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Lakers - Heat: a final inédita de uma época estranha que põe o legado de LeBron contra uma equipa que já foi sua

Miami Heat e Los Angeles Lakers começam esta madrugada (2h, Sport TV1) o duelo de onde vai sair o campeão da NBA de 2019/20, uma temporada atípica e que terminará dentro de uma bolha e sem público a assistir. Para LeBron James, na sua 10.ª presença numa final, está em jogo um 4.º título, que o colocará mais perto do legado de Jordan e na posição de conquistar títulos por três equipas diferentes, algo que até hoje apenas dois jogadores conseguiram. Ricardo Brito Reis, treinador e comentador da Sport TV, ajuda-nos a responder às principais questões desta final inédita

Lídia Paralta Gomes

Michael Reaves/Getty

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É já daqui a umas horas que Los Angeles Lakers e Miami Heat se lançam à primeira bola ao ar das finais da NBA de 2020 (2h, Sport TV1), no derradeiro capítulo de uma época atípica, marcada pela morte de Kobe Bryant em janeiro, pela pandemia que estendeu a época e colocou os jogadores fechados numa bolha - e pelos eventos de violência policial que, mais uma vez, sublinharam o papel da maior liga de basquetebol do Mundo na linha da frente no combate das causas sociais.

Heat e Lakers defrontam-se numa final inédita, a 6.ª da história para a equipa de Miami e a 32.ª para os de Los Angeles, a primeira com LeBron James, agora rei na Califórnia, a reencontrar a equipa pela qual venceu os seus dois primeiros títulos, em 2012 e 2013. A Tribuna Expresso convidou Ricardo Brito Reis, treinador e um dos comentadores da Sport TV que a cada madrugada nos trazem o melhor basquetebol do planeta, para nos ajudar a responder a algumas perguntas sobre o duelo que vai definir o campeão 2020 da NBA.

Uma final surpresa?

Parece longínquo o outubro de 2019, não só porque foi há um ano mas também porque o Mundo era um sítio bem diferente. Não terá mudado, no entanto, um pormenor: em outubro passado, no arranque da temporada da NBA, os Los Angeles Lakers eram um dos favoritos ao título, depois de garantirem que Anthony Davis faria companhia a LeBron James no seu cinco inicial.

Já com os Heat, é outra história.

“No início da época, os Lakers, se tudo corresse bem dentro do balneário em termos de química, eram a minha aposta para serem campeões, até à frente dos Clippers. Agora, do lado do Este, nunca pensei que a equipa de Miami tivesse já este ano capacidade para chegar à final”, começa por contar Ricardo Brito Reis, lembrando que os Heat são uma equipa que “está a ser montada de forma progressiva para ser candidata” e que nem os seus próprios responsáveis acreditariam que este ano fosse já possível lutar por uma final, que escapa desde 2014 - precisamente o último ano de LeBron James em Miami.

Os Heat não chegavam a uma final da NBA desde 2014. E nem eles próprios acreditariam que lá iam chegar este ano

Os Heat não chegavam a uma final da NBA desde 2014. E nem eles próprios acreditariam que lá iam chegar este ano

Michael Reaves/Getty

“Não achei que fosse possível lutarem. Mas a verdade é que são muito bem treinados e as peças encaixaram todas na perfeição. Os miúdos que eles escolheram no draft estão a ter um desempenho notável logo no primeiro ano e depois fizeram algumas trocas decisivas no prazo limite”, explica o comentador, sublinhando que os Heat eliminaram, por exemplo, os Milwaukee Bucks, primeiros cabeças de série da Conferência Este, ao neutralizar o freak greek Giannis Antetokounmpo, jogador mais valioso da liga nas duas últimas temporadas.

Aliás, apenas com o 5.º melhor registo da temporada regular do Este, os Heat são a equipa com seed mais fraco a chegar a uma final da NBA desde que os New York Knicks jogaram a série decisiva em 1999 como 8.º seed, perdendo então para os San Antonio Spurs.

Qual é a maior força dos Lakers? E onde podem surpreender os Heat?

