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Carlos Barroca: "Fui ao balneário dos Bulls. Estavam lá 50 jornalistas, todos em cima do Michael Jordan, só via a careca dele a brilhar"

Ainda enquanto comentador televisivo, Carlos Barroca narrou as três despedidas de Michael Jordan do basquetebol. Hoje vice-presidente das operações da NBA na Ásia, está agora em Portugal, a trabalhar com fusos horários de Nova Iorque e Xangai, mas arranjou tempo para assistir à série documental "The Last Dance", que conta a carreira e a última época do ex-jogador com os Chicago Bulls, cujos últimos episódios estrearam esta semana. O português achou-a "fabulosa", explicou os porquês à Tribuna Expresso e resumiu a admiração que tem pela "excelência" de Michael Jordan: "Numa altura em que não havia redes sociais, se alguém vendeu a NBA para o mundo inteiro, foi claramente ele"

Diogo Pombo

Tom Berg/Getty

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Tempos houve em que redes eram as de pesca, a internet era nome para se estranhar e às quadrangulares televisões de cá chegavam somente migalhas do que se passava nos cestos do outro lado do charco. E à rede chegavam os jogos que a voz de Carlos Barroca narrava, carimbados com o "fantástico" que sempre havia na despedida de cada emissão, a etiqueta vocal que durante 25 anos vinha com as partidas da NBA transmitidas em Portugal.

Carlos Barroca não acredita na perfeição, mas, durante esse tempo, assistiu ao esculpir progressivo de um mito competitivo e viu proeza atrás de proeza ser cometida por Michael Jordan, que "se calhar foi quem esteve mais perto da perfeição". O português é hoje vice-presidente para as operações da NBA na Ásia, os fusos horários com que antes se tinha de reger para acompanhar os jogos são agora mais esquizofrénicos, porque está em Portugal e tem reuniões com os EUA e a China. Mas teve tempo para, um dia após estrear o último par de episódios da série "The Last Dance", só lhe faltarem ver 14 minutos.

É a pessoa a quem auscultamos a opinião sobre as 10 horas que recontaram a carreira e os títulos de Michael Jordan, puxadas pelo gancho da última época que passou nos Chicago Bulls. Porque uma coisa é ver por dentro o que se soube que aconteceu, outra é rever o que se viveu e acompanhou por fora e perguntámos a Carlos Barroca o que achou da série e que histórias lhe agitou na memória. Numa palavra, que multiplicou bastante, achou "fabuloso".

O que achou do documentário?
Fabuloso, com todas as componentes que um produto destes tem que ter. A realidade e a descoberta das partes a que nenhum de nós teve acesso. Uma coisa são as coisas vistas, às vezes como são vendidas, outras são a parte que não fazíamos ideia que existiam. Pessoalmente, foi uma viagem pelo meu passado, porque comentei todos estes jogos de todas estas finais. Dei comigo, muitas vezes, com uma lagrimazinha no canto do olho, a recordar momentos associados ao basquetebol, à minha vida profissional na altura e à relação com a minha família, com os meus filhos e com a minha situação de vida. Portanto, foi uma viagem fantástica pelo passado, feita de uma forma genial como só a NBA, e neste caso a ESPN, podem fazer.

E o conteúdo?
Achei magnífico, com uma parte muito real, que é a dos jogos, que nos coloca e faz sentir dentro do jogo. Depois, a outra parte por trás, e estes últimos episódios fizeram-me recordar muito a história da doença do Michael Jordan, da qual tomámos conhecimento entretanto, mas não naquela altura, quando não havia social media nem todas as plataformas de comunicação que hoje existem. Na altura, qualquer informação passada por um comentador ou jornalista presente no local era o que chegava a nós. Não havia outras fontes de informação. A versão oficial foi que o Michael Jordan deve gripe.

