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A NBA dentro de uma bolha começa a jogar-se esta quinta-feira. O guia para lá entrar está aqui

Mais de quatro meses depois da suspensão da temporada, a NBA está de regresso, mas é uma NBA diferente de tudo o que conhecemos: 22 equipas fechadas na Disney World, na Florida, onde a vida e os jogos se vão concentrar no complexo de onde ninguém pode sair, a não ser por razões de força maior. As bancadas estarão vazias e os jogadores e staff estão obrigados a seguir regras e recomendações restritas para evitar qualquer infeção com a covid-19

Lídia Paralta Gomes

Giannis Antetokounmpo é a estrela dos Milwaukee Bucks, LeBron James lidera os LA Lakers. As equipas do gigante grego e de um dos melhores de sempre estão à frente das respetivas conferências e poderão encontrar-se na final da NBA. Uma final que não terá público e será jogada na Flórida, onde há um mês 22 equipas se encontram isoladas, numa bolha cheia de regras mas também de alguma diversão

Harry How/Getty

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O ESPN Wide World of Sports é gigantesco complexo dentro de um complexo ainda mais gigantesco chamado Disney World, ali a uns passos de Orlando, na Flórida. É uma espécie de parque de diversões - ao lado de um dos verdadeiros, daqueles com montanhas-russas e quejandos - para aqueles que gostam de desportos: há um estádio de basebol, vários pavilhões multi-desportivos, campos de futebol, do nosso futebol e daquele que se joga também do outro lado do Atlântico, com uma bola que não é uma bola, mas sim uma oval. Há courts de ténis, infra-estruturas para atletismo, enfim, é só escolher.

É aí que a NBA vai retomar uma temporada suspensa desde 11 de março, poucas horas depois de se conhecer o primeiro positivo à covid-19 na liga: o francês Rudy Gobert, que dias antes, desafiando toda e qualquer recomendação, havia terminado uma conferência de imprensa tocando deliberadamente em todos os microfones e gravadores dos jornalistas presentes naquela conferência de imprensa.

O karma é tramado.

Pois bem, mais de quatro meses depois do episódio tragico-cómico do poste gaulês, a NBA está de regresso, mas a NBA que vamos ver a partir desta quinta-feira será muito diferente daquela que deixámos para trás, quando os Estados Unidos ainda estavam longe de ser o país com os números mais assustadores da pandemia. Quando na próxima madrugada, os jogadores dos Utah Jazz e os New Orleans Pelicans se fizerem à primeira bola ao ar, vão faze-lo às custas de um plano de 170 milhões de dólares (o equivalente a 145 milhões de euros), o investimento que a NBA fez para levar 22 das 30 equipas para a bolha da Disney World, um ambiente absolutamente controlado, de onde ninguém sai ou para onde ninguém entra a não ser por razões de força maior.

Fica aqui o essencial sobre a nova NBA dentro de uma bolha, onde há competição e decisões, onde um título se vai definir e onde vai existir liberdade para os atletas fazerem ouvir a sua voz pelas suas causas, pelos movimentos civis, numa altura de grande revolta social nos Estados Unidos.

Mas também, e porque a vida não é só trabalho, a bolha é um sítio de alguma diversão para todos aqueles que estão desde o início do mês fechados entre os portões de um parque de diversões, onde há ioga, meditação, pesca desportiva e golfe, tudo segundo as minuciosas regras de um protocolo com mais de 100 páginas, uma espécie de Bíblia para a vida em comunidade nos próximos meses.

AS EQUIPAS E A COMPETIÇÃO

Nem todas as 30 equipas da NBA estarão na Flórida, apenas as que já estavam em lugar de acesso aos playoffs e aquelas que, quando a pandemia entrou colocou em pause a vida como a conhecíamos, estavam a seis vitórias ou menos do 8.º posto de cada conferência, ou seja, o último que dá acesso à fase a eliminar.

E é por isso que a bolha apenas albergou 22 equipas, nove da Conferência Este (Milwaukee Bucks, Toronto Raptors, Boston Celtics, Miami Heat, Indiana Pacers, Philadelphia 76ers, Brooklyn Nets, Orlando Magic e Washington Wizards) e 13 da Conferência Oeste (LA Lakers, LA Clippers, Denver Nuggets, Utah Jazz, Oklahoma City Thunder, Houston Rockets, Dallas Mavericks, Memphis Grizzlies, Portland Trail Blazers, New Orleans Pelicans, Sacramento Kings, San Antonio Spurs e Phoenix Suns).

