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Um conto de dois irmãos, o homem das mãos gigantes e porque é que é preciso temer os Bucks: as histórias das finais de conferência da NBA

As finais das Conferências Este (Milwaukee Bucks-Toronto Raptors) e Conferência Oeste (Golden State Warriors-Portland Trail Blazers) arrancam esta madrugada, com o primeiro jogo entre os campeões em título Warriors e os Blazers. Estas são as histórias e as curiosidades que necessita de saber antes que a bola comece a saltar para a fase decisiva da temporada da NBA

Lídia Paralta Gomes

Esta é A foto destes playoffs da NBA. Mas onde é que está a bola? Está já no aro, a saltar uma, duas, três, quatro vezes antes de entrar no cesto. Kawhi Leonard, extremo dos Toronto Raptors e a mais tímida das estrelas da liga, marcou o primeiro buzzer-beater num 7.º jogo de playoff da história da NBA

Rick Madonik/Getty

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Cleveland Cavaliers, Boston Celtics, Houston Rockets e Golden State Warriors. Estes eram os finalistas de conferência da NBA há um ano. Todos eles estavam lá sem surpresas. E todos eles estavam lá por uma razão. Os Cavs porque tinham LeBron James e LeBron James sozinho dá para levar uma equipa longe na Conferência Este - na Oeste, bem, nem por isso. Os Celtics porque são uma franquia histórica, a mais ganhadora da NBA e tinham um grupo de miúdos em momento sim, com um treinador em momento sim, mesmo com as duas estrelas da equipa, Kyrie Irving e Gordon Hayward, lesionados. Os Rockets porque tinham Chris Paul e James Harden. E Warriors, bem, os Warriors porque talvez nunca uma equipa na história da NBA tenha tido tanto talento disponível ao mesmo tempo.

Milwaukee Bucks, Toronto Raptors, Portland Trail Blazers e Golden State Warriors. Estes são os finalistas de conferência da NBA em 2019. Um pouco diferente o cenário, não?

Num ano em que LeBron James viajou para a Conferência Oeste (e não se deu particularmente bem com isso, já que os Lakers não chegaram aos playoffs), Kawhi Leonard para a Este, os Celtics estagnaram e Giannis Antetokounmpo ficou ainda mais freak, o cenário teria necessariamente de mudar. E nem os Golden State Warriors são os Golden State Warriors sem rival da última temporada, ainda que continuem a ser os grandes favoritos ao anel. Na NBA, mais do que em qualquer outro desporto não-americano, tudo se pode transformar. E, por isso, nada destas finais de conferência se pode perder.

Há muito, muito tempo

Depois de uma temporada em que as finais de conferência foram feitas de equipas ou com história, ou com palmarés recente e semi-recente ou pelo melhor jogador do Mundo (os Cavs só têm um título, mas tinham LeBron), há uma mudança de paradigma nas finais deste ano, feita à conta de um trabalho de desenvolvimento de jogadores de anos (Bucks), de apostas fortes na época de trocas (Raptors) ou da consolidação de um projeto (Trail Blazers).

Bucks e Toronto, duelo que se vai repetir na final da Conferência Este

Bucks e Toronto, duelo que se vai repetir na final da Conferência Este

Stacy Revere/Getty

Estas três equipas têm algo em comum: há muito que estão arredadas de títulos ou sequer de finais de conferência. A última vez que os Milwaukee Bucks lá estiveram foi na época 2001/01, em que caíram às mãos dos Philadelphia 76ers de Allen Iverson. Os Portland Trail Blazers, neste particular, estão pior ainda: não vão à final do Oeste desde 1999/00 - perderam para os Lakers de Kobe Bryant e Shaquille O’Neal.

E para vermos os únicos títulos na NBA para ambas as equipas, é preciso recuar quase uma vida. Os Bucks foram campeões em 1971, graças ao talento de um tal de Lew Alcindor, que pouco depois se converteria ao Islão, passando a usar o nome Kareem Abdul-Jabbar. Os Trail Blazers conquistaram também um único título, em 1977, numa equipa em que Bill Walton era o homem em destaque.

