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Mourinho

Ainda há fogo dentro de Mourinho

O Manchester United esteve a perder, deu a volta, deixou-se empatar em casa do Chelsea num jogo intenso e de resultado incerto que acabou com uma escaramuça junto ao banco de suplentes. Mourinho vintage

Pedro Candeias

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Não era difícil adivinhar o que ia acontecer: o Chelsea de Sarri queria dominar com bola, porque assim é o treinador, o Manchester United de Mourinho iria reagir com roubos de bola, porque assim ficou o treinador. Foi assim uma espécie de ação-reação durante toda a primeira-parte em que os blues terminaram com uma percentagem absurda de passes acertados (91%) e número de passes (256) que refletiam a forma de estar na vida de Sarri. Isso, e um golo de cabeça Rüdriger, após uma falha de marcação amadora de Pogba a defender um canto, davam justificadamente a vantagem do Chelsea sobre o Manchester United que se limitou a explorar as costas de Alonso através da velocidade de Marcus Rashford.

Tudo o mais do lado de Mourinho, era pouco: os seus jogadores nunca conseguiram ligar o jogo porque se encontravam inevitavelmente rodeados por dois ou três adversários. E do lado de Sarri, às triangulações extraordinárias, porque há sempre alguém que encontra alguém, faltava outro alguém que chutasse melhor à baliza de De Gea. Muitas vezes, dá a impressão de que Morata nunca dará conta do recado no ataque.

Na segunda-parte, o guião seguia a preceito até ao momento em que Pogba - finalmente - encontrou uma nesga, fez um passe que foi um túnel, e iniciou uma jogada de insistência dos futebolistas de Mou, implacáveis e indiferentes ao corpo caído de Alonso no chão, que cruzaram e remataram às três tabelas até ao ressalto dar com Martial. Golo, 1-1, e a partir daí o United ressuscitou porque os rapazes de Mourinho assim o quiseram: ganharam os seus duelos individuais, pressionaram mais alto, e aos poucos foram rasgando buracos na teia do Chelsea.

Ao minuto 73, Martial fez um grande golo, os adeptos do United entoaram Mourinho e tudo parecia encaminhar-se para um triunfo memorável do português em Stanford Bridge, por duas razões: venceria o clube que o despediu duas vezes e pelo qual se sagrou campeão em três; e bateria o status quo que defende que o futebol de Sarri (como o de Guardiola e os seus copycats) é o único caminho para o triunfo.

Só que o futebol é o futebol, aliás, o futebol inglês é futebol inglês, e joga-se até ao último minuto, mesmo que isso signifique ir até ao limite (96') para encontrar a sorte. Nesse instante, Ross Barkley empatou o encontro, um dos adjuntos de Sarri correu para provocar Mourinho que saltou como uma mola atrás dele - e, claro, uma confusão das antigas, selada com um abraço entre Mou e Sarri e um pedido de desculpas deste último pelo ato desmiolado do colega.

Tudo bem, nada que Mourinho não entenda, não é verdade?

E assim acabou o clássico, com o português a exibir o indicador, o anelar e o dedo do meio aos seus antigos adeptos e a dizer, na nossa língua de Camões: três.

P.S.: Os nossos treinadores podiam deitar um olhinho a estes clássicos, porque, enfim, quem gosta de bola, gosta de a ver no chão e não pelo ar.