É no ESPN Wide World of Sports, um complexo dentro do complexo que é Disney World, que a NBA vai retomar as operações

É no ESPN Wide World of Sports, um complexo dentro do complexo que é Disney World, que a NBA vai retomar as operações

Chris Jackson/Getty

A mecânica da competição vai sofrer algumas alterações e sobre a definição de quem vai ou não vai aos playoffs, bem, a explicação é intrincada mas aí vai: numa primeira fase, todas as equipas vão fazer oito jogos, escolhidos entre os encontros que ainda faltava disputar na altura da paragem. E como a 11 de março as equipas tinham disputado diferente número de jogos na temporada regular, o registo final de vitórias/derrotas será feito de acordo com duas parcelas: a relação de vitórias/derrotas pré-pandemia + a relação de vitórias/derrotas dos oito jogos desta primeira fase.

Mais uma nuance: no final destas contas, entre o 8.º e o 9.º classificado de cada conferência poderá haver ainda um, chamemos-lhe, pré-playoff. Tal acontecerá se a equipa com o 9.º registo final estiver a quatro ou menos vitórias do 8.º classificado. Nesse caso, as duas equipas lutarão por um lugar nos playoffs numa série em que o 8.º lugar precisa apenas de uma vitória e o 9.º terá de ganhar dois jogos para seguir em frente.

A partir daqui acabam as invenções: os playoffs arrancam a 17 de agosto e vão decorrer, como habitualmente, à melhor de sete jogos. As finais deverão acontecer entre 30 de setembro de 13 de outubro.

UM ESTRITO PROTOCOLO SANITÁRIO

Até agora houve um total de 34 infetados na NBA, entre os quais Russell Westbrook, o espanhol Ricky Rubio, Kevin Durant ou James Dolan, proprietário dos New York Knicks. O risco, sabemos todos, existe sempre, mas a NBA não poupou qualquer esforço para mitigar ao máximo a possibilidade de contágio dentro da bolha da Disney World.

Assim, em conjunto com a associação de jogadores da liga, criou um extenso e pormenorizado protocolo com mais de 100 páginas, com regras e procedimentos - desde o número de pessoas que cada equipa pode levar para a bolha até à solução que deve ser utilizada para higienizar as bolas de basquetebol utilizadas pelos jogadores após os treinos e jogos, nada foi deixado de fora.

O que resta da temporada será jogada sem público e, tal como aconteceu no regresso do futebol, um teste com resultado positivo não vai parar a competição, ainda que o aumento de casos na Flórida, um dos estados dos EUA com maior incidência do novo coronavírus, preocupe o comissário da NBA, Adam Silver, que já admitiu que, sim, um aumento muito substancial de casos no estado poderá fazer a liga pensar num cancelamento da época.

Russell Westbook e Ricky Rubio são dois dos jogadores já infetados pela covid-19

Russell Westbook e Ricky Rubio são dois dos jogadores já infetados pela covid-19

Tim Warner/Getty

Todos os atletas e membros essenciais do staff foram testados antes de entrarem na Disney World (tal como jornalistas, que têm a sua própria bolha no local) e já dentro do complexo fizeram quarentena nos respetivos quartos até voltarem a apresentar dois testes negativos com não menos de 24 horas de diferença. Cada equipa pôde levar apenas 35 elementos (17 dos quais jogadores) para a Flórida.

Todas as pessoas dentro da bolha são testadas diariamente - sim, diariamente. No caso do aparecimento de um positivo, o protocolo passa por isolar esse elemento para um quarto próprio, caso a hospitalização não seja necessária. A pessoa infetada terá de permanecer em isolamento até não ter sintomas e só poderá retomar a sua vida na bolha após dois testes negativos separados por mais de 24 horas.

O uso de máscaras é obrigatório em espaços fechados, menos nos momentos das refeições ou nos quartos dos atletas, que são individuais - e não há cá convívios nos quartos ao lado. Para ajudar a monitorizar possíveis sintomas, aos atletas foi disponibilidado um anel inteligente, que faz o rastreamento da temperatura e dos batimentos cardíacos, bem como da cadência respiratória. O protocolo prevê ainda que todos os elementos do staff das equipas usem um alarme de proximidade, uma tecnologia que dispara um alerta quando o distanciamento social de dois metros não é respeitado. Os jogadores têm a opção de não usar este alarme.

Banhos depois de jogos ou treinos? Nada disso. Os chuveiros nos balneários são áreas fechadas e os atletas só poderão tomar banho no seu quarto de hotel.

Deixar a bolha só com uma justificação plausível: tratamento médico, nascimento de um filho ou doença grave ou morte de um familiar próximo. Caso um jogador saia da bolha, quando regressar terá de fazer quarentena durante 14 dias. Visitas de familiares ou amigos, só para as equipas que passem a primeira ronda dos playoffs.

