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Como é que se explica aquela vitória de Miguel Oliveira? De muitas maneiras

Aconteceu há uma semana: três dias perfeitos para Miguel Oliveira no GP Portugal. Em casa, o piloto conquistou a pole e dominou a corrida do início ao fim, ele que até ao último domingo não sabia sequer o que era liderar uma volta inteira no MotoGP. Miguel Praia, antigo piloto e treinador de Miguel Oliveira, e Vítor Martins, comentador da Sport TV, explicam a conjugação de factores que resultaram em dias históricos para o motociclismo português. Só faltou o público

Lídia Paralta Gomes

Assim, sozinho, sem ninguém à frente ou à vista. Foi como Miguel Oliveira passou as 25 voltas do GP Portugal antes de conseguir uma vitória imponente em casa

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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O conceito de “frio” ganhou todo um novo significado para Vítor Martins na última semana. Depois de 30 anos a usar o cabelo pelos ombros, seis minutos bastaram para a longa melena do comentador do MotoGP na Sport TV desaparecer. “Tenho usado mais frequentemente um gorro. É mesmo uma diferença grande, não imaginava”, conta o jornalista. Promessas são promessas e Vítor Martins prometeu que diria adeus ao seu cabelo caso Miguel Oliveira ganhasse em Portimão, a última corrida da temporada do Mundial de velocidade, que o Autódromo Internacional do Algarve recebeu depois do calendário levar uma volta devido à pandemia. No domingo, algumas horas após festejar no pódio a sua segunda vitória do ano, foi o próprio Miguel Oliveira, com a mão mais tremeliquenta do que alguma vez pareceu ter naquelas 25 voltas do prova, a acabar o serviço, em direto.

Quem esteve no Autódromo Internacional do Algarve durante o último fim de semana desde cedo percebeu que o cabelo de Vítor Martins estava em sério risco. “Desde sexta-feira que o Miguel estava tão à vontade e tão seguro, até pelas conversas que fui tendo com ele, que deu logo grandes e boas perspectivas”, diz Miguel Praia à Tribuna Expresso. Além de diretor de eventos da pista algarvia e comentador na Sport TV, o antigo piloto é também treinador de Miguel Oliveira, fazendo parte da equipa que trabalha com o almadense na preparação de cada época. “Nós não podemos dizer isto na transmissão, até para não colocar pressão no piloto, mas eu fiquei logo com essa impressão: desde o primeiro momento que ele estava com uma facilidade tremenda, desde as primeiras sessões até à corrida”, diz ainda. E nisto do desporto, no MotoGP em particular, “quando um piloto está confiante, confortável, é meio caminho andado para um bom resultado”, explica-nos Vítor Martins.

Depois de uma sexta-feira em que andou sempre entre os mais rápidos, Miguel Oliveira conquistou a pole position para o GP Portugal no sábado, a primeira desde que chegou à categoria máxima do motociclismo. No domingo, liderou a corrida do início ao fim. Não é exatamente uma novidade ver um piloto partir da pole e andar sempre na frente até se lhe aparecer a bandeira de xadrez. Nem sequer é assim tão estranho por estes dias ver um piloto de uma equipa-satélite ganhar, para mais numa temporada equilibrada, com nove vencedores ao longo do ano. Mas, mais do que a própria vitória, impressionou a forma como o piloto português dominou e controlou as operações, na primeira vez em que se viu verdadeiramente na posição de liderar o pelotão - no GP Estíria, em agosto, Miguel nunca esteve na frente e a vitória apareceu com uma ultrapassagem a Jack Miller e Pol Espargaró na última curva.

Steve Wobser

“O ritmo do Miguel foi impressionante de várias formas. Porque ele não só foi muito rápido durante toda a corrida, como foi consistente, com pequenas diferenças entre aquela que foi a sua volta mais lenta e a mais rápida. É preciso ser forte psicologicamente para manter aquele ritmo e não perder a concentração”, diz Vítor Martins.

