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Mundial 2018

Egalité, Fraternité, Mbappé

Dois anos após perder o Europeu frente ao pragmatismo português, a França pragmática e coletiva se tornou. Num jogo em que foi, essencialmente, muito eficaz a aproveitar os erros do adversário e a matar na hora certa, os gauleses sagraram-se campeões do Mundo pela segunda vez, 20 anos depois, após vencerem a Croácia por 4-2. Depois de Mandzukic marcar na própria baliza, apareceram as figuras: Griezmann, Pogba e Mbappé, o futuro que já é presente, o homem que fechou a contagem

Lídia Paralta Gomes

Robert Cianflone - FIFA/Getty

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Falou-se de trauma. De um excesso de confiança tal que acabou em trama. Há dois anos fomos a Paris bater os franceses em casa e eles não esqueceram. Esta semana voltaram muitas vezes àquele dia 10 de julho de 2016, à lição que aquele golo de Eder lhes deu, ao que aprenderam.

E connosco a França de Deschamps não aprendeu só a não festejar antes do tempo. Também nos foi beber o pragmatismo, a objetividade, a ideia coletiva que os jogos são, mais do que para jogar, para ganhar. E nós sabemos muito bem, há dois anos que o sabemos, que é possível ganhar sem jogar bem.

A França é campeã do Mundo e talvez tenha um agradecimento a fazer-nos. A vitória por 4-2 frente à Croácia fez-se de muita racionalidade, eficácia, de aproveitamento máximo dos erros do adversário. E fez-se de saber marcar nos momentos certos e da preponderância de Griezmann na 1.ª parte e de Pogba e do menino Mbappé na 2.ª, quando a França, jogando na expectativa, foi implacável.

E há melhor maneira de acabar com um trauma?

Tudo isto num jogo, digamos, estranho. Porque foi um jogo com poucas oportunidades e que ainda assim teve seis golos, coisa estranhíssima se olharmos para as finais dos últimos Mundiais. Porque foi um jogo de muitos erros, em que não houve grande futebol e quando houve até foi mais da Croácia, nomeadamente no arranque da 2.ª parte, quando a equipa dos balcãs, que surgia aqui com vontade de dar um final feliz à sua história da Cinderela, tentou com todo o seu talento dar a volta ao 2-1 a desfavor com que tinha terminado o primeiro tempo.

KIRILL KUDRYAVTSEV

Uma 1.ª parte nervosa, com consequências para o espectáculo. A França marcou primeiro, aos 19’, após um golo de Mandzukic na baliza errada. Habituado a marcar, o avançado tocou involuntariamente numa bola vinda de um livre de Griezmann. A reação croata não demorou nem 10 minutos, também na sequência de um livre direto. Modric lançou para a direita da área, a bola andou de cabeça em cabeça até chegar a Vida, este amorteceu para Perisic que controlou o ímpeto de rematar de primeira. Com o pé direito tirou um adversário do caminho e com o esquerdo rematou cruzado e com força, fora do alcance de Lloris.

O belo golo de Perisic dava justiça ao resultado: a Croácia tinha mais bola, jogava melhor, mas a França de 2018 é uma França que tem poucos problemas em dar a iniciativa ao adversário.

Quer é ganhar.

Ainda para mais quando o adversário vai deixando presentes pelo caminho. Depois de fazer o golo do empate, Perisic lançou a mão à bola dentro de área, movimento que Nestor Pitana não viu à primeira, mas não passou despercebido ao VAR. E aos 34 minutos, no primeiro remate que fez à baliza em toda a 1.ª parte, Griezmann marcou a grande penalidade que colocou novamente os gauleses na frente.

A Croácia veio do intervalo a todo o gás e aos 48’ quase empatava por Rebic, com Lloris a opor-se bem ao remate do extremo. Com Modric e Rakitic ao comando, a Croácia continuou à procura, face a uma França que mostrava algum nervosismo.

Mas apesar de estar cheia de jovens, de vários dos jogadores do onze serem estreantes em Mundiais, a França é uma equipa madura. E quando se sentiu cercada, atacou. Ou melhor, contra-atacou. Aos 59 minutos, Pogba começou e acabou a jogada do 3-1: lançou na profundidade Mbappé, que numa corrida desenfreada deixou toda a defesa croata aos papéis. A bola seguiu então para Griezmann e de novo para Pogba, que à segunda rematou para o fundo das redes de Subasic.

ODD ANDERSEN

E ainda antes da Croácia se refazer do choque, outra jogada rápida da França, que aos 65 minutos acabou com a final. Kylian Mbappé, o melhor jogador jovem do Mundial, o mais que provável futuro melhor jogador do Mundo, com um remate de fora da área, naquela sua calma, com aquele seu sorriso na cara, como se isto fosse só mais um jogo e não a final de um campeonato do Mundo. Ele tem 19 anos, ainda tem autorização para levar estas coisas assim.

A fífia de Lloris uns minutos depois, que tentou fintar Mandzukic e acabou fintado, ainda deu alguma emoção à parte final, mas à Croácia começaram a faltar as pernas, as ideias. E só o coração (e provavelmente o apoio de grande parte do planeta não-francófono) não chegou para tornar ainda mais épica uma história que, por si, já é impressionante.

O galo que está na camisola francesa, a olhar para a estrela ali cosida há 20 anos, terá agora mais uma para olhar. Quanto ao Mundial, volta daqui a 4 anos (e uns meses).

E neste momento, 4 anos parecem-me uma eternidade.