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Mourinho já não é assim tão fabuloso quanto isso

Um anúncio esperado na ponta final de um futebol pobre, maus resultados e muitos milhões gastos, de um discurso que não encaixa e de muitos dedos apontados sem grande lógica. O despedimento do Manchester United (após duas saídas a mal do Chelsea, uma do Real e outro do Benfica) confirma uma ideia que se arrasta: o Special One perdeu o dom e também o título. Não está morto mas já não é o que era. Será que ainda consegue voltar a ser um dos melhores do planeta?

TEXTO LUÍS MATEUS IMAGEM DE CAPA INSÓNIAS EM CARVÃO

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Três anos e um dia após ter sido despedido uma segunda vez pelo Chelsea, José Mourinho got the sack também por parte do Manchester United. Três troféus apenas depois mas nem um único título de campeão, perseguido pelos Red Devils desde 2013, ano em que Sir Alex Ferguson meteu os papéis para a reforma. A juntar à sala de troféus de Old Trafford apenas uma Liga Europa, uma Taça da Liga, uma Charity Shield e… o segundo lugar da temporada transata, que foi inclusive motivo de elogios a si próprio. Foram 466 milhões de euros gastos em reforços, fora o custo zero de Ibrahimovic, e na pior época da carreira em percentagem de vitórias e na pior do clube desde 1990-91 é despedido sem aparente surpresa. Há muito que perdeu o cognome que ajudou a colar a si próprio no primeiro dia em Stamford Brigde. Mourinho is not so special anymore.

O currículo do maior técnico português de todos os tempos – não é estatuto que lhe possam tirar tão cedo – continua invejável. Oito títulos nacionais em quatro países diferentes, quatro taças, duas Ligas dos Campeões e outras tantas Ligas Europa, mais umas quantas Supertaças e inúmeros prémios individuais atribuídos também por FIFA e UEFA. Extraordinário recorde de 77 jogos sem perder em casa na Premier League que, somados aos registados por outros clubes, estendem o registo de invencibilidade por nove longos anos. Não haja dúvidas, é ainda um peso-pesado no futebol mundial, mas um que está há largo tempo a encarar o impasse e ainda não encontrou discernimento para ultrapassá-lo. Como a equação de uma fórmula que não consegue levar a fazer sentido.

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Há quem aponte para a manita sofrida em Camp Nou frente ao Barça – uma humilhação planetária que cumpriu oito anos no final de novembro, com bis de David Villa, golos de Xavi, Pedro e… Jeffrén (sim, esse!), e teve dedicatória final de Guardiola a Cruijff e Rexach, por terem “começado” tudo aquilo – como o clique que fez mudar o técnico luso. Terá sido o paradoxo desse 5-0 pesadíssimo que mexeu com a forma de encarar os jogos, tornando-se mais pessimista, conservador, enfim, defensivo. Logo a ele, que até tinha construído no Dragão e em Londres equipas que tratavam muito bem a bola.

Na verdade, parece-me que a descida aos infernos apenas serviu para sublinhar uma ideia já maturada em Itália, no Inter. Ter conquistado o que conquistou pelos nerazzurri, ter sido o tático dos táticos no tático calcio, com o sucesso a ser levado ao expoente máximo através da conquista da Liga dos Campeões em pleno Bernabéu, a sua próxima casa, influenciou certamente de forma quase indelével o futuro próximo da carreira de Mourinho. Terá sido só isso? Concordo, talvez não.

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A IMAGEM QUE NÃO SE VOLTOU A VER

Uma imagem desse dia de festa em Madrid, no dia em que o Inter venceu a Champions, atravessou mundo. Materazzi abraçado ao português junto às garagens do palco da final. Chorava. Se Mourinho não voltou a tocar o céu, apesar da conquista histórica – é importante reconhecê-lo – de La Liga no frente a frente com um superBarça, a verdade é que também não terá voltado a estabelecer relações tão íntimas e emocionais com os seus futebolistas. Não voltou a haver jogadores como, por exemplo, o argentino Diego Milito, que vestissem capa de super-heróis. Mou quebrara a ligação que, com esquemas mais ou menos ofensivos, garantia grande parte da força das suas grandes equipas. Precisamente aquela que tinha com os jogadores. Fundamental, essencial, indestrutível. Quebrou aí talvez, em Madrid, nesses últimos minutos enquanto treinador do Inter.

Os confrontos pontuais com atletas aumentaram com o passar dos anos: Sabry no Benfica, Ricardo Carvalho no Chelsea, Eto’o no Inter, Casillas, Sergio Ramos, Pedro León, Pepe, Cristiano Ronaldo no Real Madrid, David Luiz e Mata no Chelsea, Martial e Pogba no Manchester United, entre outros. Aquela capacidade de carregar todas as dores do mundo às costas e absorver a pressão asfixiante à volta do grupo esgotou-se.