E os Raptors? Fundados apenas em 1995, a equipa canadiana tem sido presença constante nos playoffs desde 2013/14, mas ainda não chegaram a uma final da NBA. Esta temporada, já igualaram pelo menos o melhor registo de sempre, a final da Conferência Este de 2015/16, em que perderam para os Cavs.

A constante aqui chama-se Golden State Warriors, que podem em 2019 chegar à 5.ª final da NBA seguida e ao quarto título em cinco temporadas.

Tenham medo, tenham muito medo

“Fear the deer”, temam o veado, em português. É este o motto dos Bucks, em homenagem ao animal oficial do estado do Wisconsin, o veado de cauda branca, que também é símbolo da equipa.

E este ano há mesmo razões para fear the deer. Já lá vão 48 anos desde o único título dos Bucks na NBA e a irregularidade tem marcado a caminhada da equipa, principalmente a partir do início dos anos 90. Daí para cá, os Bucks apenas por uma ocasião ultrapassaram a 1.ª ronda dos playoffs, isto quando lá chegaram.

Os Bucks foram a melhor equipa da fase regular. E prometem mais

Os Bucks foram a melhor equipa da fase regular. E prometem mais

Stacy Revere/Getty

Mas em 2013 os responsáveis da equipa do Wisconsin apostaram no potencial de um miúdo grego de origem nigeriana, vindo de uma equipa da 2.ª divisão da Grécia. Giannis Antetokounmpo era então apenas um projeto, um gigante de 2,11m com um incomum controlo de bola que lhe permitia jogar em quase todas as posições. E desde a sua estreia na NBA que o Greek Freak, como é carinhosamente tratado, só sabe melhorar.

Aos 24 anos é a grande figura dos Bucks, uma das figuras da liga, candidato a MVP da temporada regular, onde os Bucks foram a melhor equipa da NBA.

Mas não está só em Giannis (é assim que quase todos o tratam, porque, convenhamos, Antetokounmpo é bem complicado de pronunciar) o segredo para a temporada de sonho dos Bucks, que vão lutar com os Toronto Raptors pelo título na Conferência Este e respetivo lugar nas finais da NBA.

A escolha de Mike Budenholzer foi certeira. O homem que foi adjunto de Gregg Popovich nos San Antonio Spurs durante quase duas décadas transformou os Bucks numa das piores equipas nos parâmetros defesivos para a melhor, tudo isto em apenas numa temporada. Ao melhorar na defesa, os Bucks tornaram-se também numa equipa temível nas transições.

O técnico de 49 anos foi também importante na melhoria de rendimento de jogadores como Eric Bledsoe ou Khris Middleton, na percentagem de aproveitamento de lançamentos de três pontos e tornou também mais equipa um plantel como nomes como Brook Lopez, George Hill ou Nikola Mirotic. E nem a lesão grave de Pau Gasol, que vai afastar o poste espanhol do que resta da temporada, parece travar os Bucks, que dominaram de forma quase surpreendente a eliminatória com os Celtics, vencendo por claros 4-1.

Os irmãos Curry fazem história

Falar no "Conto de Dois Irmãos" quando se fala de Steph e Seth Curry é errado, porque na história egípcia há violência, mentiras, traição, ressentimento e arrependimento e entre Steph e Seth apenas há amor fraterno. Acontece que os dois são jogadores da NBA e adversários e desta vez até vão fazer história enquanto rivais: é que nunca dois irmãos disputaram uma final de conferência jogando por equipas diferentes, Stephen pelos Golden State Warriors e Seth pelos Portland Trail Blazers, neste caso.

