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Mundial 2018

Pouca paciência, cruzamentos a mais e Bernardo Silva a menos no centro do campo (a análise tática do Uruguai-Portugal)

Ao contrário do que a música diz, jogar bem importa muito e a prova ficou à vista, uma vez mais, no jogo com que o Uruguai eliminou a seleção nacional do Mundial, como explica Tiago Teixeira, analista de futebol

Tiago Teixeira, analista de futebol

ODD ANDERSEN

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Anulados e eliminados. Terminou o sonho português no mundial da Rússia, perante um Uruguai que esteve em vantagem praticamente durante todo o jogo e por isso apenas se preocupou com o momento defensivo. Portugal, por sua vez a ter que correr atrás do resultado, voltou a demonstrar grandes dificuldades para criar situações de golo.

Fruto do golo do Uruguai ainda nos dez minutos iniciais e da consequente estratégia de Óscar Tabárez (optou por recuar muito as linhas defensivas, defendendo num bloco baixo), a seleção portuguesa conseguiu ter bastante posse de bola em zonas próximas à grande área adversária (sim, porque desenganem-se os que acham que Portugal ia conseguir ter tanta posse de bola no meio campo defensivo do adversário se fosse pressionado na primeira fase de construção), mas a qualidade da mesma deixou novamente muito a desejar.

Faltou, quase sempre, maior paciência na circulação de bola para que os lances ofensivos não terminassem apenas em cruzamentos para a grande área.

É claro que através de cruzamentos também se marcam golos, principalmente quando se tem um finalizador como Ronaldo, mas contra uma seleção cuja dupla de centrais (Godín e Giménez) é extremamente competente nos duelos aéreos, e que por defender num bloco muito recuado controla os cruzamentos com vários jogadores bastante próximos uns dos outros, torna-se muito complicado criar situações de golo neste tipo de lances.

No lance representado na imagem anterior, a seleção portuguesa até tem três jogadores em zonas de finalização (Ronaldo, Guedes e o João Mário), mas estão “fechados” no meio de cinco jogadores uruguaios, o que torna bastante improvável que o lance termine numa oportunidade de golo.

A juntar a este tipo de posicionamento defensivo por parte da linha defensiva e dos médios, há ainda o facto do portador da bola (neste lance foi o lateral direito Ricardo) cruzar com um adversário em “cima dele”, ou seja, a retirar-lhe espaço de modo a dificultar a execução do cruzamento.

Quando houve um pouco mais de paciência e mobilidade perto da zona da bola (poucas vezes aconteceu..), as condições para criar situações de golo foram melhores, apesar de não terem sido aproveitadas da melhor maneira. Exemplo disso é o lance perto do minuto 19 da primeira parte, que terminou num canto favorável a Portugal.

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Ricardo, em vez de cruzar para a grande área, passou a bola a Bernardo Silva que se encontrava numa posição mais recuada, e este, através de um excelente passe vertical serviu o movimento de rutura de Guedes já dentro da grande área do Uruguai.

O facto de Guedes ter recebido a bola naquela zona obrigou Godín a sair da sua posição, deixando João Mário e Ronaldo, em zonas de finalização, apenas com dois defesas uruguaios, e permitiu que Adrien aparecesse à entrada da área com espaço (Torreira aproximou-se de Godín e de Guedes) para receber um possível passe atrasado.

Na segunda parte, com Portugal novamente a ter de procurar o golo e a revelar bastantes dificuldades, destaco dois aspetos: um negativo e um positivo.

Como negativo, a já tão falada procura do cruzamento para fazer a bola chegar a zonas de finalização. Foram várias as situações em que o jogador que recebeu a bola no corredor lateral não teve praticamente nenhum apoio próximo para combinar, pois o objetivo era cruzar imediatamente para a área.

Neste lance que serve de exemplo, Quaresma recebeu a bola no corredor lateral direito e não tinha uma única opção de passe próxima, nem demonstrou qualquer intenção de temporizar, preferindo logo tentar meter a bola na grande área.

Como aspeto positivo, destaco o posicionamento interior de Bernardo Silva, que embora não tenha sido aproveitado tão bem quanto poderia ter sido, trouxe à seleção portuguesa uma capacidade de progredir pelo corredor central que não tinha demonstrado até então.

No corredor central, seja atrás dos médios adversários como representado na imagem anterior, seja mais recuado para em condução penetrar no bloco defensivo adversário, Bernardo Silva demonstrou claramente que devia ter passado mais tempo em zonas interiores nos jogos anteriores, uma vez que tem qualidade técnica e criatividade para sozinho criar muitos problemas defensivos aos adversários, como aconteceu no lance representado na imagem seguinte.

Recebeu a bola no corredor central, de frente para os médios adversários e só a soltou depois de ter fixado a equipa adversaria praticamente toda, libertando assim espaço no corredor lateral para que Ricardo recebesse a bola já dentro da grande área do Uruguai.

Este é apenas um pequeno exemplo do que poderia ter sido feito em jogos anteriores para elevar a qualidade do futebol praticado. Havia qualidade individual para se jogar melhor e para não depender tanto da sorte.

Ao contrário do que a música diz, jogar bem importa muito e a prova está à vista.