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A filha do taxista, o vacilo do “goleiro gato” Alisson no dia dos namorados, a confiança em Adenor Bachi: um dia com o Brasil em Sochi

Enquanto Portugal não chega a Sochi, onde se estreia neste Mundial já na sexta-feira frente a Espanha, na cidade do sul da Rússia só se fala em Brasil. A seleção de Neymar está a estagiar na estância e entre os brasileiros já nem se fala no trauma do 7-1. Porque desde que chegou à seleção, em 2016, Tite voltou a fazer do Brasil uma equipa com uma aura especial

Lídia Paralta Gomes, enviada ao Mundial 2018

NELSON ALMEIDA/Getty

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Sochi não é bem uma cidade. É uma estância turística que se estende por inacreditáveis 146 quilómetros pela costa do Mar Negro, cheia de bairros e pequenos distritos – é a cidade mais longa da Europa, e por longa leia-se comprida, diz o guia oficial do Mundial sobre o palco da estreia de Portugal, na sexta-feira, frente a Espanha. Estes 146 quilómetros são qualquer coisa como ir de Lisboa a Leiria. Assim, estar em Sochi não é bem “estar” em Sochi – pode muito bem ser estar em Santarém quando se quer estar no Terreiro do Paço.

As viagens de táxi são assim longas e frequentes. O dia começa com a recolha da acreditação junto ao Estádio Fisht (que é, digamos, em Setúbal) e depois é preciso ir a correr para o Estádio Yug (que é, digamos, Lisboa).

Porque para lá de ser a cidade onde Portugal vai fazer o primeiro jogo neste Mundial, Sochi é também o quartel-general do Brasil. E enquanto a Seleção Nacional não chega ao sul da Rússia (lá jogará contra Espanha, na sexta-feira), é de Ordem e Progresso que se fala por aqui.

Não é fácil chegar ao Estádio Yug, apesar de ser mesmo ao lado de um dos mais luxuosos hotéis da estância, o Swissôtel, onde os 23 do Brasil dormem por estes dias. Não é fácil porque a barreira da língua atrasa o processo.

Vladimir está pelos 60 anos e usa orgulhosamente uma camisola da Argentina. Mas nada de espanhol. Ou inglês. A comunicação é feita, primeiro, via aplicações de tradução e, quando estas começam a não ser suficientes, Vladimir telefona à filha, que dá uns toques no inglês. Parece compreender o destino, mas o certo é que só à segunda é que Vladimir acerta e lá se chega ao estádio, localização revelada pela quantidade de russos que se empoleiram no viaduto que serve de varanda ao relvado onde Neymar, Coutinho e companhia treinam. O treino é aberto, foram distribuídos 4 mil bilhetes e a bancada está quase cheia. Crianças, na sua maioria.

Todos os lugares servem para ver o Brasil treinar

Todos os lugares servem para ver o Brasil treinar

NELSON ALMEIDA/Getty

No final do treino, os jogadores acercam-se e uma avalanche de miúdos tenta tocar nos craques, tirar-lhes uma foto. Roberto Firmino mostra o seu sorriso impecavelmente branco para dezenas de selfies, mas a estrela é, surprise, surprise, Neymar, que causa uma espécie de tumulto nas bancadas, controlado, mas ainda assim tumulto. Pelo sim, pelo não, e de forma bem discreta, um grupo de seguranças logo se coloca ao lado da estrela brasileira.

Ele que foi uma das vítimas colaterais da “ovada” em que a vítima principal foi o seu bom amigo Philippe Coutinho. O avançado do Barcelona fez esta terça-feira 26 anos e, à boa maneira brasileira, como Neymar fez questão de referir quando passou pelos jornalistas, foi “agraciado” com um banho de farinha e ovos, num treino que teve ainda um pequeno invasor. Nada de grave: o “ataque” foi prontamente neutralizado, depois de o miúdo conseguir um par de fotos com os ídolos brasileiros.

NELSON ALMEIDA/Getty

A sala onde Tite é Deus

Esta terça-feira é Dia dos Namorados no Brasil e na sala de imprensa conta-se o número de jogadores da seleção que colocaram fotos nas redes sociais para as suas namoradas ou mulheres - Neymar foi o mais ousado, dizem. Alisson, o guarda-redes que será o protagonista da conferência de imprensa que se segue ao treino, é um dos poucos que não o fez.