Mas as histórias do Dennis Rodman eram públicas?
Sim, o desaparecimento dele, também quando desatinou e foi passar uns dias de férias a Las Vegas, isso foi público. Depois, de um ponto de vista pessoal, hoje em dia sou amigo de imensa gente que esteve naquela vida. Primeiro, por ser treinador internacional do Basketball Without Borders, depois, colaborando com a NBA em outros eventos, e finalmente entrando mesmo dentro da NBA. Ao longo do percurso conheci muita gente, de várias gerações, e dei por mim deliciado e expectante com os novos episódios, ainda por cima, dado este confinamento em que todos vivemos, acho que não foram só as pessoas do basquetebol que estiveram a ver isto. Foram as pessoas que tiveram tempo, que gostam de desporto e também as que não têm nada a ver com o desporto. Porque, com tempo, acabaram por ver um produto que embrulhou de forma fantástica a carreira do Michael Jordan.

E expôs o feitio, digamos, difícil que ele tinha.
Agora é motivo de controvérsia, diz-se que o Michael Jordan era um tirano, mas, o que é bom na exposição mediática, é que cada um pode tirar as ilações, aprendizagens e conclusões que quiser. Para mim, Carlos Barroca, fã, profissional e amante de basquetebol e da expressão humano, é um documento fabuloso. E, internamente, já fiz circular uma informação: pessoal, produzam algo igual já, se não estiverem já a produzir. Não sei se será sobre o Kevin Garnett ou o Kobe Bryant, mas este produto é fabuloso, estejamos, ou não, numa pandemia.

Sabe-se que vai haver um documentário sobre a última época do Magic Johnson, por exemplo, mas não sei quem o irá produzir.
Ele é uma pessoa muito especial, que até esteve em Portugal duas vezes, eu e o António Carlos trouxemo-lo em 1994 e 1995. É alguém fascinante, temos risadas e cumplicidade juntos. O Magic é outro deles e se há algo que me atraiu a ser comentador foi num ano em que fui a Nova Iorque ter notado o sentido de humor que a televisão pode transmitir. Antes de viajar para os EUA achava a televisão em Portugal muito séria, muito cinzenta, muito doutoral e científica. Não quer dizer que não haja momentos em que a comunicação tenha que ser séria, obviamente, mas o desporto deve ser leve e divertido. Recordo o momento em que o Steve Kerr salta para o palco no festejo do último título e diz que, mais uma vez, teve de salvar o Michael Jordan. É preciso sentido de humor para dizer e ouvir uma coisa destas. O desporto deve ser algo que junta o melhor que as pessoas têm, em todos os sentidos.

Mas isto não mostrou, também, um pouco do pior que o Michael Jordan tinha?
A discussão eterna que existe à volta do melhor jogador de sempre, se é ele, o Kobe ou o LeBron James, é boa para o público e para criar tema, mas é uma conversa sem fim. O Michael foi o melhor da sua altura, o Dr. J da sua e por aí fora. Comparar jogadores diferentes, de basquetebóis diferentes, é uma conversa que as pessoas gostam de ter. Eu não gosto. Gosto de admirar a excelência e o Michael Jordan, nesse capítulo, está no top. É uma máquina competitiva. Ouvi-lo falar e justificar os porquês faz-me lembrar muitos jogadores que conheci e alguns com características diferentes - uns, quando eram picados, vinha ao de cima o melhor deles; outros, desapareciam porque era cobardolas. Mas pronto, cada um é como é.

The Sporting News/Getty

Há uma parte em que o Jordan admite ter inventado uma picardia com um adversário só para ter algo com que se motivar.
Essa história é gira, de vermos o Reggie Miller e outros a contarem que cada vez que o provocaram, levaram na cabeça. Há atletas que são assim. Se os deixarem andar quietos têm o rendimento normal, se são bons, são bons, se são maus, são maus. Mas há outros que se lhes tocam em qualquer coisa que faz espoletar o bicho que está dentro deles, preparem-se porque o bicho é muito mau. Cada vez que provocavam o Michael Jordan... Há uma cena em que ele está na linha de lance livre e alguém faz uma aposta com ele - aposto que não encestas com os olhos fechados. E ele fechou os olhos, lançou e por acaso até marcou. Gostava de ser picado, a outra pessoa ficava marcada e ele dizia "vou dar cabo de ti". As pessoas esquecem-se que, antes desta senda de triunfos, o Michael Jordan foi o melhor marcador da liga, mas isso nunca lhe deu nada. Como jogador, ele se calhar foi o que esteve mais perto da perfeição, mas ninguém é perfeito. E vemos nesta série algumas coisas que são diferentes das que estamos à espera.