De Stephen Curry pouco há mais a dizer. Três vezes campeão da NBA, duas vezes MVP da fase regular, seis vezes all-star e muito possivelmente o melhor lançador que a maior liga de basquetebol do planeta já viu. E decisivo, sempre, apesar dos Warriors estarem pejados de estrelas. Sem Kevin Durant para os encontros decisivos frente aos Houston Rockets, nas meias-finais de conferência (e possivelmente também para os dois primeiros jogos frente aos Blazers), Curry tomou as rédeas e no jogo que ditou a eliminação dos Rockets passou de besta a bestial: depois de uma 1.ª parte desastrada, em que não marcou um único ponto, na 2.ª parte marcou 33. E os Warriors venceram por 118-113.

Steph e Seth já se enfrentaram na fase regular. Agora será nas finais da Conferência Oeste, um inédito entre dois irmãos

Steph e Seth já se enfrentaram na fase regular. Agora será nas finais da Conferência Oeste, um inédito entre dois irmãos

Abbie Parr/Getty

Já Seth Curry tem um currículo bem mais modesto. O mais novo dos Curry é, tal como o irmão, conhecido pelo seu lançamento, mas tem sido essencialmente um utilitário na sua vida itinerante na NBA e teve esta temporada a primeira oportunidade de jogar nos playoffs.

E como será em casa dos Curry? A resposta de Dell Curry, também ele antigo jogador da NBA, e da mãe Sonya é salomónica: à imprensa norte-americana afirmaram que a cada jogo da final da conferência Oeste vão lançar a moeda ao ar para saber que filho cada um vai apoiar.

As chamadas boas dores de cabeça.

Leonard e maior lançamento da história dos Raptors

Às vezes é preciso arriscar tudo. Os Raptors são uma das franquias mais jovens da NBA e mesmo que por lá já tenham passado algumas estrelas do jogo como Vince Carter ou Chris Bosh, a equipa de Toronto nunca conseguiu chegar a uma final. E no final da última temporada arriscou quase tudo. Trocou um dos jogadores mais queridos dos adeptos, DeMar DeRozan, um bom mas não brilhante base atirador, por um dos jogadores mais completos da Liga, Kawhi Leonard, exímio defensor, jogador de equipa, campeão pelos Spurs em 2014, quando foi também considerado MVP das finais.

Parece uma troca fácil de fazer, mas na NBA nada é assim tão fácil. Para lá da emocional partida de DeRozan, jogador com quase 10 anos de casa, Leonard chegou a Toronto com apenas um ano de contrato e depois de uma conturbada época em San Antonio, onde entrou em rota de colisão com a equipa médica dos Spurs após uma época de lesões constantes.

Sobre Kawhi Leonard há umas quantas curiosidades a contar: as suas mãos são 52% maiores do que a média, raramente sorri, não está nas redes sociais e, mesmo milionário, é viciado em cupões de desconto e até há bem pouco tempo conduzia o seu carro de sempre, um Chevy Tahoe de 1997.

É seguramente a mais low profile das estrelas da NBA. E agora também é o dono do maior e mais importante lançamento da história dos Raptors.

Toronto Raptors e Philadelphia 76ers jogavam o 7.º e decisivo jogo da meia-final de conferência no domingo quando, com tudo empatado a 4 segundos do fim, Leonard, a estrela tímida, recebeu o passe de Marc Gasol, outra das importantes adições dos Raptors esta temporada. Driblou ao redor do perímetro e mesmo com oposição de Joel Embiid, rapaz de 2,13, lançou já quase da linha de fundo.

A bola bateu no aro uma, duas, três e quatro vezes até entrar e dar uma dramática vitória aos Raptors no jogo e na eliminatória. Foi o primeiro buzzer-beater num 7.º jogo de playoffs da história da NBA e o tiro que deixa os Raptors com nova oportunidade de chegar pela primeira vez às finais. E com Leonard, Marc Gasol, Kyle Lowry, Danny Green e Serge Ibaka, talvez os Raptors nunca tenham estado tão bem apetrechados para o fazer.