Tribuna Expresso

Perfil

Mourinho

Mourinho: "Ficar em 2.º lugar com o United na Premier League foi dos meus maiores feitos. As pessoas não sabem o que passou nos bastidores"

Treinador português foi contratado pela beIN Sports, cadeia de TV com origem no Qatar, para comentar a Taça da Ásia. Mas, antes disso, deu uma extensa entrevista ao canal, na qual discorreu sobre quase tudo: a passagem pelo Manchester United, o que conquistou no Real Madrid, antigos jogadores (até se falou de Sabry...), as diferenças entre este e outros tempos no futebol. E ainda deu para uma confissão: Mourinho diz que o Inter foi a melhor equipa que treinou

Tribuna Expresso

NurPhoto/Getty

Partilhar

Manchester United

“Às vezes comentamos aquilo que vemos, mas não sabemos o que está nos bastidores e aquilo que isso influencia o que vemos. Se eu disse que acabar em 2.º lugar com o Manchester United foi uma das melhores conquistas da minha carreira vocês vão dizer: ‘Este tipo está doido, ganhou 25 títulos e está a dizer que um 2.º lugar é um dos melhores feitos’. Mas eu vou continuar a dizê-lo, porque as pessoas não sabem o que se passou nos bastidores”.

Comentador na Taça da Ásia

“É muito interessante estar aqui a comentar num local do planeta em que não sou um especialista no seu futebol. Estou aqui também num processo de aprendizagem, para tentar compreender melhor esta parte do globo, onde o futebol é diferente do meu. Quero sempre aprender”.

Pensa na reforma?

“Nãooo! Quero treinar, ainda sou novo. Estou no futebol há muito tempo, mas terei 56 anos daqui a um par de semanas. Vou ficar onde pertenço: eu pertenço ao futebol de topo e é aí que vou continuar”.

A venda de Salah

“Há muitas coisas que se dizem que não são verdadeiras. Tentam identificar-me como o treinador que vendeu o Salah, mas eu sou o treinador que comprou o Salah. Joguei contra o Basileia na Liga dos Campeões, ele ainda era um miúdo. Quando jogo contra uma equipa levo algum tempo a analisar os seus jogadores e eu apaixonei-me por aquele miúdo. Eu comprei aquele miúdo! Convenci o Chelsea a comprá-lo. O Salah era um miúdo perdido em Londres. Era um miúdo perdido num mundo novo e eu queria trabalhar com ele, para que ele pudesse melhorar, mas ele queria jogar, não queria esperar. Nós decidimos então que ele devia ser emprestado para um clube italiano, um futebol tático, físico. A Fiorentina era um bom clube, não era um clube de topo e por isso ele não ia ter pressão de conquistar títulos. Quando o clube decidiu vendê-lo, não fui eu. A minha relação com ele era boa, continua a ser boa. Eu acho que ele não se arrepende do que aconteceu porque tudo correu bem, mas naquela altura ele era um miúdo com um desejo enorme de jogar todas as semanas, todos os minutos e eu na altura não lhe podia dar isso”.

Sabry

"Com o Sabry foi diferente, era um bom jogador, um jogador talentoso, era uma peça importante para o Benfica naquela altura. Apanhou-me numa altura em que eu precisava de provar algo também em termos de liderança e ele não era o mais disciplinado dos jogadores. Na altura tivemos um confronto de ideias, eu, um treinador com uma visão super profissional e ele que só via o lado divertido do jogo".