Como a parte boémia da vida dos jogadores?
Irem treinar e, antes, beberem duas cervejas e fumarem um charuto, à luz da educação que hoje temos à volta do desporto... Beber umas cervejolas e fumar charutos não me parece ser a boa imagem que temos de um desportista, mas as pessoas são o que são e ninguém lhes pede para serem um role model. Nós, exteriores a essas pessoas, é que lhes atribuímos essa definição. O Michael Jordan nunca quis ser um role model, queria ser o máximo que conseguia ser e era competitivo. Antes de ser campeão, houve uma fase em que era competitivo, bom jogador, melhor marcador da liga, mas não ganhava nada. E passou disso para perceber que só iria conseguir ganhar se elevasse o nível de rendimento dos atletas que jogavam com ele. Do ponto de vista da liderança e da gestão de grupo, é extremamente importante perceber. No desporto e na vida, quanto mais forte for o nosso grupo, melhores resultados vamos alcançar.

Mas ele chega a dizer que exigia aos outros que estivessem ao mesmo nível dele, o que era impossível para quase todos.
O facto de ser tirano, exigente e competitivo e de liderar vocalmente, contribuiu com a sua exigência para elevar os níveis de competitividade de cada um deles. Isso é inevitável. Se o melhor jogador da equipa - e digo-o como treinador - é preguiçoso, será um problema para o treinador elevar o nível de rendimento da equipa, porque os outros vão encaixar na linha. Há outra parte engraçada de toda a história é que a NBA sempre foi famosa pelo trash talking, pela provocação. Aí, confesso, deliciei-me com todos os episódios de ver o Michael Jordan no trash talking com aquela gente toda. Há pouco, num autocarro a caminho do aeroporto de Xangai, fui o caminho todo a falar com o Gary Payton [defrontou Jordan com os Seattle Supersonics e ganhou uma NBA com os Miami Heat] sobre o James Harden enquanto jogador. E é fascinante falar com o Gary Payton porque ele é um trash talker violento, não consegue ter uma apreciação que não seja brutal. Então foi uma meia hora de nós naquilo, eu a provocá-lo e ele a ir atrás da provocação, foi fascinante. E, nestes episódios, ele também aparece. Passei estas semanas ansiosamente à espera de cada episódio, a derreter-me de emoções ao ver pessoas que conheço e admiro.

Como por exemplo?
Falei com o Dikembe Mutombo antes do primeiro episódio e perguntei-lhe se iria aparecer. Disse que ninguém falou com ele, mas sabia que iria aparecer porque, nos anos em que os Chicago Bulls ganharam, eles [Denver Nuggets ou Atlanta Hawks] venceram o Michael Jordan. De facto, o Dikembe aparece. Acho que isto foi um sucesso internacional e mexeu com as emoções das pessoas. Com as minhas mexeu e espero que isto não seja o fim desta nova forma de comunicação.

E qual é a sua relação com o Michael Jordan?
Como comentador televisivo, fiz três despedidas dele. A primeira é quando ele sai depois dos três primeiros títulos, a segunda quando ele sai outra vez após o sexto título, e a última quando sai dos Washington Wizards [2003]. Recordo-me quando foi o All-Star Game, em Washington, não sei se ainda jogava, mas foi lá a Mariah Carey como estrela convidada ao intervalo, e apareceu a cantar, primeiro, com um vestido lindíssimo dos Chicago Bulls, depois saiu e voltou com um vestido comprido dos Wizards. Foi fascinante.