Os primeiros episódios da chegada de LeBron James aos Lakers, na tentativa de emular o sucesso de Kareem Abdul-Jabbar, Magic Johnson e Kobe Bryant, não foram um passeio no parque. No primeiro ano, um grupo de atores secundários de duvidosa qualidade e uns pouco habituais problemas físicos de James redundaram numa inesperada não presença nos playoffs. Esta temporada, o que parecia ter nascido torto lá se foi endireitando. E a troca por Anthony Davis, um dos melhores big men da liga, terá muita culpa neste processo - o talento das suas duas estrelas é mesmo a maior força dos Lakers para assaltar um 17.º título da NBA, que faria os californianos igualar o número de anéis dos Boston Celtics.

“LeBron James e Anthony Davis são top 5 neste momento da NBA”, frisa Ricardo Brito Reis. “E depois têm um elenco secundário interessante e que permite ao treinador Frank Vogel ter várias opções mediante aquilo que o adversário apresenta. É uma equipa com muita profundidade, que tem três jogadores que foram 1.ª escolha em draft, jogadores que vão ser hall of famers e jogadores com muita experiência a este nível”.

É aqui que entra a vantagem dos Lakers em relação aos Heat, que poderão responder com a força do seu coletivo.

Anthony Davis e LeBron James: duo mais talentoso seria difícil de arranjar

Anthony Davis e LeBron James: duo mais talentoso seria difícil de arranjar

Michael Reaves/Getty

Os Miami Heat, explica o também treinador, não têm “uma super-estrela de topo, um LeBron, um Kevin Durant, um Kawhi Leonard”. Jimmy Butler, o base/extremo de 31 anos, cinco vezes All-Star, é o nome maior. “São uma equipa que vive do coletivo e daquela cultura dos greyhound dogs, com jogadores experientes, raçudos”, lembra, sublinhando o papel de Erik Spoelstra (“Muito desvalorizado, para mim um dos melhores treinadores da liga”) e de Pat Riley, presidente dos Heat, que sabe o que é ganhar não só como executivo mas também como treinador - esteve no banco em quatro vitórias dos LA Lakers nos anos 80 e no primeiro título dos Heat, em 2006.

“Naquela equipa nunca se sabe de onde vem a ameaça. É consensual que o Butler é o líder e basta ver que nas finais de conferência ele não foi uma vez sequer o melhor marcador. O que diz bem do coletivismo da equipa. Qualquer jogador ali pode, num determinado momento, surgir a marcar 20 ou 30 pontos. Pode ser o Dragic, o Bam Adebayo, o Butler, pode ser o Tyler Herro. O perigo vem de muito lado”, diz Ricardo Brito Reis.

Contudo, falta aos Heat o capital de talento que mora em Los Angeles e também a experiência em finais, coisa que os Lakers têm de sobra - só LeBron vai para a 10.ª presença em finais. Mas onde poderão os Heat ferir os super-favoritos LA Lakers? “Eu diria que há um ponto que pode ser explorado especificamente pela equipa de Miami que é o lançamento de 3 pontos dos Lakers. Porque os Heat usam muitas alternâncias defensivas e têm usado em períodos grandes em jogos anteriores a defesa à zona, que pode deixar a nu alguns problemas que os Lakers têm no lançamento exterior”.

Irá LeBron James reforçar o seu legado?

É a maior estrela da NBA da última década e, aos 35 anos, LeBron James procura aproximar o seu palmarés ao de Michael Jordan. Para já, King James tem três títulos por sua conta, ainda longe dos seis de His Airness - a partir da próxima madrugada começa a demanda por um 4.º título, que poderá desde já colocar o jogador de Akron numa restrita lista.

Apenas dois basquetebolistas na história venceram títulos da NBA em três equipas diferentes: Robert Horry, nos Rockets, Lakers e Spurs, e John Salley, nos Bulls, Pistons e Lakers. Com a diferença que nenhum deles era uma estrela, ao contrário de LeBron, que liderou os Heat nos títulos de 2012 e 2013 e depois voltou a casa, ao seu estado natal do Ohio, para dar o primeiro título aos Cleveland Cavaliers, em 2016.

