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Jordan não lutava para ser a melhor pessoa de sempre, mas o melhor basquetebolista de todos os tempos. Esse foi um ato de liberdade

O escritor Bruno Vieira Amaral analisa o documentário "Last Dance" que o deixou viciado, emborcando os episódios sobre a última época de Michael Jordan nos Chicago Bulls, com uma sofreguidão atroz, de alcoólico

Bruno Vieira Amaral

ADRIAN DENNIS

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Durante cinco semanas, eu, que nunca vi um jogo de basquetebol do princípio ao fim, à exceção das gloriosas jornadas europeias do Benfica de Carlos Lisboa, Jean-Jaques, José Carlos Guimarães, Steve Rocha et alli, dei por mim a emborcar os episódios de Last Dance, o documentário, disponível na Netflix, sobre a última época de Michael Jordan nos Chicago Bulls, com uma sofreguidão atroz, de alcoólico. Os episódios iam sendo disponibilizados aos pares, todas as segundas-feiras, e já não tinha este sentimento de ressaca e antecipação desde que, em meados dos anos 90, aguardava febrilmente mais um episódio dos Ficheiros Secretos.

Confesso que fiquei com pena de, na minha adolescência, não ter acompanhado de perto a NBA porque imagino que o prazer agora, ao recordar os tempos e figuras de que me lembraria melhor, seria redobrado. Houve ali uma altura, creio que entre 89 e 91, em que alguns dos meus amigos debandaram do futebol para o basquetebol. Eu próprio cheguei a comprar cromos para uma caderneta com todas as equipas da NBA – eram os anos de domínio dos Detroit Pistons – mas pouco, para além da recordação dos nomes das equipas e de alguns jogadores – Isaiah Thomas, Pat Ewing, Spud Webb – ficou em mim.

Confesso que, depois de ver o documentário, tive vontade de olhar com outros olhos para a modalidade e de, a partir de agora, começar a acompanhar religiosamente os jogos da NBA. Já sei que não o farei e tenho boas razões para isso. É que acompanhar a história enquanto ela está a acontecer é uma chatice. Outra coisa é ver um filme dessa história vinte e tal anos depois dos acontecimentos.

O que quero dizer é isto: Last Dance é um documentário viciante porque não é sobre basquete. O basquete está lá apenas para nos lembrar o que é que aqueles indivíduos andavam ali a fazer e para testemunharmos alguns momentos dramáticos ou de uma incrível beleza – cestos decisivos, jogadas impossíveis, jogadores a pairar no éter como noivas de Chagall, para usar uma imagem de David Foster Wallace.

O documentário quer contar a história de um grupo de homens que, por acaso, eram jogadores de basquete. Convém que o espectador tenha um nível de conhecimento mínimo sobre a modalidade, mas não é fundamental para poder apreciar as histórias, os conflitos, as anedotas que se vão desenrolando, acumulando e resolvendo ao longo de dez episódios.

No centro de tudo, como é óbvio, está Michael Jordan, o melhor jogador de sempre, o ser mais competitivo que alguma vez viveu, o Black Jesus, seis vezes campeão da NBA, incomparável máquina de fazer dinheiro, apreciador de charutos e de fatos de cores estrambóticas.

De cada vez que saíam mais dois episódios, as reações sucediam-se. Ex-colegas de Jordan, analistas, comentadores, treinadores vinham clarificar uma ou outra coisa, corrigir certas impressões ou até mesmo factos. Houve quem dissesse que Last Dance era uma espécie de hagiografia de Jordan, o seu passaporte para a santidade, visto que a eternidade ficou garantida há muito.

Não me parece que seja isso.

Se entendermos uma hagiografia como uma tentativa de limpar o cadastro de uma figura, de eliminar da narrativa os seus pecados e pecadilhos, Last Dance não cabe nessa definição.

O lado negro de Michael Jordan é mostrado sem reservas: o vício das apostas, o bullying aos colegas, a cobardia cívica. É verdade que lhe é dada a oportunidade de se defender de todas as acusações e de procurar justificar os seus erros, mas sendo ele o protagonista da história seria estranho se isso não acontecesse. Porém, o espectador pode ver e decidir por si se acha que o vício das apostas esteve sempre tão controlado como ele diz, se o bullying aos colegas se justificava para tirar o melhor de cada um deles, se a cobardia cívica era um afastamento higiénico da política ou uma estratégia pragmática para não alienar fãs e consumidores da marca Jordan.

Quanto a isto, ficou célebre uma frase de Jordan quando se recusou a apoiar um candidato democrata nas eleições da Carolina do Norte contra o infame Jessie Helms, um troglodita desbocado: “os republicanos também compram ténis.” No documentário, Jordan não nega a frase, mas sacode-a do ombro como apenas uma piada.

Ele tinha todo o direito de não se querer meter em política, mas fazê-lo com aquele argumento, o do lucro da sua marca, foi um golpe para aqueles que o admiravam, mesmo os que não lhe exigiam uma intervenção cívica ao estilo de Muhammad Ali.

O que não se pode dizer é que fosse hipócrita. Hoje, quando todas as figuras públicas querem estar do lado certo da história, a favor de todas as coisas boas e contra todas as coisas más, a atitude de Jordan parece não só um ato de liberdade – por muito criticável e egoísta que seja – ditado pela consciência do homem e não por um departamento de relações públicas, mas também de completa coerência com o que ele foi enquanto atleta e enquanto pessoa.

Jordan não lutava para ser a melhor pessoa de sempre, mas o melhor basquetebolista de todos os tempos. Estava-se nas tintas para a política e nunca o escondeu. A sua lenda foi escrita onde ele quis que fosse escrita: em campo.

E é aí que a sua essência é revelada: a de um homem obcecado em vencer, a de uma capacidade de superação inigualável, a de um espírito juvenil sempre a inventar estratagemas para se motivar a si mesmo. E isto, salvo uma ou outra escaramuça, sem perder o respeito pelos adversários. Mesmo à distância de vinte e tal anos, Jordan recorda certos episódios com aquele brilho infantil da pequena vingança nos olhos. Não é maldade, nem ódio. É aquilo que todos nós sentimos quando éramos miúdos e alguém nos dizia “não jogas nada”, “não és capaz” e o orgulho obrigava-nos a responder com um “ai não jogo?” ou “ai não sou capaz? Então já vais ver.”

No nosso caso, a resposta nem sempre era convincente porque ou não jogávamos assim tanto ou não éramos mesmo capazes. Jordan jogava muito e era capaz de fazer quase tudo num campo de basquete. Mas quando ia buscar motivação ao orgulho, a ofensas e menoscabos, reais ou imaginários, era fogo. Last Dance é apenas a história de como se mantém viva uma chama que costuma apagar-se na infância.