Regras específicas para desinfetar bolas: sim, vai haver

Regras específicas para desinfetar bolas: sim, vai haver

Will Newton/Getty

O documento especifica até, imagine-se, todo um protocolo dentro do protocolo no que diz respeito à higienização das bolas de basquetebol. A saber:

1 - preparar uma solução de "a quarter-teaspoon of dish detergente per galon of water", ou traduzindo para unidades de medida não tipicamente americanas, "1,2 mililitros de detergente da louça por 3,8 litros de água";

2 - Usar um pano ou toalha lavados e lavar a bola com a solução;

3 - Lavar novamente a bola mas só com água;

4 - Deixar a bola a secar ao ar livre;

5 - Depois de lavada, pulverizar a bola com um produto desinfetante aprovado pela Agencia de Proteção Ambiental Norte-americana

Simples.

O QUE FAZER DENTRO DA BOLHA

Só trabalho sem diversão faz dos jogadores de basquetebol rapazes chatos, já lá diz o provérbio - devidamente adaptado. E, portanto, tendo em conta que haverá basquetebolistas que terão pela frente meses de isolamento numa bolha - uma bolha multimilionária, mas ainda assim uma bolha -, a NBA também não poupou esforços para tornar a estadia o mais agradável possível.

Assim, quando as bolas param de saltar (devidamente lavadas depois disso, claro) e as portas dos courts de treinos se fecham, há todo um mundo que os jogadores podem explorar nos tempos livres. Em cada hotel, há salas dedicadas ao lazer dos jogadores, com consolas de videojogos, jogos de arcada e mesas de ténis de mesa, onde os jogos em duplas estão proibidos. Há ainda espaços dedicados aos jogos de cartas, que terão também os seus próprios protocolos: não pode haver mais de seis pessoas à mesa e, a cada novo jogo, um novo baralho de cartas. E para ninguém se assustar com esta última parte, o documento com o protocolo de segurança da NBA especifica que "baralhos de cartas suficientes estarão disponíveis". Agora sim, estamos todos mais descansados.

Os jogadores terão ainda acesso aos campos de golfe do complexo, mas terão de jogar sem caddie e sem partilha de equipamento. Olhando para as redes sociais dos jogadores que estão na bolha, a pesca desportiva tem sido uma das atividades extra-curriculares mais apreciadas. Há ainda sessões de cinema, concertos, DJs e espectáculos de comédia. Tudo ao ar livre e com distanciamento social. Para os mais dados à espiritualidade, há espaços para ioga e meditação.

Instagram

Serviços de saúde mental estão também disponíveis para os atletas, tal como serviços das mais variadas religiões, que poderão ser solicitados de forma virtual.

Como qualquer mortal por estes dias, uma ida ao barbeiro, à manicura e à pedicura são possíveis, mas sempre por marcação.

Cada equipa tem ainda um chef de cozinha particular e refeições estão disponíveis 24 horas por dia. Ainda assim, os jogadores podem pedir comida de fora, mas apenas de uma mão-cheia de restaurantes selecionados.

A AÇÃO SOCIAL

"Um dos principais objetivos do recomeço da temporada será utilizar a plataforma da NBA para chamar a atenção e promover ações contra a injustiça social, onde se inclui o combate ao racismo sistémico, bem como expandir oportunidades educacionais e económicas para a comunidade afro-americana". As palavras são da NBA, aquando do anúncio do regresso da competição, numa altura de plena convulsão social nos Estados Unidos, após a morte de George Floyd e quando alguns atletas, como Kyrie Irving, questionavam se o momento não era o de deixar a competição de lado e reunir todas as energias para lutar pela igualdade social no país.

A NBA sempre foi a mais liberal das ligas profissionais norte-americanas e na hora de tomar uma posição a favor do movimento Black Lives Matter apoiou sem qualquer "mas" os atletas. Mesmo aconselhando os basquetebolistas a confinarem o mais possível, para assim não comprometer o início da temporada, a participação em protestos nunca foi posta em causa, com o protocolo da liga a recomendar apenas aconselhamento com os médicos das respetivas equipas para uma maior proteção durante as manifestações.

A liga e a associação de jogadores já chegaram a acordo para que os jogadores possam mostrar nas camisolas algumas mensagens a favor dos movimentos sociais. Essas mensagens deverão surgir nas costas, no local onde normalmente está o nome dos jogadores.

A NBA terá também a mensagem "Black Lives Matter" em locais visíveis nos três pavilhões do ESPN Wide World of Sports onde o resto da temporada se vai jogar.