O “goleiro gato”, como os jornalistas brasileiros o vão tratando pela sala, desfaz-se quando lhe perguntam pelo Dia dos Namorados e pela importância da presença da família – neste Mundial, as mulheres e filhos dos jogadores acompanham a comitiva.

"Fico feliz por a minha família estar aqui. Sempre é algo que deixa de nos preocupar. Quando fico três dias sem ver a minha mulher e a minha filha fico logo cheio de saudades", diz, antes de perceber, sem ninguém lhe perguntar nada, que não havia colocado uma foto da mulher nas redes sociais - o que por estes dias é mais ou menos o mesmo que esquecer o nome da pessoa amada.

“Ui, não postei a foto, mas fica aqui a minha homenagem para a minha esposa”, diz o guarda-redes da Roma. Logo a seguir, e por falar em Dia dos Namorados, um jornalista pergunta-lhe pela “primeira relação”. Com o futebol, claro. O brasileiro é malandro e não é por estarmos numa "coletiva" da seleção que não vamos brincar.

Alisson, depois de suster a respiração por um par de segundos, lembra que tudo começou "muito criança, na brincadeira com os amigos”. A sua cara ao perceber que tudo não passava de uma pergunta com ratoeira foi impagável.

Se o Brasil fala, os jornalistas aparecem. Este o aspecto da sala de imprensa do centro de estágio da Canarinha

Se o Brasil fala, os jornalistas aparecem. Este o aspecto da sala de imprensa do centro de estágio da Canarinha

Brasileiro é malandro e também é mais animado e confiante que o comum humanóide. Mas aqui vive-se outra coisa: na sala de imprensa do centro de estágio do Brasil há a certeza que esta é muito provavelmente a equipa mais bem preparada para atacar um Mundial em muitos anos.

Ao ponto do trauma do 7-1 já ser coisa do século passado.

“Parece que foi há 20 anos!”, diz-nos Fernando Kallás, jornalista brasileiro do jornal espanhol “As”. "Mas a sensação tem um nome, sobrenome e apelido: Adenor Bachi, Tite. Foi isso que mudou. O Tite é um cara que você manda uma mensagem para ele e ele responde na hora, ele te conhece pelo nome, fala contigo”, sublinha o repórter sobre o selecionador nacional desde 2016, o homem que sucedeu a Dunga e voltou a dar uma aura de equipa de elite a um Brasil que não é campeão do Mundo desde 2002. Kallás diz que a confiança dos brasileiros vem essencialmente do trabalho de preparação altamente profissional feito por Tite, mais até do que pelo talento dos jogadores.

“A euforia - não digo euforia - mas confiança na seleção e no trabalho que está a ser feito chegou a um ponto em que temos de nos policiar para não elogiar apenas, para identificar as coisas negativas também. Porque está tudo a ser bem feito, a escolha de Sochi para ser a sede, o calendário da preparação, os rivais escolhidos e a qualidade do pessoal da comissão técnica… não tem aí ninguém de favor. Quem está aí é porque tem currículo”, continua.

Fernando Kallás frisa ainda a humildade do treinador, que depois de ganhar tudo o que havia para ganhar na América do Sul, fez as malas e partiu um ano para a Europa: “Ele fez um ano sabático e foi aprender nos melhores clubes da Europa, quando podia estar a gabar-se dos seus feitos. E penso que está a influenciar uma série de novos treinadores brasileiros, mais preocupados com o profissionalismo, com o treino tático”.

Esta é, portanto, uma seleção brasileira diferente, em que estão os melhores, em que não houve contestação à convocatória. “Eu tenho 40 anos, mas falando com colegas meus mais velhos, eu diria que não havia um trabalho tão de alto nível na seleção desde o Tele Santana, em 1982 e 1986”.

Duas seleções que, curiosamente, não foram campeãs do Mundo. “Mas se eventualmente esta equipa perder temos de entender que o trabalho foi o melhor possível até este momento. Trabalho irrepreensível”, lembra-nos Fernando, ainda que no final da conversa que é tudo muito bonito, mas no final "ganhar é tudo".

O Brasil estreia-se no Mundial no próximo domingo, em Rostov, frente à Suíça. Até lá, vai-se continuando a respirar confiança e animação em Sochi.