Tribuna Expresso

Perfil

Mundial 2018

O jogo de que “ninguém quer saber” mas que, vá lá, no fundo, no fundo, até querem: uma viagem pelo terceiro lugar do Mundial

Inglaterra e Bélgica disputam hoje aquele que para muitos é um dos jogos mais inconsequentes do universo futebol: o da atribuição do terceiro lugar no Mundial. E que, talvez por isso, costuma ser um dos mais animados e recheado de golos. Para confirmar às 15h (RTP1)

Tiago Oliveira

Eusébio entre três atletas soviéticos no final do encontro de atribuição do terceiro lugar do Mundial de 1966. portugal venceu por 2-1 e Eusébio ganhou a Bota de Ouro da competição com nove golos

Getty Images

Partilhar

"Ninguém quer jogar este jogo", atirou o selecionador inglês Gareth Southgate na ressaca da derrota nas meias finais frente à Croácia. "Acho que esta partida nunca devia ser disputada", disse Louis Van Gaal também como reação a uma eliminação, desta feita da Holanda contra a Argentina nas meias-finais do Mundial 2014. Podem ser palavras amarguradas proferidas no calor da desilusão mas que não deixam de refletir aquilo que muitos acham do desafio de atribuição do terceiro e quarto lugar do Mundial, que hoje Inglaterra e Bélgica disputam: porquê?

É habitualmente um jogo que, na antecâmara, aparece quase como um presente envenenado para duas equipas que só querem ir para casa após falharem a oportunidade de estarem na partida mais importante das suas vidas, a final. Animosidade que também contribuiu para a sua reputação baixa entre os adeptos que, a acreditar nas reações mediáticas, nunca parecem muito entusiasmados com a perspetiva de garantir pelo menos uma medalha de bronze.

O que acaba por nem sempre corresponder à verdade. Porque se é certo que para os tradicionais candidatos ter que lutar pelo terceiro lugar pode ser desmotivante, equipas surpresa que não estavam nas cogitações para chegarem tão longe podem ver no desafio uma oportunidade de, ainda assim, fazerem história. Que o diga, por exemplo, Portugal que na sua primeira participação num Mundial, em 1966, contra grande parte das expectativas, garantiu o terceiro lugar contra a União Soviética por 2-1, em ambiente de festa.

Também por isso o jogo acaba sempre por ser um dos mais animados da competição. A diminuição da pressão e a introdução de alguns jogadores menos utilizados costuma promover uma abordagem mais atacante e despreocupada. Mesmo assim, será surpreendente saber que desde 1974 nenhum destes jogos teve menos de três golos marcados.

E o primeiro desafio de atribuição do terceiro lugar não deixou o seus créditos em mãos alheias, com a Alemanha a vencer a Áustria por 3-2. Desde então (com a exceção de 1950) que o jogo fez sempre parte integrante da prova, apesar dos protestos e má fama. Para a FIFA, além de facilitar as classificações do Mundial para registos históricos, costuma ser uma forma de atribuir um prémio de consolação, dar uma última partida à segunda cidade mais importante da prova e preencher o espaço sem jogos entre as meias-finais e a final.

Pacote surpresa

Por outro lado é uma oportunidade para as equipas carpirem mágoas ou saírem em grande do mundial. A nível individual, também é um palco privilegiado para os candidatos à Bota de Ouro da prova ganharem o tão ambicionado título. Foi o que aconteceu a Salvatore Schillaci em 1990, Davor Suker em 1998 e Thomas Muller em 2010, com os três a marcarem os golos decisivos para o prémio neste encontro.

Se equipas como a França, que de forma famosa deixou Platini de fora nos dois jogos de terceiro lugar que disputou em 1982 e 1986 (mas que viu Just Fontaine marcar quatro golos na mesma partida em 1958 para se tornar no melhor marcador de sempre numa única edição do Mundial, com 13 golos) ou o Brasil (que em 2014 perdeu 3-0 com o Holanda após a traumatizante derrota por 7-1 frente à Alemanha) olharam para o evento como um jogo de segunda categoria, o caso muda de figura quando o confronto é entre duas equipas surpresa.

Foi o que aconteceu em 1994, quando a Suécia venceu a Bulgária por 4-0 e em 2002 quando a Turquia derrotou a anfitriã Coreia do Sul por 3-2 (com Hakan Sukur a marcar o golo mais rápido da história dos Mundiais). Mesmo a Alemanha, após a eliminação traumática frente à Itália em 2006, fez questão de fazer do jogo uma festa de comunhão com os adeptos, e venceu Portugal por 3-1.

Já as equipas que hoje se enfrentam só participaram por uma vez no, ainda assim, mal afamado jogo e nem uma nem outra conseguiu o terceiro lugar. É ver às 16h quem quebra a malapata, até porque se a história nos diz algo, é que a desilusão e falta de vontade costuma transformar-se em bom entretenimento.