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Ninguém sabe ao certo quem é Kawhi Leonard, mas as suas bizarras mãos podem finalmente travar os Warriors

O extremo dos Toronto Raptors odeia holofotes, mas eles estão todos em cima dele. Na estreia dos canadianos nas finais da NBA, que arrancam esta sexta-feira, às 02h00 de Lisboa, Leonard, rapaz tímido que nunca sorri e de quem pouco ou nada se sabe fora das quatro linhas, tem nas suas gigantes mãos, 52% maiores do que a média do homem adulto, o antídoto para evitar o terceiro título consecutivo dos Warriors, que ainda para mais não têm Kevin Durant para o primeiro jogo

Lídia Paralta Gomes

Vaughn Ridley

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Olhar para o Twitter de Kawhi Leonard em 2019 é um exercício mais ou menos semelhante a ligar a televisão na RTP Memória para ver um Famalicão-FC Porto da época 1991/92.

O rapaz tweetou quatro vezes na vida. Bem, na verdade foram três, o último foi um retweet. O primeiro tweet é de janeiro de 2015, uma imagem estilizada de Kawhi ao lado de Barack Obama com o troféu Larry O’Brien, entregue todos os anos ao campeão da NBA, ali de esguelha. Há depois uma foto de Kawhi a jogar golfe, colocada em abril de 2015 e a 7 de julho de 2015 o extremo postou uma imagem de um hooverboard personalizado. O derradeiro sinal de vida de Kawhi Leonard nas redes sociais foi dado nesse mesmo dia, com um retweet de uma publicação de uma página dedicada à equipa universitária da Universidade de San Diego State, onde jogou.

Daí para cá, o vazio, a total inexistência no fluído cósmico da internet.

Talvez porque Kawhi Leonard tenha estado ocupado a fazer outras coisas. Como, por exemplo, a discretamente tornar-se num dos melhores jogadores da NBA, primeiro como parte da grande família de não-estrelas dos San Antonio Spurs (onde se sagrou campeão e MVP das finais em 2014, apesar da sua juventude) e agora como a indiscutível pedra basilar de uns Toronto Raptors que daqui a umas horas, já noite cerrada em Portugal, vão jogar pela primeira vez na sua história uma finais da NBA.

O californiano de 27 anos pode muito bem ser aquilo que separa os Golden State Warriors de um terceiro título consecutivo - e quarto nos últimos cinco anos - e os Raptors do grupo de equipas que nunca ganharam um título para campeões da NBA. Isto mesmo estando longe de ser uma estrela, mantendo aquele carisma de quem não tem carisma nenhum, ainda que tenha fama de nunca sorrir e de ninguém saber muito bem quem ele é fora do retângulo onde se joga o melhor basquetebol do Mundo. Afinal de contas, é lá que os títulos se ganham e não nas fanfarras das redes sociais, onde toda a gente parece existir de forma mais ou menos ativa. Todos menos Leonard.

O pai, o carro de 1997 e o vício dos cupões

Kawhi Leonard não é uma estrela comum e isso não é de hoje. O mais novo de cinco irmãos, Leonard cresceu circunspecto e tímido, características que se agudizaram depois do assassínio do pai no complicado subúrbio de Compton, perto de Los Angeles, quando o extremo tinha 16 anos - até hoje o crime não foi resolvido.

Na altura, Leonard, cuja disciplina preferida na escola era matemática, já era um dos melhores jogadores do estado, mas optou por jogar na Universidade de San Diego State. A equipa não tinha grande tradição, mas foi a primeira a oferecer-lhe uma bolsa. E quando as universidades mais poderosas de Los Angeles lhe bateram à porta, Kawhi disse que não: já tinha dado a sua palavra a San Diego State e não ia voltar atrás.

Aposta dos San Antonio Spurs no draft de 2011, cedo se habituou à estrutura dos texanos, perfeita para um tipo discreto como ele, porque todas as estrelas dos Spurs eram tipos discretos como ele, de Tim Duncan a Manu Ginobili, de Tony Parker a Danny Green.

Durante as primeiras entrevistas com Gregg Popovich, o irascível técnico dos Spurs, Leonard estava “mais sério que um ataque cardíaco”, diria Pop a Lee Jenkins, da “Sports Illustrated”. Pop, naturalmente, adorou-o logo e foi com Pop que melhorou aquilo que já trazia no sangue: passar primeiro a um colega, lançar depois ou defender tão bem quanto se ataca. Para isso ajuda a sua estranha fisionomia - as suas mãos são 52% maiores do que a média de um adulto, o que dá jeito tanto para lançar como para roubar bolas. Leonard está longe de ter a graciosidade de Kobe, o físico poderoso de LeBron James ou a capacidade de marcar pontos de todas as maneiras e feitios de Kevin Durant, mas é provavelmente o jogador mais completo que a NBA viu jogar na última década.