Alguma vez o conheceu?
Nunca conversei com ele, mas estive com ele em duas circunstâncias completamente diferentes. Uma, quando estive em Nova Iorque, em 1988/89, tinha uma credencial da "Gazeta dos Desportos", escrevia umas coisinhas e isso permitia-me entrar no pavilhão, assistir aos jogos e por aí fora. Mais tarde, um treinador-adjunto da Universidade de Pace era filho do Dick Harter, que era adjunto do Rick Pitino nos Knicks, pelo que tive oportunidade de assistir a treinos e ter outra proximidade com a equipa. Há um dia em que jogam com os Chicago Bulls e queria ver o Michael Jordan a jogar. Vi-o, foi fabuloso e, depois, fui ao balneário porque os jornalistas tinham acesso. Estive ao pé do Michael Jordan e foi aquilo que se vê nos filmes: entras num balneário e se estão lá 50 jornalistas, estão os 50 em cima do Michael Jordan. A única coisa que via era a careca dele a brilhar lá atrás e o resto dos jogadores a curtirem, a tomarem banho e a estarem ali na boa. Na altura não havia telemóveis, hoje já o teriam ligado, mas estavam a ouvir música com os headphones e toda a gente em cima do Michael Jordan. Estive várias vezes ao pé dele, nunca tive oportunidade de falar com ele. Um dos divertimentos do meu filho mais novo é ver no meu telemóvel os nomes de antigos jogadores da NBA que aparecem. Quem conheço, conheço, com quem falo, falo, mas com o Michael Jordan nunca foi mais do que isto. Sou adepto da excelência do trabalho dele e do que fez pela modalidade. Em 1992, a NBA era seguida em 80 países e hoje são mais de 200, o David Stern disse-o no documentário. Numa altura em que não havia redes sociais, se alguém vendeu a NBA para o mundo inteiro, foi claramente o Michael Jordan. Não há nenhuma duvida sobre o impacto que tem no jogo e no negócio da NBA, na consequência financeira que teve na própria liga.

Nathaniel S. Butler/Getty

Acha que há adversários que possam não ter gostado muito de aparecer no documentário? Todos foram superados por Michael Jordan, de uma maneira ou outra.
O que é a verdade de uma história? É a minha opinião? É a opinião do Diogo? Se calhar, a verdade está no meio das nossas histórias. O que seria importante, e por isso o meu desafio é que façam mais documentários, seria haver outros lados da last dance. O Michael Jordan tem um papel ímpar dentro da modalidade. Não fazia sentido se uma séria destas fosse projetada para ser feita com um jogador que não atingiu o nível que ele atingiu. Não será por acaso que os níveis de audiências destes episódios têm proporções astronómicas. Porquê? Porque é o Michael Jordan, como seria com o Kobe, o LeBron ou com os grandes jogadores do jogo. Há direito de ter outra opinião? Obviamente que sim. Esta série foi feita para enaltecer o bom e o mau, mas a história é contada de uma determinada maneira. Há outros ângulos para ver a história? Sim, isso é uma coisa que a vida nos ensina, de aceitar formas de vestir, conceitos e vidas diferentes. Verdades absolutas há muito poucas e respeitar os outros é uma qualidade de viver bem. Acho que sim, que há lugar para outras interpretações da história. Esta foi uma visão, construída desta forma, mas abre caminho para explorar outras personalidades. O Michael Jordan mostra, também, as suas fraquezas humanas, as suas tiradas, as suas reações emocionais no decorrer dos jogos. Acho que a série não mostra um Michael Jordan perfeito, mas humano, que é uma máquina de ganhar porque tem personalidade para isso, que faz o que for preciso para ganhar. O ser humano tem a sua forma de reagir à pressão e ao desafio, a forma de cada um é quase a sua impressão digital na vida. E esta foi a versão Michael Jordan. Confesso que adorei, cabe a cada um gostar ou não, mas acho que abre caminho a que outras leituras da mesma questão sejam levantadas. Seria brilhante aparecer agora uma segunda série, que podia ser "The Last Dance From the Other Side". Como é que os outros, os adversários, os humilhados se quisermos, vêem esta apologia do mítico Michael Jordan, tantos anos depois?

Até porque entretanto soube-se que a produtora do Michael Jordan esteve envolvida no projeto. Seria sempre uma coisa muito focada nele.
Cada um interpreta como quiser. A natureza humana permite isso mesmo e o papel do jornalista é ouvir quem conhece, sente e esteve lá. Ainda bem que todos gostamos de cores diferentes, não somos todos iguais e a piada do meu trabalho, hoje em dia, é por causa dos sítios, das culturas e das pessoas diferentes. É o fascínio de reconhecer o direito à diferença e a NBA tem um pouco essa capacidade. Não há outra marca no campo de basquetebol como a NBA, que representa uma capacidade transversal de unir formas diferentes de estar na vida. Aquilo que defendemos é a integração e isso significa aceitação. Digo que esta série não é perfeita, mas serviu perfeitamente para mostrar as forças, as fraquezas e as motivações do Michael Jordan. Ficámos a conhecer facetas dele que nunca tínhamos conhecido, porque sempre foi muito privado e recordo-me de o ouvir dizer isto.

