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Nunca mais vão vestir a tua camisola, Manu

Manu Ginobili, "o melhor suplente de sempre", despediu-se esta madrugada do campo onde jogou a carreira toda na NBA. Ricardo Brito Reis, comentador de NBA, explica à Tribuna Expresso o que representou o argentino

Hugo Tavares da Silva

Ezra Shaw

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A NBA nem era sequer uma segunda intenção. Nenhum argentino chegara à NBA antes. Porque haveria de ser eu? No dia em que fui selecionado, estava a jogar no meio da Amazónia. Tive de ir ao Google pesquisar San Antonio. Não tinha ideia. Não podia acreditar no que estava a acontecer…

Dezasseis temporadas depois de tudo começar, Manu Ginobili disse o adeus definitivo à NBA na última madrugada, numa cerimónia emotiva. O clube decidiu reformar o n.º 20, tal como fizera com o 21 de Tim Duncan em 2016, a única camisola que vestiu o basquetebolista de Bahia Blanca. O atleta, de 41 anos, é património da Argentina, um canhoto como a história do desporto daquele país parece impor.

“O Manu foi o último elemento do chamado ‘Big Three’ dos Spurs, quando se juntou a Tim Duncan e Tony Parker em 2002/03, apenas três anos depois de ter sido escolhido na 57.ª posição do draft”, explica à Tribuna Expresso Ricardo Brito Reis, comentador de NBA na SportTV. “Juntos, ganharam mais de 1000 jogos na NBA e o Manu é o jogador da história da liga norte-americana com maior percentagem de vitórias (70.2%) e o único a ter participado em mais de 500 jogos da fase regular e perdido menos de 200 (167).”

Voltemos a 2002.

Mostraram-me o caminho para o balneário. Vi o meu nome, ao lado estava o de David Robinson. Isso foi um grande momento. No meu terceiro ano comecei a pensar: ‘Okay, eu pertenço aqui’. Quando cheguei não sabia que estava a fazer algo assim tão diferente. O Pop [Gregg Popovich] gritava por eu passar a bola por trás das costas. Eu não percebia o que ele dizia, porque para mim era a jogada mais natural. Devagarinho, começou a ser mais tolerante e com quem aprendi tanto. Tornei-me num jogador muito melhor por ter um treinador assim, que me fez entender como funciona uma equipa. Mas também fora do campo. Tornou-se como uma figura parental. Era mais do que uma relação jogador-treinador. Tive muita sorte por ter tantos bons colegas. Joguei aqui 16 anos e com alguns deles foram mais de 10. É único e extraordinário.

Ronald Martinez

Ginobili é um daqueles jogadores especiais. E consensuais. Se é preciso evidenciar o talento, aí está Manu. Se queremos puxar pela ética desportiva, Manu outra vez. Sangre? Manu. Se a intenção for tirar o chapéu ao argentino, aqui fica este dado: apenas dois jogadores na história do basquetebol arranjaram maneira de ganhar durante a carreira troféus de NBA, Euroliga e Jogos Olímpicos - Bill Bradley e Ginobili (NBA: 2003, 2005, 2007, 2014); Euroliga: Bologna, 2011; JO, 2004).

Manu participou em 1057 jogos da liga mais sedutora daquele desporto, contabilizando um total de 26.859 minutos. Foram mais de 14 mil pontos, quase 1500 triplos, 3697 ressaltos e 4001 assistências ao longo destes 16 anos. “O eleito”, escreveu no Twitter Sergio “Oveja” Hernández, o atual selecionador argentino.

“Mas se há algo pelo qual ele é conhecido não são os números”, continua Ricardo Brito Reis. “O argentino canhoto, que é considerado um símbolo nacional na Argentina ao nível de Messi e Maradona (uma das suas alcunhas é Manudona), fica conhecido pelas penetrações em que serpenteava à volta dos defensores, pelos triplos e outros lançamentos em momentos decisivos. Mas o legado de Ginobili vive daquilo que resulta do sangue latino: mergulhos para o chão para salvar bolas perdidas e momentos em que se meteu à frente de jogadores mais altos e mais fortes para sacar faltas atacantes, por exemplo. Era um competidor nato, mas aceitou um papel que muitos consideram secundário porque o mítico treinador Gregg Popovich o convenceu que isso potenciaria o sucesso da equipa. E Ginobili aceitou-o sem qualquer contestação. É, talvez, a maior estrela de sempre a aceitar ser suplente, em prol da equipa.”

Em 1057 jogos na NBA, Ginobili começou apenas 349 de início.

Ronald Cortes

E conclui: “Tinha qualidade para ser titular, não só nos Spurs como em qualquer equipa da NBA, mas aceitou ser um elemento que sai do banco de suplentes e, assim, personificou o altruísmo que esteve na base da cultura que os texanos construíram nas últimas duas décadas. Obviamente, fechava muitos jogos (diz-se que é aí que se vê quem é realmente importante) e era muitas vezes o elemento decisivo, com um roubo de bola, um desarme de lançamento ou um lançamento para vitória. Injustamente só ganhou um prémio de 6th Man of the Year, porque não tinha estatísticas que ajudassem à candidatura em outros anos, mas é, pelo menos para mim, o melhor suplente de sempre”.

“Era tempo de calar-me e desfrutar”

As palavras de Popovich, na hora do adeus, mais pareciam uma carta de amor escrita no ar: “Não sabíamos que se ia transformar no ‘Manu’. Quando as sobrancelhas do Timmy Duncan levantam, por espanto, sabes que é algo. No início, tento ser o senhor treinador e ele tentava fazer coisas muito picantes. À medida que o via a competir, ao ver os resultados, percebi que tinha de lhe dar espaço e deixá-lo jogar. E dar-lhe apenas um ou outro conselho. Mas ele tinha de ser o ‘Manu’. A certo ponto dessa evolução, ele olhou para mim e disse-me: ‘É isto que faço’. Aquilo mexeu comigo por alguma razão. Era tempo de calar-me e desfrutar”.

Ginobili não se calou e deu troco ao treinador, na arena onde foi feliz tantas e tantas vezes. “És um louco generoso, sensível, inteligente e que se preocupa com o outro. És um tipo singular, mas significas tanto para mim que nunca poderias compreender o quanto me dizes, por tudo o que fizeste por mim e pela minha família. Aprendi tanto. Obrigado do coração.”

Thearon W. Henderson

Durante alguns minutos, o agora ex-basquetebolista agradeceu a muita gente, aos adeptos, aos colegas, à mulher, que agora terá 40 e 50 anos para a mimar. Enfim, a todos.

“Obrigado, muito obrigado. É uma noite especial. Conseguimos que o Tim [Duncan] falasse cinco ou seis minutos. Isso é assombroso. Não há nada melhor que possamos fazer”, aliviou a tensão. “Jamais imaginei isto, não tinha muitas expectativas. Quando comecei, eu queria fazer uma boa carreira na Europa e, quem sabe, ganhar algo com a seleção argentina. E, de repente, acordei e, num abrir e fechar de olhos, estou rodeado destas lendas a falar de mim, pessoas que admiro, que respeito e gosto. Faz a cabeça voar. Estou muito agradecido e queria estender-lhes a mão a cada um deles, dar-lhes um abraço. Agradeço muito isto.”