O que em nada lhe mudou a maneira de ser. Mesmo depois de ajudar os Spurs na conquista do seu último título, em 2014, Leonard continuou a conduzir o mesmo Chevy Tahoe de 1997, o seu carro da adolescência (diz-se que entretanto comprou um Porsche), e manteve-se atento às promoções da Wingstop, o seu restaurante de asas de frango favorito. Aliás, a página da Wingstop é uma das seis páginas que Leonard segue no Twitter, outra é a página da HEB, uma cadeia de supermercados ainda dos seus tempos em San Antonio.

Tudo porque Leonard, jogador da NBA e dono de um contrato de quase 100 milhões de euros, continua a ser viciado em cupões. No mesmo perfil em que Gregg Popovich o comparou a um ataque cardíaco, Lee Jenkins, que era tão bom a fazer perfis de jogadores da NBA que os LA Clippers o contrataram para o seu departamento de prospeção, conta a história do dia em que Kawhi se queixou de ter perdido os seus cupões de desconto na Wingstop: o restaurante prontamente providenciou uns novos.

Matteo Marchi/Getty

Quanto à vida familiar, outro mistério. Sabe-se que mantém uma relação com Kishele Shipley, mas ninguém sabe se os dois já casaram. Sabe-se que o casal tem dois filhos. O primeiro é uma menina nascida no verão de 2016. Do segundo, sabe-se apenas que nasceu no final de março deste ano, já que Leonard pediu para faltar a um jogo para assistir ao parto. De resto, nenhuma informação foi revelada.

No último ano, após uma saída algo tumultuosa dos Spurs devido a diferentes opiniões quanto ao tratamento a uma lesão muscular na perna direita, Kawhi Leonard aterrou em Toronto, numa aposta all-in dos Raptors: para terem Kawhi Leonard, há meses e meses parado por lesão e a jogar o último ano do atual contrato - e, por isso, livre de decidir o seu futuro para a próxima temporada -, a equipa canadiana abdicou de DeMar DeRozan, base com quase 10 anos de casa e um dos preferidos dos adeptos.

Sabemos agora que a aposta deu frutos. Kawhi voltou a ser o Kawhi MVP das finais de 2014 e, depois da chegada de Marc Gasol a meio da temporada, os Raptors tornaram-se temíveis, chegando onde nunca haviam chegado na sua história.

As variáveis dos Warriors

Depois de quatro finais consecutivas frente aos Cavaliers de LeBron James (que entretanto se mudou para os Lakers), nas quais Golden State venceu três e perdeu uma, chega agora um desafio desconhecido para os Warriors. E talvez seja mesmo o desafio mais interessante para a equipa de Oakland, que esta temporada já deu sinais de algum desgaste, numa equipa pejada de estrelas, mas em risco de se desmantelar.

A temporada regular foi de altos e baixos, com 57 vitórias e 25 derrotas, o que deu aos super-Warriors apenas o 3.º melhor registo da NBA, ainda assim suficiente para agarrar o 1.º lugar da Conferência Oeste. Os playoffs, no entanto, não têm corrido mal, com vitórias tranquilas frente a Clippers, Houston e Portland.

Ezra Shaw/Getty

Mas, frente ao Raptors, numa série que arranca esta sexta-feira às 02h de Portugal Continental, há algumas variáveis que poderão tornar os Warriors mais vulneráveis. Para já, Toronto tem a vantagem do factor-casa, naquela que será a primeira vez que as finais da NBA se decidirão também fora das fronteiras dos Estados Unidos. E depois, as lesões. Enquanto os Raptors estão na máxima força, os Warriors não poderão contar, pelo menos no primeiro jogo, com Kevin Durant e DeMarcus Cousins.

A presença de Durant é o que tem tornado os Warriors praticamente imbatíveis nos playoffs das duas últimas temporadas, mas até agora Stephen Curry tem dado bem conta do recado. Contudo, até agora os Warriors não encontraram uma equipa coletivamente tão forte quanto os Raptors. Além de Leonard e o mais novo dos irmãos Gasol, os canadianos ainda têm Kyle Lowry, Danny Green, Serge Ibaka e revelação Pascal Siakam e um registo bem diferente do “LeBron contra o Mundo” que Golden State enfrentou nas últimas quatro finais.