Em pessoa?
Lembro-me de uma das poucas vezes em que estive ao pé dele, ouvi parte da conversa que estava a ter e ele dizia que não podia ir ao cinema. Ou, se ia, que tinha de entrar depois de o filme começar e sair antes de acabar para poder assistir sem estar a ser incomodado. Não é fácil ser uma estrela da dimensão dele, viver continuamente com seguranças ao lado, sempre de forma recatada e escondida, não poder ser público em muitas coisas normais na vida de uma pessoa. Mas, se tenho de fazer um resumo final, acho que este documentário foi fabuloso e que venham mais.

Disse que houve partes que o surpreenderam por mostrarem coisas novas. Quais?
Pela confirmação e por, como treinador, nunca, nem de perto nem de longe, ter atingido esses níveis de gestão, destacaria o Phil Jackson. Há uma coisa no desporto norte-americano e na NBA em particular que é o conceito de individualização do treino e da pessoa. Falava muito sobre isto, na década de 80, com o Mike Fratello [ex-treinador dos Cleveland Cavaliers e dos Memphis Grizzlies], e mais tarde com o Chuck [Cavaliers, Detroit Pistons, New Jersey Nets e Orlando Magic]. Há poucas obrigações de equipa e as coisas são muito individuais. Choca-nos o Dennis Rodman meter-se num avião mal acabou o jogo para ir ter com o Hulk Hogan e fazer wrestling, ou como o Michael Jordan se juntou ao pai, meteram-se numa limusina e foram a Atlantic City para jogarem no casino. O que para nós é absolutamente aberrante no conceito de equipa profissional na Europa, seja de que modalidade for - refeições, estágios, sempre todos juntos -, na América é cada um tem o seu dinheiro e os atletas fazem o que querem e lhes apetece. Não há cá refeições de equipa, nem horas para controlar os atletas. Naquela altura era completamente assim que se vivia.

Conheceu o Phil Jackson?
Conheci-o quando era treinador-adjunto dos Chicago Bulls, em Los Angeles, durante a Summer League. Era uma altura em que estava sem dinheiro e tinha de ir levantar algum que tinha sido transferido para mim. Estava um calor brutal e foi no dia em que estava com o George Gervin, o Iceman, que me apresentou ao Magic Johnson, isto para aí em 1984, 85 ou 86. Estávamos na conversa, disse que tinha de lá ir levantar o dinheiro, estava um calor do caraças, e o Phil Jackson, já tínhamos sido apresentados, perguntou se queria boleia. "Sim, dava-me jeito". Acabou um jogo que estávamos a ver, ele tinha um carro e fomos lá. Era uma pessoa muito especial, muito zen, muito hippie, muito do espiritismo. Ele foi jogador e campeão com os Knicks, na década de 70, depois tornou-se numa pessoa não menos revolucionária, mas tão adaptável que conseguiu, em várias circunstâncias, harmonizar as individualidades para as tornar num coletivo fortíssimo. A maneira como reagia a situações anormais é absolutamente fascinante, fiquei encantado por assistir a isso. Outras que me chamaram a atenção foram as explosões de exigência do Michael Jordan com os seus próprios colegas. Sabia que existiam, mas só no desporto americano, e na NBA em particular, é que o money player tem um poder na equipa que os outros não têm e é possível existir esta figura, paternalidade e liderança da forma como o Michael Jordan a exerceu.

E, por arrasto, a forma de arcar com a pressão?
Exatamente. Esse tipo de gestão da personalidade dentro do próprio grupo é fascinante, e muito diferente do que no resto do mundo as pessoas aplaudem a forma de liderar uma equipa. Há características, digamos, culturais dentro do basquetebol e da sociedade desportiva americana que deixam que determinada forma de liderança seja permitida. Acho que não seria possível ter os mesmos impacto e resultado que ocorrem ali. Foram, talvez, os pontos mais espetaculares para mim no documentário, em termos do revelar de coisas diferentes.