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Valentino Rossi diz adeus na solitária cauda do pelotão. Mas foi bem divertida a viagem

O GP Valência de 2021 é muito mais que a última prova da temporada. É a despedida do grande herói das duas rodas, do mais carismático dos pilotos, do Peter Pan italiano que tornou global a marca MotoGP - mais de duas décadas e 432 corridas depois, Valentino Rossi deixa o Mundial aos 42 anos. E apesar de nos últimos anos o termos visto mais longe da frente, não vai haver ninguém como ele

Lídia Paralta Gomes

Pablo Guillen/Getty

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Há personagens de tal maneira maiores-do-que-a-vida que arranjam maneira de ter a sua própria ligação direta a Deus. Vejamos a data da última corrida de Valentino Rossi no MotoGP, marcada para hoje em Valência: 14/11/21. Se somarmos o 14, o 11 e o 21, o resultado é 46, o seu número de sempre, há mais de 25 anos, desde a sua estreia nas já desaparecidas 125 cc. O 46 que já era do seu pai, Graziano, o número que é para o motociclismo aquilo que o 23 de Jordan foi e é para a NBA.

Foi o próprio Rossi que notou a curiosa soma e, no seu jeito moleque, que continua tão à flor da pele aos 42 anos como aos 16, quando debutou nestas lides, divulgou as “combinações” com o Altíssimo para que tudo batesse certo na hora do adeus: “Não foi fácil convencer Deus”, disse entre malandros sorrisos na quinta-feira, numa multitudinária conferência de imprensa de despedida antes de pilotar uma máquina do MotoGP pela última vez.

Apesar da amizade próxima com Deus, coisa reservada a quem durante anos e anos se habituou a andar perto dele, a tocar o céu a cada fim de semana de corridas, Rossi não foi, infelizmente, agraciado com o dom da vida eterna, biologicamente falando (porque metaforicamente, bem, isso é outra história). Apesar de continuar a sê-lo na, digamos, big picture que é o MotoGP, há vários anos que o piloto que colocou Tavullia, uma terriola de oito mil habitantes no coração de Itália, no centro do mundo das duas rodas, deixou de ser uma figura desportivamente preponderante para o Mundial, depois de sete títulos em 10 anos na primeira década do século.

MANAN VATSYAYANA

Até 2016, já no alto dos seus 35 anos, Rossi andou na luta. Em 2015, essa temporada tão espectacular quanto infame, só não terá chegado ao 10.º título - aos sete no MotoGP há que juntar um nas 125 cc. e outro nas 250 cc. - devido a uma sanção que o atirou para o último lugar na grelha na última prova do ano, depois de uma temporada em que a sua rivalidade com Marc Márquez ultrapassou as regras da boa convivência em pista, de parte a parte. Mas depois de ser vice-campeão em 2014, 2015 e 2016, Rossi deixou de ser presença habitual nos pódios, apesar de ter uma das motos mais fortes do Mundial.

Para encontrar a última vitória do italiano, é preciso recuar até ao GP Holanda de 2017 - tornou-se então no mais velho de sempre a ganhar no MotoGP, com 38 anos e 129 dias. Os anos seguintes foram de declínio. Em 2020 subiu apenas por uma vez ao pódio, numa altura em que já se sabia que seria substituído na Yamaha oficial por Fabio Quartararo, que nem um ano tinha quando Rossi se estreou na categoria máxima, em 2000. Este ano, nem isso - é apenas 20.º no Mundial, com singelos 38 pontos.

A idade, queiramos ou não, começou a pesar naquele italiano que parecia jovem para sempre, um Peter Pan que voava, não sozinho, é certo, mas com ajuda de potentes motos.

O último ano na equipa de fábrica do construtor japonês foi penoso: sucederam-se os erros, as quedas, tão pouco comuns em Rossi no seu auge. A performance esteve longe de em algum momento lhe permitir sonhar e logo num ano em que as forças no Mundial se equilibraram, com a ausência de Márquez. Um positivo à covid-19 não ajudou: deixou-o encostado em duas provas de uma temporada já por si curta. No final, o 15.º no Mundial de pilotos era de longe a sua pior classificação de sempre. A partida para a Petronas Yamaha SRT, equipa satélite da Yamaha, foi uma espécie de last dance para o italiano, mas desde cedo, e apesar de ter à disposição material igual ao da equipa oficial, se notou a falta de ritmo em qualificação e as dificuldades em corrida até para pontuar, o que precipitou o anúncio do adeus, que revelou em agosto, antes do GP Estíria.

Se nos apoiarmos na segura lógica e Rossi fizer mais uma corrida discreta neste seu ano de despedida, o italiano deixará o MotoGP com 199 pódios, a apenas um do número redondo, e 89 vitórias. Neste último ano viu muito mais a parte traseira das motos rivais do que gostaria e, por isso, o adeus terá um ligeiro travo agridoce.

Um showman único

Mas Valentino Rossi não deixará verdadeiramente o MotoGP porque a sua presença está impregnada em tudo aquilo que o Mundial de motociclismo de velocidade se tornou nas últimas décadas. Tal como Michael Jordan - outra vez Jordan - também é por causa dele que o campeonato das duas rodas se tornou global, tantas vezes fazendo frente à Fórmula 1 em termos de popularidade - até porque a Fórmula 1 nunca teve nos últimos anos um Rossi, um piloto que arrastasse uma verdadeira onda de fãs para todo o lado, os mesmos que nos últimos 25 anos pintaram de amarelo fluorescente as bancadas de circuitos da Tailândia até à Argentina.