Miguel Praia acredita que existem dois factores que explicam a corrida mandona do piloto da Tech3 e que “fizeram toda a diferença” no GP Portugal. “Se fizermos a comparação com outros grandes prémios, o que é que o Miguel tinha aqui a mais? Conhecimento de pista e a motivação de correr em casa”, sublinha. “Porque a moto é a mesma, os adversários são os mesmos e o fim de semana não foi imprevisível do ponto de vista meteorológico. Se formos a ver, a moto em si não dominou neste circuito, porque não houve sequer outro KTM em plano de destaque. Portimão é um circuito muito complicado e creio que estes dois fatores combinados foram essenciais”.

A opinião de Miguel Praia é partilhada apenas em parte por Vítor Martins. A voz da Sport TV para o MotoGP acredita que o factor casa foi importante, tal como o facto de estar a fazer a despedida da Tech3, equipa satélite da KTM que acolheu o português nas duas últimas temporadas, antes de Miguel dar o salto para a equipa de fábrica em 2021. O crescendo da performance ao longo do fim de semana terá também dado um empurrão à confiança do piloto, mas o conhecimento profundo que Miguel Oliveira tem da complicada e desfiante pista de Portimão, onde treina frequentemente, não parece a Vítor Martins uma variável tão essencial para a vitória quanto o factor psicológico.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

“Creio que essa vantagem do conhecimento do circuito que o Miguel tinha na sexta-feira foi-se esbatendo ao longo do fim de semana. Estamos a falar dos melhores pilotos do Mundo, que aprendem qualquer circuito rapidamente. Embora este não seja nada fácil de aprender”, reconhece o jornalista. “O Aleix Espargaró, da Aprilia, referiu isso mesmo, que em outras pistas em meia dúzia de voltas aprendia o traçado e que em Portimão no fim de duas longas sessões de treinos ainda era difícil. Essa vantagem é real, o Miguel chegou ali conhecedor do circuito, ao contrário de muitos dos pilotos, mas eu acho que isso se esbateu ao longo do fim de semana. No domingo essa vantagem já não era assim tão grande, se é que ainda existia. O conhecimento da pista terá contribuído para o domínio, mas não tanto quanto possa parecer”, frisa ainda, lamentando que a covid-19 não tenha permitido que o público português pudesse assistir a uma corrida histórica.

"Com público, numa situação sem pandemia, teria sido brutal. As pessoas estavam ansiosas com o regresso do campeonato a Portugal, com um piloto português na categoria rainha, com hipótese de ganhar. E ganhou portanto eu nem consigo imaginar a festa em Portimão com a presença de público, teria sido um daqueles momentos memoráveis que toda a gente iria falar para sempre", diz.

Andar na frente? Não é tão fácil quanto parece

Com anos de experiência nos Mundiais de Superbikes e Supersport, Miguel Praia conhece bem os desafios de estar sozinho em cima de uma máquina de muitos cavalos. Ele, que sabe o que é estar na frente de uma corrida e cair, explica-nos que uma cavalgada como a que Miguel Oliveira fez em Portimão, sempre em primeiro, sem referências visuais, volta após volta num ritmo constante, está longe de ser fácil.

“É preciso manter a concentração e a consistência. E é difícil manter isso. Num momento assim, a correr na frente, os maiores inimigos são os pensamentos. O pensamento no erro, o facto de não se conseguir controlar aquilo que está atrás de nós, ou seja, os nossos rivais. Ou pensar nos eventuais problemas que a moto possa vir a ter”, diz o antigo piloto de 42 anos, lembrando que o português conseguiu construir uma boa vantagem durante a corrida, mas que ainda assim há “muita coisa que vai passado pela cabeça” de um piloto. “Não queremos pensar nessas coisas, é quase como uma meditação. Tentamos ficar abstraídos desses pesadelos. Mas o Miguel está muito preparado, nada disto é por acaso. Esta vitória é algo que tem vindo a ser trabalhado há anos e anos. Do ponto de vista mental, o Miguel estava preparadíssimo para esta vitória”.

Steve Wobser

Miguel Praia lembra ainda que para lá de Miguel nunca ter liderado uma corrida de MotoGP, havia outro elemento desconhecido que o piloto teve de gerir: os pneus. “Ninguém sabia como é que os pneus iriam comportar-se nas últimas 10 voltas”. Tudo isto acrescenta valor a uma vitória histórica para o motociclismo português. “O Miguel tinha uma responsabilidade grande: arrancar na frente, com toda a carga emocional que isso pode ter, sem nunca ter antes liderado uma corrida”, refere Praia, que confessa ter ficado surpreendido pela enorme capacidade de Miguel Oliveira em afastar toda a pressão.

