos pilotos de 15, 16 ou 17 anos. A idade fê-lo evoluir mais rapidamente que os outros, habituar-se com mais suavidade às exigências do Mundial e a maturidade que cedo demonstrou colheu dividendos logo à segunda época, em 2017, em que dominou todo o campeonato, sagrando-se campeão pela primeira vez.

No ano seguinte, a rápida adaptação ao Moto2 fez a Suzuki agarrar logo o piloto a meio da temporada: mesmo só com uma época na categoria intermédia, Mir não deixou fugir a oportunidade de subir desde logo ao MotoGP.

Em 2017 foi campeão mundial de Moto3, logo à segunda temporada

Em 2017 foi campeão mundial de Moto3, logo à segunda temporada

AFP Contributor/Getty

A opção pareceu a muitos demasiado arriscada para a Suzuki, pela pouca experiência de Mir, e também para o próprio piloto, já que o construtor japonês lutava, com pouco sucesso, por fazer uma moto capaz de competir por títulos com as estruturas bem mais poderosas da Honda e Yamaha - Mir chegou a ter uma proposta para ser colega de Marc Márquez na Honda oficial, mas recusou.

Mas depois de um primeiro ano difícil, com resultados pouco animadores e uma queda feia que deixou Mir de fora em duas corridas, piloto e máquina juntaram-se num combo quase perfeito, que nem a marca japonesa ou próprio Mir acreditariam que pudesse acontecer de forma tão precoce. Mir precisou apenas de cinco anos no Mundial para chegar ao título no MotoGP, provando que começar tarde nem sempre significa chegar atrasado.

Um perfecionista consciente

Este fim de semana, em Portimão, Mir corre com apenas um objetivo: ajudar a Suzuki a garantir o título de construtores, no 100.º aniversário da marca japonesa. Mas já lhes deu a maior alegria, um título de pilotos que escapava desde 2000, com Kenny Roberts Jr., e o primeiro título desde o regresso ao Mundial, em 2015.

Quem o conhece bem não se surpreende com o sucesso deste miúdo discreto, introvertido, personalidade que por Espanha dizem ser típica dos maioquinos. “Tem uma grande capacidade de trabalho. Treina na bicicleta ou em qualquer outro tipo de moto com a mesma intensidade com que compete”, disse Paco Sánchez em entrevista ao diário espanhol “ABC”, onde lhe elogiou não só o talento mas também a atitude decidida e o caracter perfecionista. “Quando o motorista vai recolher a motorhome que o Joan usa nos grandes prémios diz sempre que está mais limpa do que quando a entregou”, conta o representante de Mir, um piloto a quem apenas a falta de pontualidade parece tirar do sério.

Apesar de espanhol, o ídolo de Joan Mir chama-se Valentino Rossi (“Torço por ele porque é o único que quando ganha me faz acelerar o coração”, disse um dia, poeticamente, numa entrevista à Rádio Marca), mas a sua personalidade enquanto competidor está longe daquele jeitinho maior-do-que-a-vida do italiano.

Na verdade, Mir foi moldado à medida de um conterrâneo da ilha, um tal de Rafael Nadal.

Com apenas uma vitória em dois anos de MotoGP, nunca um piloto com tão poucos triunfos havia conquistado o título

Com apenas uma vitória em dois anos de MotoGP, nunca um piloto com tão poucos triunfos havia conquistado o título

Steve Wobser/Getty

“Os meus país esforçaram-se para que eu fosse humilde e para que entendesse que quem quer algo tem de correr atrás. Eles faziam um esforço grande para que eu pudesse correr. Todos os meses eram mais 2.500 euros que precisavam. E por isso passei a exigir muito de mim. Tinha de ser o melhor, não podia falhar. Além disso, tinha de ser supereducado e não faltar ao respeito a ninguém. Às vezes via na TV pilotos de grande nível que se chateavam e atiravam as luvas ao chão. Eu também tive momentos em que o quis fazer, mas aprendi que não é correto. Porque se me despediam, ia vender patins com o meu pai”, disse Mir numa entrevista ao “El País”, quando questionado sobre a influência da estrutura mental de Nadal na sua própria história.

Essa atenção ao que se passa à volta e não apenas ao seu umbigo tornou Mir em alguém focado, mas com a consciência de que a vida não é só dar voltas a um circuito a cada duas semanas. “É dos poucos jovens que conheço que vê as notícias, que está sempre ao corrente do que se passa no Mundo, comenta, faz perguntas. É por isso que tem noção que é um privilegiado”, disse o seu representante ao “ABC”.

Talvez por isso, mais do que os rivais em pista, a grande pressão de Mir para esta temporada fosse uma pressão invisível chamada covid-19, da qual o piloto sempre falou de forma cândida. “Tenho muito medo da covid”, confessou ao “El País” na semana em que se sagrou campeão do Mundo. “Estou cada vez mas consciencializado. E maníaco. Porque não quero nem uma falha. Não quero ficar doente nem que ninguém da minha equipa apanhe o vírus. Há cada vez mais casos positivos nas equipas, a situação é complicada. Tenho muita vontade que este ano termine”. Durante a temporada, Mir nunca deu um milímetro ao vírus, treinando sozinho em Andorra e saindo de casa apenas para o essencial.

No fim do GP Portugal não haverá discotecas, mas Mir poderá finalmente dar algumas tréguas à vida de monge que escolheu ter em 2020. Talvez possa finalmente dar um salto a Palma de Maiorca e alugar um barco, passear no Mediterrâneo - muito mais que a vida noturna das Baleares, o mar é aquilo que realmente lhe faz mais falta desde que se mudou para Andorra.