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Durante 20 anos, o meu quarto teve uma janela aberta para Kobe

Este texto acompanha a vida de um rapaz que se fez homem em frente à televisão a ver todos os jogos de Kobe Bryant. Começa nos TPC da escola, com refrigerantes e posters, namoradas e desilusões amorosas, e acaba num adulto que não entende o absurdo de uma morte trágica. Diogo Santos é ex-jornalista, doutorando em Digital Media, oficiosamente o fã número 1 de Kobe Bryant

Diogo Santos

Wally Skalij

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Querido Kobe,

Nem sei por onde começar. Tenho um nó na garganta. É tudo altamente absurdo. Ter ídolos é ridículo. E eu não sabia que tinha ídolos até teres desaparecido, embora tenha sentido um abalo quando um dos teus tendões de Aquiles rebentou.

Chorei.

Percebi logo ali que a tua carreira estava perto do fim. Pior, percebi que afinal de contas eras humano como eu. Não penses que me esqueço dos airballs frente aos Jazz e logo no playoff. E os Lakers foram eliminados. Sim, está bem, só tinhas 18 anos. Mas aquilo foi uma barracada monumental.

Enquanto faço este exercício doloroso de rebobinar na minha cabeça os teus jogos, lançamentos, dribles, campeonatos e falhanços, muitos falhanços, percebo ainda melhor o quão determinante foste para parte do meu insucesso escolar na adolescência.


Hoje, volvidos uns 15 ou 20 anos, consigo dizer, muito assertivamente, coisas como “eu ficava a estudar até às 5:00, enquanto via os jogos dos Lakers”. Um gajo quando é novo não vai ao médico nem faz análises. É de ferro. Mas tenho a certeza absoluta de que devo ter andado todo cheio de diabetes ali entre 2000 e 2011, dadas as quantidades absurdas de coca-cola que eu ingeria para ficar acordado. Na altura não me dava bem com o café.

Estás a ver, Kobe? Cresci. Agora bebo café. E refrigerantes muito raramente. Apaixonei-me quanto ainda tínhamos cabelo e tu jogavas com o 8. Houve outros momentos, mas a final com os Pacers quando o Jalen te lesiona é mítica. Uns jogos depois, o Shaq é excluído e tu apareces assim de repente para arrumar o assunto. Que pinta. Que classe.

Era assim que eu fazia com os TPC, não sei se estás a ver, mas era até à última, enquanto a professora fazia a chamada. Mas eu fazia aquilo bem, atenção. E depois participava.

Eu achava que eras um génio, mas não tanto quanto o Alex com quem partilhei carteira na escola. Repara, ele também não fazia os TPC, ele limitava-se a copiar o enunciado. Ou seja, respondia às perguntas com as próprias perguntas, mas com uma caligrafia horrível para a professora não topar quando passava pela sala.

Vais dizer-me que isto não é de génio? Queres tu ver que de génio é aquele teu movimento em que fazes um spin no pé de apoio? Aquele em que pareces uma bailarina de um qualquer bailado russo?

Não sejas tolo. Pronto. Pronto. Este lance é de génio. Até me esqueço que medes 2 metros e tal. Eu devo ver este lance várias vezes por ano. É mesmo bonito. Até tem o Spike Lee a rir que nem um perdido. Ah, ó Kobe, o meu amigo Terêncio também adora este lance. Espero que agora lhe mostres como o fazer, não espero outra coisa de ti.

Bem, lembro-me perfeitamente do meu primeiro contacto com o basquetebol e a NBA em particular. Acho que ainda não estávamos em 1994, uma vez que tenho perfeita memória de estar a beber um Sumol de laranja no exacto momento em que o Roberto Baggio tentava partir os dentes de um adepto na final do mundial de futebol.

E este momento que agora vou relatar surge antes: sou eu, pequeno, a entrar em casa de um primo do meu primo. Ora, este primo do meu primo tinha uma grande fotografia a cores com uma montagem em que aparecia a cabeça do primo do meu primo no corpo de um jogador dos Lakers. Era o Magic Johnson.

Depois deste acontecimento que viria a mudar a minha vida, arranjei VHS com jogos dos Lakers e dos Celtics, revistas e tudo o resto. Sim, colei logo uns posters do Michael Jordan no quarto. E pouco tempo depois estava a assistir ao Space Jam e a cantarolar R. Kelly. Mais ou menos nesta altura o MJ metia férias e aparecias tu, magricelas de um raio.