Agora, o futuro

Depois de dois anos na Tech3, equipa satélite da KTM, Miguel Oliveira vai agora com estatuto reforçado para a equipa de fábrica do construtor austríaco. A moto será a mesma e o maior desafio em 2021 será “criar os mesmos laços e a mesma relação” de proximidade que o piloto português sentia na Tech3, uma estrutura familiar que em 2020, depois de duas décadas no MotoGP, conseguiu as primeiras vitórias no Mundial. Cortesia do piloto de Almada.

Miguel Praia está seguro que isso não será um problema para Miguel Oliveira, uma pessoa “tipicamente cativante, muito interessada e trabalhadora”, diz. “As equipas gostam muito de trabalhar com o Miguel porque ele naturalmente cria bom ambiente e uma equipa coesa”. Na KTM, Miguel terá mais a dizer sobre o desenvolvimento da moto, numa ligação que já era próxima, mas que agora passa a ser direta com a fábrica. “Saindo o Pol Espargaró, que era o piloto mais sénior da KTM, o Miguel vai naturalmente ocupar esse lugar, o de piloto mais experiente da marca”, frisa o treinador de Miguel Oliveira.

Vítor Martins está confiante com a passagem de Miguel Oliveira para a KTM, até porque lhe garante estabilidade: apesar de mudar de equipa, mantém-se no mesmo construtor. E diz mesmo que em 2021 o português estará a lutar por mais pódios, vitórias e até mesmo pelo título. Algo que até poderia ter acontecido este ano se as nossas vidas não fossem feitas precisamente de ‘ses’.

“Agora podemos especular muito, olhar para trás e falar dos ‘ses’, mas o Miguel este ano ficou apenas a 14 pontos do 3.º classificado. Não é nada. Ele caiu três vezes, foram três corridas em que não pontuou e mesmo assim ficou perto do 3.º do Mundial, sendo que em duas dessas quedas a culpa não foi dele. Nas restantes corridas nunca ficou atrás da posição em que saiu da grelha, melhorou sempre. Se nessas três corridas tivesse feito o mesmo, tinha estado a lutar pelo título já este ano”, explica Vítor Martins.

Steve Wobser/Getty

A temporada de 2021 será uma das mais imprevisíveis dos últimos anos, com inúmeras movimentações de pilotos entre as equipas e uma enorme interrogação chamada Marc Márquez. O catalão, seis vezes campeão do Mundo de MotoGP, o grande dominador da categoria e o homem que poderá bater todos os recordes do motociclismo, partiu o úmero do braço direito na primeira corrida de 2020, em Jerez, e a recuperação tem sido feita de altos, baixos, retrocessos e algum secretismo.

Vítor Martins lembra que Márquez esteve um ano sem correr, com uma preparação física bastante limitada devido à lesão e que por esta altura ninguém sabe exatamente em que condição se encontra. “Sabemos que ele é um fora de série, mas não sei que tipo de milagres é que pode fazer”, diz o jornalista que acredita que mesmo com um Marc Márquez totalmente recuperado, Miguel Oliveira será sempre um candidato ao título, lembrando também a grande evolução que a KTM tem conseguido desde que chegou à categoria máxima, em 2017.

“Tornou-se rapidamente numa moto competitiva. O plano inicial a cinco anos já está praticamente cumprido ao final de quatro, com vitórias e poles. Este ano, o Pol Espargaró conseguiu uma catrefada de pontos. Acredito que estão reunidos os ingredientes para termos boas expectativas para o ano, tendo em conta que a moto é competitiva, a equipa funciona e a KTM é um construtor muito focado na competição, está-lhes no genes, não entram só para fazer número”, sublinha Vítor Martins.

A nova vida de Miguel Oliveira começa, queira a pandemia, em finais de março, no Qatar. E provavelmente teremos de nos começar a habituar a ver o piloto português mais vezes sem ninguém à sua frente.