Deixou de ser “eu” para serem “eles” e quando não eram os seus jogadores, aqueles que já não conseguia fazer com que ultrapassassem os limites e que seriam sempre os responsáveis pelo seu sucesso ou insucesso a partir do banco, eram os árbitros ou os Glazer, que não lhe permitiam comprar o plantel que queria, e que lhe garantiria, dizia, lutar de igual para igual com Manchester City e, agora, com Liverpool.

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O DESGASTE COMUNICACIONAL (EM CAMPO E FORA DELE)

José Mourinho sempre encarou a comunicação interna e externa como uma sessão de acupuntura e, tirando um ou outro excesso anterior, acertava todas as agulhas nos locais certos, retirando o máximo desses momentos a seu favor. Mental games com os adversários sim, mas também inúmeras mensagens para dentro. Há vários anos que tal deixou de ser verdade. Tornou-se um “mágico” sem dom, incapaz de fazer os seus truques à frente de um público cada vez mais impaciente.

Futebol pobre, defensivo e, ao mesmo tempo permissivo, críticas aos jogadores, desculpas com os árbitros, com o mercado de transferências e ainda com quem mais se atravessasse no caminho, a proposta também deixou de ser aliciante para quem olha para o Manchester United a partir de fora. Inclusive para os jogadores que pretendia contratar. Este ponto é importante e deixa várias questões no ar.

Será que os futebolistas de topo não se deixam mais facilmente seduzir pela proposta de jogo de Klopp, apesar da exigência física, ou pelas ideias de Guardiola e Sarri, que obrigam também a enorme foco mental? Com quem aprendem mais? Com quem podem evoluir enquanto futebolistas? E, até, com quem podem ganhar mais troféus? O treinador português tornou-se ao pouco também inimigo de si próprio e deixou de ter uma resposta afirmativa em seu nome a estas perguntas.

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DIFICILMENTE CARREGARÁ A CULPA SOZINHO

Quarto treinador pós-Alex Ferguson e também o mais bem-sucedido, deixa o Manchester United em sexto lugar a 19 pontos do Liverpool – massacrou os Red Devils no passado fim de semana embora o resultado não o reflita por completo, e deixou o português com uma declaração de resignação e impotência no final –, mas sobretudo a 11 do quarteto da frente, onde estão as vagas que levam à próxima edição da Liga dos Campeões. O anúncio do despedimento não é de todo uma surpresa, se ainda juntarmos o calendário apertado em janeiro e fevereiro, com embates com Tottenham, Manchester City, de novo Liverpool e PSG nos oitavos da Liga dos Campeões, e também as críticas, que já chegavam tão alto como aos Glazers e ao gestor Ed Woodward.

Foi ao banqueiro que Mourinho apontou o dedo por não conseguir contratar os nomes que queria, e aos donos norte-americanos há sempre quem recorde os 20 milhões de lucro mais outros 62 que resultaram de vendas de ações retirados no último ano, além dos 14,5 milhões pagos em ordenados a executivos. O takeover custou ao United desde 2005 mais de mil milhões de euros e as dívidas mantêm-se acima dos 500 milhões. Também aqui a gestão mais comercial do clube deveria também assumir a sua quota-parte de responsabilidade. Digo deveria, porque são raros os exemplos da responsabilização de donos e presidentes.

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O FUTURO DE MOU COM UM REGRESSO AO PASSADO?

Depois de beber conhecimento de Bobby Robson e também de Louis van Gaal, não só em gestão de balneário mas também de treino e até de comunicação, acrescentou o seu cunho pessoal, a sua assinatura, e entrou no futebol como um revolucionário assim que se sentou ao leme de um clube. Primeiro na Luz, depois em Leiria, Porto e Londres. Devolveu a bola aos jogadores em todos os momentos dos treinos e criou ligações. Mesmo depois das consequências do ultimato a Manuel Vilarinho, sentiu-se que o jovem técnico tinha o balneário por completo na mão. O que era incrível.

Já não é um revolucionário no treino, nem aquele que encontrava sempre o ponto certo a pressionar para garantir a transcendência dos craques que tinha ao seu dispor. Não é também um escudo dos atletas, bem pelo contrário, e há muito que perdeu o bom senso e se deixou levar por excessos. Este é o Mourinho do impasse. Aquele que não consegue ir buscar atrás aquilo que o tornava único e o levou ao topo.

Sem o dom, precisa de se reinventar. Aceitar os 27 milhões de indemnização e parar, sim. Olhar para dentro, reconhecer erros. Estudar ou reciclar-se. Aprender ou reaprender. Voltar um pouco ao ponto de partida. Não precipitar o próximo passo para que não saia em falso. No final, quando depois de tudo isto chegar à altura de tomar uma decisão, aí sim escolher bem. Este é um caminho. Parece um bom caminho.

O outro é querer rapidamente voltar a treinar. Essa é a rota mais perigosa, porque há algo que todos nós, mas sobretudo Mourinho, concluem rapidamente: ele já não é assim tão especial. Perdeu o dom. Vai ser preciso muito mais do que deixar acontecer. Mais do que ninguém, é ele quem tem a resposta.