Não foi amor à primeira vista, que tu só foste para o cinco inicial a sério na terceira temporada. Enfim, tu e o Shaq ou o Shaq e tu (depende de quem está a contar a história, não é?) varreram a liga: quatro finais, três títulos. Um absurdo. Pelo meio, armas zaragata fora da quadra. Dás uma conferência de imprensa embaraçosa, mudas de número e atribuis a ti próprio uma alcunha pomposa. Que cromo.

81 pontos. Oitenta e um pontos.

Feitas bem as contas, tu és capaz de ter assinado o melhor desempenho ofensivo da história do jogo moderno. E a cereja no topo do bolo? O Jalen teve de ver isto na primeira fila. Que delícia.

Mas não fiques todo convencido, é que andaste ali dois ou três anos a jogar para o boneco. Se não me engano, eras tu quem dizia que um ano sem ser campeão era um ano desperdiçado. Não eras? Que cromo. Desculpa, mas és.

Deve ter sido duro regressar às finais e perder logo com os Celtics... tão duro que foste a mais duas com o Gasol. Cinco campeonatos é um número bem bonito e aquele teu .gif a contar cada um dos títulos é mesmo engraçado.

Kobe, somos cada uma das experiências que temos ao longo da vida. Vamo-nos construindo ao lado e com outras pessoas, animais e coisas. Ficamos maiores e, se tudo correr como é minimamente expectável, melhores. De todos os momentos que me proporcionaste, e olha que devo ter visto quase todos os teus jogos ou em direto ou em diferido, há um que nunca vou esquecer.

Nesta altura já eras um homem maduro, seguro, conformado e realista. O sexto título já era uma miragem, quanto mais os oito que tanto querias. Tens uma tirada absolutamente brilhante e simples, e aposto que te lembras de ter dito isto: o mais importante não é o resultado, é o caminho que se percorre.

Andavas, salvo erro, no processo de recuperação após a lesão no tendão de Aquiles. Pode parecer estúpido, mas foi a fase em que mais te admirei. Eu sabia que não voltarias a ser o jogador de outrora. Fisicamente, era impossível. Até artigos científicos andei a ler sobre lesões no tendão de Aquiles. Nem aquele médico alemão que te fazia milagres aos joelhos tinha como te safar desta.

Estavas velho e tinhas uma equipa desastrosa. Aquilo foi um circo até ao teu último jogo. Mas não deixou de ser enternecedor ver todas as homenagens que te fizeram. Eu, nesta altura, já sabia que eras humano, como eu, mas mais alto, e ainda tinha uma pequena esperança de que o meu super-herói aparecesse.

E apareceste.

Aquele teu último jogo, curiosamente frente aos Jazz, é de um romantismo sem igual. Kobe, não dá para te ficar indiferente.

É esta a tua grande marca dentro e fora do campo, companheiro.

Todos temos um momento ou uma coisa, um disco sei lá, que nos transporta para determinado acontecimento das nossas vidas. Algo que nos ajuda a superar uma dificuldade. Ou que nos aconchega.

Por exemplo, o videojogo Mortal Kombat lembra-me a minha avó. Não fosse a Mega-Drive e tinha sido mais difícil perceber o que faziam aquelas pessoas todas a rezar na sala dos meus avós. O Kobe Bryant é o Mortal Kombat da minha vida desde os 10 ou 11 anos.

É absolutamente certo que pensei em miúdas da escola enquanto te via a lançar triplos com a mão esquerda.

É garantido que chorei desgostos de amor ao mesmo tempo que tu e o Allen Iverson se batiam no pavilhão. Preparei apresentações e estudei para testes enquanto tu ouvias cânticos de MVP em todos os pavilhões. O dia de Natal ganhava mais alguma magia sempre que te via jogar durante a noite.

O meu quarto teve uma janela aberta para ti durante 20 anos. Ajudaste-me a combater as saudades dos amigos e da família, e a ultrapassar os dias menos bons. A olhar em frente. A perceber que o caminho se faz caminhando.

Kobe, eu sorri contigo. Saltei contigo. Gritei contigo. Agora, choro contigo. E tudo isto é absolutamente absurdo. E triste. Afinal, sou só um homenzinho feito que acaba de descobrir que tem um ídolo no dia em que ele desaparece.

Do sempre teu,
Diogo