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26 de março de 2010: o dia em que Arenas foi condenado por levar quatro armas para o balneário dos Wizards. Por causa de um jogo de cartas

Gilbert Arenas foi o protagonista de um dos incidentes mais infames da história recente da NBA. Acabou condenado a dois anos de prisão com pena suspensa e a sua carreira nunca mais recuperaria. Aconteceu há precisamente 10 anos

Lídia Paralta Gomes

Doug Pensinger/Getty

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Estávamos em 2009 e tudo começou num dos inúmeros voos que as equipas da NBA têm de fazer para atravessar os Estados Unidos de este a oeste, norte a sul. Lá atrás do avião em que viajavam os Washington Wizards disputava-se um renhido campeonato de bourré, uma mistura de póquer com espadas inventada lá para os lados do Louisiana - e daí o nome afrancesado. Jogava-se a dinheiro, pois claro, coisa que não falta entre jogadores da NBA.

Javaris Crittenton, então um jovem ainda nos primeiros anos de liga, estava já a perder uma boa maquia quando Gilbert Arenas, uma das estrelas da equipa e dono de um dos mais chorudos contratos da NBA, entrou a matar. Como o próprio viria a relatar anos mais tarde, numa entrevista à The Action Network, desatou a troçar do jovem colega, do dinheiro que ia perdendo, das jogada que lhe corriam mal. Já se sabe que os balneários da NBA são feitos de egos e de hierarquias.

E então, como se diz do lado do oceano, tudo escalou rapidamente.

Não sendo rapaz de levar desaforos, Crittenton respondeu às provocações, ameaçando Arenas de o matar a tiro. Arenas aumentou a aposta: "Ai sim? Eu levo as armas".

Dois dias depois, numa pacata véspera de Natal na capital americana, Gilbert Arenas apareceu na Verizon Arena, casa dos Washington Wizards, com quatro armas. No balneário apontou-as ao colega que, de acordo com o testemunho dos restantes incrédulos jogadores, puxou de uma outra arma, como se de repente aquele balneário fosse o faroeste num duelo ao pôr do sol. Todas as armas estariam descarregadas o que, à luz da lei do District of Columbia, não deixa de ser crime.

Um par de semanas depois, antes do início do jogo entre os Wizards e os Philadelphia 76ers, na habitual apresentação dos jogadores, Gilbert Arenas fez o seu pequeno númerozinho: os seus colegas rodearam-no e o base, com os dedos a imitar armas, fez de conta que os matava a todos. A brincadeira irresponsável fez então a NBA suspender o jogador, sem salário, por considerar as ações de Arenas irresponsáveis e um mau exemplo que a principal liga de basquetebol do Mundo normalmente não tolera.

A partir daí tudo ruiu como um castelo de cartas para Arenas, três vezes All-Star da NBA e o homem que fez aquilo que Michael Jordan não tinha conseguido em Washington: levar os Wizards aos playoffs. Suspenso a 6 de janeiro pela NBA, a 14 de janeiro seria indiciado por posse de arma sem licença.

A 26 de março, faz esta quinta-feira 10 anos, foi condenado a dois anos de prisão com pena suspensa e a 30 dias de internato numa casa de correção, no culminar de um dos mais comentados e bizarros incidentes da história recente da NBA.

Gilbert Arenas, que até ao infame episódio no balneário que começou com uma discussão por causa de um jogo de cartas usava o número 0 na camisola - porque, disse numa entrevista, era o número de minutos que muitos dos ditos especialistas acreditavam que ele iria jogar na NBA -, voltaria a jogar na NBA depois de uma longa suspensão. Mas nunca mais foi o mesmo.

Para lá das lesões nos joelhos que já o atormentavam à altura, ainda tinha mais um handicap às costas: um contrato monstruoso de mais de 100 milhões de dólares que nenhuma equipa queria receber.

Ainda jogaria nos Orlando Magic e nos Memphis Grizzlies antes de desaparecer definitivamente dos roasters da NBA, embarcando numa curta aventura no basquetebol chinês que também não durou muito.

Para Javaris Crittenton a vida correu ainda pior. Apesar de ter recebido uma pena bem mais leve que de Arenas - um ano de pena suspensa -, nunca mais se recompôs. Nunca mais jogou na NBA e e em 2015 foi condenado por homicídio.

Cumpre neste momento uma pena de 23 de prisão.