Mourinho rebate a ideia de que foi ele o responsável pela venda de Salah para a Roma

Mourinho rebate a ideia de que foi ele o responsável pela venda de Salah para a Roma

GLYN KIRK/Getty

O treinador, a estrutura e a disciplina

“O Sneijder chegar aqui e abraçar o seu amigo e estar com o seu amigo e antigo treinador, isso não são notícias boas nos dias de hoje. Notícia era o Sneijder chegar aqui e insultar-me. Tudo o que de bom eu tive com antigos jogadores não interessa agora. O que interessa agora é se eu tiver problemas. Mas nestes tempos, um treinador não é poderoso o suficiente para, sozinho, educar e confrontar jogadores que muitas vezes não são muito profissionais. Um treinador precisa de uma estrutura, precisa de um clube que esteja organizado de uma determinada forma e só assim um clube pode lidar com aquilo que o futebol moderno pede. Deve ter um presidente, um CEO, um diretor para o futebol e depois o treinador. Porque o treinador só se deve preocupar com o futebol e não com a disciplina. Quando o Beckham foi vendido do Manchester United para o Real Madrid, o Alex Ferguson, o melhor treinador de sempre da Premier League, disse: ‘No dia em que um jogador se torna mais importante que o clube, adeus’”.

Geração antiga vs. geração nova

“Eu não digo que as gerações anteriores eram perfeitas e agora não são. Mas quando eu era miúdo, se o meu pai me desse dinheiro para ir comprar o jornal, a única coisa que eu lhe pedia era se podia ficar com o troco. Agora, se eu pedir ao meu filho para me ir comprar o jornal ele pergunta. ‘Porquê?’ E se eu lhe disser que é porque tenho coisas para fazer e ele diz-me: ‘Mas podes ir daqui a cinco minutos’... as gerações mudam. É injusto dizer que antes todos eram profissionais e agora são todos uns bad boys, difíceis de lidar. Mas agora é preciso muito mais comunicação, antes o treinador decidia e o jogador aceitava porque era a hierarquia. Agora é preciso muito mais comunicação e é preciso dividir muito mais o poder. Não estou a falar da minha experiência no Manchester United, de todo. Estou a falar do futebol na generalidade”.

Melhor equipa que treinou

“Tenho de dizer o Inter de Milão porque ganhámos tudo. Tenho de ser objetivo e ter respeito por eles para dizer que uma equipa que ganhou tudo, do primeiro ao último dia, que ganhou todas as competições, que bateu a melhor equipa do Mundo, o Barcelona, por 3-1, que ganhou na final da Champions ao Bayern Munique por 2-0, ganhou a liga italiana, a taça, ganhou três finais em 10 dias… tenho de dizer que é a melhor equipa”.

Real Madrid

“As pessoas às vezes esquecem-se, porque faltou a Liga dos Campeões, mas ganhámos uma Taça do Rei e o campeonato dos recordes: fizemos 100 pontos e para fazer 100 pontos é preciso ganhar jogos, e o recorde de golos marcados. As pessoas dizem uma mentira e as pessoas acreditam, mas uma mentira contada 100 vezes continua a ser uma mentira”.

Português lembra tudo o que conquistou na passagem pelo Real Madrid

Português lembra tudo o que conquistou na passagem pelo Real Madrid

Angel Martinez/Getty

Petr Cech

“Quando cheguei ao Chelsea, o clube já o tinha comprado. Era um miúdo e quando chegou ao clube o titular era o Carlo Cudicini, que na época anterior tinha sido o melhor jogador do clube. E no primeiro jogo da época, frente ao Manchester United, eu decidi deixar o melhor jogador da época anterior no banco e dar a titularidade a um jogador que as pessoas nem sequer sabiam dizer o nome. A partir daí a minha influência foi zero, foi tudo trabalho dele. Um profissional fantástico, um guarda-redes com um potencial enorme. Quando voltei ao Chelsea disse-lhe que ia dar a baliza ao Courtois e ele a partir daí tornou-se num número 2 fantástico”.

Drogba

“É tão leal que nunca se esqueceu que fui eu que o levei do Marselha para a Premier League. Quando o Abramovich me perguntou quem eu queria para avançado e eu disse Drogba ele perguntou: “Quem?”. E eu respondi: “Mister Abramovich, pague e não fale”. E ele tornou-se num jogador icónico do Chelsea e a Premier League. E quando eu voltei ao Chelsea disse-lhe que ele não seria mais titular mas que precisava dele para me ajudar com os mais novos. E ele foi fenomenal. Há jogadores que pela sua personalidade são importantes no primeiro e no último dia da sua carreira”.