Tribuna Expresso

Perfil

Mourinho

The old one, onde está?

José Mourinho, o mestre motivador, contagiante de confiança por osmose, parece ter culminado numa versão antagonista dele próprio - e, sobretudo, do que foi em tempos

Diogo Pombo

ISABELLA BONOTTO

Partilhar

"Tem métodos de trabalho atrativos que tornam os treinos dinâmicos, sem tempos mortos e bastante animados, por mais intensos que sejam, ao ponto de muitas vezes se terminar com vontade de continuar.”

Há não muito tempo, surgiu um treinador que parecia ser um íman humano de descrições elogiosas. Desvendassem genialidades táticas, ou confessassem uma conversa inspiradora, raríssimo era escutar e ler alguém que, a ter trabalhado com ele, não se transformasse numa descarga automática de louvores assim que se ouvia o nome José e o apelido Mourinho.

Fossem resultados, títulos, golos, jogadas, discursos de balneário, teatrais conferências de imprensa, tudo entroncava no carisma. Fazia-o explodir pelo teto, utilizava-o com a precisão de um neurocirurgião, minúcia tal que, por contágio, quem ele tinha de fazer jogar passava a jogar por e para ele. Mais do que ideias novas, trouxe formas originais de organizar treinos, a bola sempre ao barulho, exercícios intensos, coisas para manter a agarrar de quem treina.

“Pratica um futebol bonito, atrativo, que dá prazer a quem lá está dentro e vem demonstrar que quando se joga bem há mais probabilidades de vencer. Esta é, aliás, uma das máximas de José Mourinho, um treinador exigente que não se contenta com resultados, também quer boas exibições.”

Querendo-as, os jogos produziram-lhe essas exibições no Porto, inesperadas enquanto eram autoritárias na maneira de superar adversários. Em Londres, mais rico em meios e enriquecido com os jogadores com que fez um clube ter títulos além de milhões de euros na conta. Em Milão, com a equipa mais do que compacta e sabedora de todos os sítios onde tinha de estar, cheia de craques surpreendentemente submissos ao trabalho.

“Um treinador com uma inteligência superior, muito ambicioso, que exige que os jogadores também o sejam, caso contrário não jogam. De fácil trato, acessível e bastante alegre, mas simultaneamente exigente."

Por Madrid, as boas exibições ficaram mais subjetivas. A objetividade de uma equipa de Mourinho fazer um bom jogo em campo começou a variar com o que acontecia fora dele. Na viragem da década, o português virou-se contra Pep Guardiola e o Barcelona e o génio messiânico que lhes dava órbita - e mudou.

Não mais comprou guerras só para ele próprio, em exclusivo. Virou-as contra o rival contra o qual fora contratado para rivalizar e inflamou conferências de imprensa. Atacou o treinador, fê-lo ficar mais careca, espetou dedos nos olhos, incendiou os ânimos, forçou a decadência de um guarda-redes lendário e, durante três épocas, deu trivotes, faltas agressivas e batalhas a um clássico do futebol, que virou um jogo campal.

José Mourinho ganhou em Madrid, ainda regressaria a Londres para vencer e repetir títulos. Mas, em Madrid, perdeu-se.

Eulogias como a de Deco, em 2003, escreveu em livro, foram rareando com o tempo. Uma pesquisa googleira por “José Mourinho” e “elogios”, seja o idioma qual for, nesta terça-feira, 18 de novembro de 2018, já não devolve palavras de Sneijder, Eto’o, Ibrahimovic, Maniche, Arbeloa, Lampard ou de Drogba nos resultados.

Quality Sport Images

Duas épocas e meia de Manchester United, agora terminadas, alteraram, de vez, a perceção que durante (e por causa de) quinze anos e 25 títulos foi construindo José Mourinho, como conceito.

O homem carismático. O treinador revolucionário no treino; o planeador que não gostava de surpresas e tudo ensinava aos jogadores para eles, no campo, não serem surpreendidos; o manipulador de atenções públicas, que criava episódios para jornais, televisões e rádios falarem do treinador e não da equipa; o líder estimulante que até nas reprimendas conseguia ir buscar, subliminarmente, o melhor que um futebolista tinha para dar.

“Trata-se de um técnico de fortes convicções, que transpira confiança e que tem o dom de a transmitir aos jogadores. Se calhar, esse é mesmo o ponto fulcral, porque um jogador confiante rende muito mais e onze jogadores confiantes formam, com toda a certeza, uma equipa capaz de exibir níveis de qualidade muito elevados.”

O homem de quem Deco fala é o mesmo a quem Aitor Karanka, seu ex-adjunto no Real Madrid e única pessoa que o Google nos despistou, se referiu, há dias, quando lhe perguntaram pela melhor qualidade do português: “A sua honestidade. É melhor dizer as coisas a um jogador na cara, assim que o vês, e o José fazia-o sempre. Outros treinadores prometem coisas que, depois, não cumprem ou criam expetativas que nunca acontecem”.

Mas ambos já não falam para o mesmo treinador.

José Mourinho parece um antagonista dele próprio, do que foi em tempos. O aplaudido Midas que tocava nos jogadores, em privado e com palavras, para lhes dar ouro e eles evoluírem até à sua melhor versão super guerreira, tornou-se no impiedoso que sinaliza futebolistas em público, a cada erro ou resultado indesejado.

O mestre motivador, contagiante de confiança por osmose, acabou a ver todos os jogadores do Manchester United cabisbaixos, caras desertas de alegria, abstémios de emoções a fazerem o que é o seu afazer preferido, o que é suposto dar-lhes mais prazer. Todos eram fantasmas de si próprios, quanto mais darem a melhor versão deles próprios.

O taticista que se precavia para tudo o que antevia num adversário cedeu a uma obsessão, parecendo preparar a equipa para contrariar o que pudesse vir do outro lado do campo, deixando-a ao acaso do improviso para quando tivesse a bola. E Lukaku já era um tanque de músculos gozado, Baily e Lindelöf centrais banalizados nas críticas, Pogba o milionário campeão do mundo que Mourinho considerava um vírus, Martial e Mata os corpos de talento sentados a bem da maquinaria de trabalho defensivo que, pela reputação, ninguém havia mais apto que Mourinho para olear.

Michael Regan

E as exibições já eram, objetivamente, cada vez mais sofríveis. Como a qualidade de jogo. Como o jogar bem, coisa sempre subjetiva, mas que o português reduziu a passes previsíveis, bolas rasteiras para o lado, a convidarem à pressão, que se tornavam chutões aéreos quando chegava a altura de serem verticais - ou quando o farol Fellaini já estava, algures, em campo.

Mourinho reagia a tudo isto contrariando o que era o seu modus operandi. Auto-mutilando-se por palavras, em conferências de imprensa, onde virava bravo contra qualquer jornalista que questionasse as decadentes, pobres e lineares exibições, as 53 mexidas esta época no onze titulares, os 29 golos sofridos na Premier League (melhor que apenas quatro equipas).

Um Mourinho que responderia a tudo com carisma, asserção, eloquência e analogias para o elevarem antes de a equipa responder em campo, atacava quem lhe fizesse a pergunta, os jogadores, os treinadores rivais. E depois, ou antes, puxava de galões passados, como se títulos fossem areia para os olhos ou imunidade contra escrutínio - e ausência de fio de jogo, de criatividade atacante, de uma equipa organizada, de futebolistas a renderem, de um Manchester United a jogar como o seu passado, sim, o obriga.

José Mourinho evoluiu, mas parece ter evoluído para se afastar do que o fez especial, não para se aproximar do que o especializou: o futebol, cuja evolução deixou o velho Mourinho para trás.