VANDERLEI ALMEIDA/Getty

Alguns circuitos, como Silverstone, na Inglaterra, ou o Red Bull Ring, na Áustria, onde Rossi conseguiu este ano a sua melhor classificação, um 8.º lugar, já fizeram saber que vão manter no próximo ano uma bancada dedicada aos fãs de Valentino Rossi, os mais coloridos, barulhentos, geracionalmente transversais e multinacionais da caravana. Nas pistas, não faltam pupilos, pilotos que passaram pela academia que Rossi criou em Tavullia em 2013. Francesco Bagnaia, Franco Morbidelli e Luca Marini já lá estão e no próximo ano a eles se juntará Marco Bezzecchi, que fará dupla com Marini na VR46 Racing Team, equipa criada por Rossi que depois de se estabelecer no Moto2 e Moto3 dá agora o salto para os pesos-pesados.

Apesar disso, a partir de segunda-feira o MotoGP vai ser um lugar diferente. Rossi já não contava há anos para as batalhas roda com roda, joelho no asfalto, moto quase paralela à pista, mas ninguém como ele juntou o talento com o carisma, ninguém como ele alimentou rivalidades assanhadas e foi ele quem tornou aquela competição num espectáculo de variedades, com o seu permanente sorriso na cara, os seus cortes de cabelo irreverentes e celebrações de vitórias e títulos que se tornaram verdadeiras produções artísticas, copiadas depois pelos que se lhe seguiram, mas nunca com o mesmo compromisso.

Logo em 1997, quando venceu o primeiro título, nas 125cc, subiu ao pódio vestido de Robin dos Bosques, numa produção ainda assim modesta para aquilo que viria a apresentar ao longo da carreira. Em 2002, já no MotoGP, dois polícias do município de Mugello passaram-lhe uma multa de excesso de velocidade logo após cruzar a meta em 1.º no GP Itália, numa espécie de ópera-bufa com sons de rateres. Em 2005, quando venceu o seu 7.º título mundial, esperavam-no na meta a Branca de Neve e os Sete Anões, cada um deles com o ano dos sete campeonatos conquistados. Igual a isto, com a mesma criatividade, vai demorar a aparecer.

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Os carros e a paternidade

“É estranho, mas estou a tentar atuar da forma mais normal possível”, disse Valentino quando questionado já em Valência sobre o que lhe ia no seu sempre honesto coração a poucos dias de desmontar pela última vez a sua Yamaha. Os resultados podem já não ser os mesmos, os miúdos podem ser mais rápidos que ele, mas há algo que não mudou nestes 25 anos de Rossi no paddock: a graça, a piada na ponta da língua, o carregadíssimo sotaque quando fala inglês, quase como que a alimentar o cliché do típico italiano. Ou como responde às perguntas começando quase sempre com um italianíssimo alora.

Na despedida, garante que o maior legado que deixa é o facto de “muitas pessoas terem começado a ver o MotoGP” por causa dele, para o seguir. E de como isso criou uma base de adeptos indefectíveis das duas motas, arrastando com eles a popularidade do próprio campeonato. “O desporto tornou-se maior, mais famoso, em todo o mundo. Tornei-me numa espécie de ícone e isso é um prazer”, disse aos jornalistas em Valência. “Sentir que ajudei a melhorar o desporto e ver miúdos e mais velhos a seguirem as corridas, isso é um sentimento bom”, continuou.

Apesar das rivalidades quase à margem das leis que chegou a ter com Max Biaggi, com Sete Gibernau, Jorge Lorenzo e, mais recentemente, com Marc Márquez, Rossi não parece ter grandes arrependimentos. Mas é visível que lhe ficou o amargo de boca de não ter chegado ao 10.º título mundial. “A partir de segunda-feira começa uma vida nova”, diz, ele que, garante, não vai deixar de ser piloto - seguem-se as quatro rodas, provavelmente no Mundial de resistência, segundo a imprensa transalpina.

Porque além da adrenalina que lhe corre nas veias e que só fica satisfeita a serpentear um circuito, Valentino é um homem simples, que quer coisas simples no futuro: “Quero uma boa vida, divertir-me… vou ser pai no próximo ano. Não tenho um sonho em particular. O meu sonho era tornar-me campeão do mundo de MotoGP”. Um sonho que cumpriu sete vezes. Segue-se a era pôs-Valentino.

  • O último grande herói
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    Quando ele apareceu era diferente dos outros: juntava o talento sem fim ao sentido de humor, à constante brincadeira, àquela honestidade pueril de quem diz o que pensa mas com um toque de leveza. Hoje, no dia em que faz 40 anos e prestes a começar a 24.ª temporada no Mundial, Valentino Rossi continua a ser o mais popular e mais carismático piloto da grelha, para lá dos nove títulos que o colocam como um dos mais ganhadores de sempre. E apesar do último título já ter quase 10 anos, ele continua a ser diferente e continua a querer ganhar