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Mourinho, o anti-palhaço de circo

O volátil Tottenham que tem sido apático, previsível e sofredor de golos em todos os jogos defronta, este sábado, (17h30, Sport TV1) o fulminante Liverpool, que ainda não perdeu na Premier League e parece imparável na sina de ser campeão - precisamente o tipo de circunstância em que, até há bem pouco tempo, José Mourinho orquestrava um plano para as suas equipas se superarem

Diogo Pombo

Julian Finney/Getty

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A barba carente de aparo, o fato de treino a tapar a pele, o colete a completar o visual desportivo e um dedo da mão a apontar lá para fora, pela janela do hotel, dirigindo o olhar dos jogadores para o espetáculo metafórico que havia lá fora, em Liverpool, à espera da caravana passar. Mourinho recusou-se, “não vamos ser os palhaços deste circo”, alastrou a insurreição à equipa, incendiou de motivação quem o ouvia.

A cada jogo testador da sua aura de exímio treinador que, no contexto e época em questão, apanha um adversário visto, pelo senso comum, como a melhor equipa, é frequente lembrar o Liverpool-Chelsea de 2014. A partida ficou afamada pela escorregadela de Steven Gerrard, momento saliente do emperramento coletivo que a equipa de Mourinho, montada para se estacionar nos espaços corretos, provocou às 11 vitórias seguidas do triturador Liverpool que se julgava encaminhar, triunfantemente, para o título da Premier League.

O José Mourinho da barba de três dias, look de treino e avesso a ser o bobo da corte orquestrou, nesse dia, um plano à Mourinho: preparou os jogadores e a equipa para, defensivamente e no campo, bloquearem as forças ofensivas de um adversário galopante e o anularem, porque, antes, também engendrou forma de lhes mexer nos botões certos da motivação.

Vulgarizou-se, em Inglaterra, etiquetar uma exibição destas como park the bus. Expressão lá traduzida, pela primeira vez, por Mourinho, cuja capacidade de estacionar autocarros e, taticamente, fazer a sua equipa superar a outra (fora questões de boniteza) foi, durante muitos anos, a espinha dorsal da sua reputação até os dois anos e meio no Manchester United colocarem algumas dúvidas sobre tal qualidade.

Mas, chegado a um sôfrego Tottenham que concedia espaços por todos o lado, era apático sem bola e espalhava erros defensivos por todo o campo, esperar-se-ia que a equipa melhorasse, sobretudo, a proteger a baliza - também porque, como muitos treinadores dizem e explicam, é sempre mais fácil começar por trabalhar a organização defensiva da equipa e só depois tudo o resto.

Do fim de novembro para cá houve 12 jogos, nenhum com a baliza sossegada, 19 golos sofridos e uma equipa tremida sem bola, com os mesmos problemas a fechar espaços por dentro e por fora, frágil nas bolas paradas e insegura perante o mínimo erro. “Não é fácil jogar com a sensação de ‘wow, sofremos um golo a cada jogo, cometemos um erro e sofremos logo’. Não é fácil lidar com essa pressão extra”, disse o treinador português, após o 2-1 ao Brighton.

Foi a última vitória do Tottenham, antes de empatar com o Norwich, perder com o Southampton e, para a Taça de Inglaterra, também apenas igualar em golos o Middlesborough, então 16.º classificado do Championship. Ultrapassado o frenesim inicial das três vitórias seguidas, em que as transições rápidas ofensivas e a aparente soltura dos jogadores produziram golos vistosos, a equipa parece ter regressado à apatia, previsibilidade e lentidão de processos que se via nos últimos tempos com Mauricio Pochettino.

Robbie Jay Barratt - AMA

Agora recebe a trituradora futebolística do Liverpool, máquina de pressão e contra-pressão mecanizada por Jürgen Klopp, que se defende de ataques alheios pela forma brutal intensa com que ataca a baliza e qualquer bola perdida, na metade do campo adversária. Este será o 21.º jogo que fará na Premier League em nunca perdeu, empatou apenas um e já motivou conversas de poder imitar o campeonato invencível do Arsenal, de 2004.

Tal como vem a madurar no último ano e meio, o Liverpool está feito um compressor de jogo atacante, que à dinâmica dos três estarolas da frente (Mané-Firmino-Salah) juntou, nas alas, a de Andy Robertson, uma fonte de profundidade à esquerda, e de Trent Alexander-Arnold, um construtor e criador de jogo à direita que é capaz de tirar a bola da pressão, para o outro lado do campo, com a facilidade de quem dá um passe rasteiro de dois metros.

Está 13 pontos à frente do Leicester, tem um jogo a menos e tem jogado, para descomplicar, barbaridades. O Liverpool é tido e achado como o mais provável vencedor do campeonato e uma das costelas de Mourinho era, até há bem pouco tempo, engenhar sempre maneira de encravar um adversário destes - superior na teoria e na prática, com melhores futebolistas e, sem dúvida, melhor equipa a funcionar.

A história deste jogo não é, nunca poderia ser, a do encontro de 2014. O Liverpool de Klopp tem mais jogadores, equipa e futebol que o de há quase seis anos, este Tottenham de Mourinho deambula nos erros e na incerteza que o Chelsea de então não evidenciava (três dias depois, aliás, teria a segunda mão da meia-final da Liga dos Campeões, contra o Barcelona).

O único ponto de semelhança estará na expetativa geral de que a equipa de Mourinho será a derrotada, a inevitavelmente superada pelo contexto. “Conhecemos a situação. Nesta sala, imagino que só duas pessoas acreditam que podemos ganhar”, brincou o português, na conferência de imprensa, com o assessor do Tottenham ao lado. Até José Mourinho, sempre sapiente do quê, do como e do quando fala, se juntou à onda.

O português já saiu das três primeiras semanas de Tottenham, em que teve sempre jogos a cada três ou quatro dias, livrou-se da desculpável falta de tempo para trabalhar, a equipa não melhorou, ficou sem Harry Kane até abril e parece estar estagnada para receber o Liverpool. É um circo adverso, um estado geral de coisas em que, em tempos, se esperaria que Mourinho- o Barcelona-Inter, de 2010, é outro exemplo - saísse mais vivo do que antes.