LeBron James mal celebrou o título da Conferência Oeste: o foco está todo no seu 4.º anel da NBA

LeBron James mal celebrou o título da Conferência Oeste: o foco está todo no seu 4.º anel da NBA

Kevin C. Cox/Getty

“LeBron é top 5 ou top 3 de todos os tempos, há quem diga que é top 2. Não há dúvidas que os Lakers têm neste momento o melhor jogador do Mundo ao seu serviço, apesar dos 35 anos”, diz Ricardo Brito Reis. A idade, diga-se, conta para pouco: “Quando se vê o LeBron James a jogar ninguém se lembra que ele tem 35 anos, a não ser pelo facto dos comentadores dizerem constantemente que ele tem 35 anos. Porque. de resto, em termos de disponibilidade física, ele está no topo do seu jogo e está a jogar talvez do melhor basquetebol que já o vimos jogar”.

Esperemos, pois, um LeBron decisivo nestas finais, pronto para fazer história.

Está aí o ressurgimento dos Heat?

Mesmo que os Lakers apareçam como favoritos para a final, a surpreendente caminhada dos Miami Heat nos playoffs deve ser valorizada. Um prémio para um equipa que, mesmo depois de perder o seu big three, LeBron, Dwyane Wade e Chris Bosh após os dois títulos de 2012 e 2013, acabou por não ceder à tentação de uma revolução profunda, mantendo a sua filosofia intacta. Seis anos depois de LeBron decidir voltar a Cleveland, aí estão eles, de novo numa final.

“O que os Heat fizeram foi notável e deve ser sublinhado: nunca tiveram a tentação de fazer tanking [perder jogos propositadamente para tentar uma melhor escolha no draft seguinte], de despedir o treinador. O Spoelstra é um homem de confiança do Pat Riley. Gosto desta política das equipas que, encontrando um treinador em quem confiam, percebem que, a cada ano, estes têm talento diferente disponível e por isso há anos em que há melhores resultados do que outros”, explica Ricardo Brito Reis, que lembra que a equipa está também ainda em processo de dar a volta a algumas “opções estratégicas menos boas, como acontece em todas as equipas”.

Erik Spoelstra resistiu aos momentos mais difíceis dos Heat após os títulos de 2012 e 2013 e voltou a levar a equipa de Miami à final

Erik Spoelstra resistiu aos momentos mais difíceis dos Heat após os títulos de 2012 e 2013 e voltou a levar a equipa de Miami à final

Michael Reaves/Getty

“Eles ainda estão numa fase de reconstrução e crescimento. Estão a trabalhar para ter espaço salarial no final da temporada 2021/2022 e assim atacar uma das estrelas. A ideia não era andarem nestas lutas tão cedo, mas o certo é que fizeram as coisas certas. Existe ali muita competência no front office, que tem conseguido despachar alguns contratos menos bons, que às vezes fazem com que uma equipa não se desenvolva tão rápido”, frisa ainda o comentador da Sport TV, que realça também o “grupo de scouts, do melhor da liga” e que tem trazido para a equipa vários jovens talentosos, como Duncan Robinson ou Tyler Herro, bem como a capacidade da equipa técnica em “fazer evoluir jogadores”, dando o exemplo de Bam Adebayo, exímio defensor e uma das figuras atuais da equipa.

Qual será o score da final?

Ricardo Brito Reis acredita que poderemos ter “uma série longa” nas finais. “A equipa de Miami tem batido todas as probabilidades, são underdogs e gostam de ser underdogs. E em jogos apertados têm conseguido fechar bem”. Ainda assim, o favoritismo é todo dos Lakers. “Nos últimos 17 anos já aprendi que não se deve apostar contra LeBron James”, diz. E, por isso, o comentador acredita numa “vitória dos Lakers em 6 jogos”.

E agora que estamos a acabar, a bolha da Flórida valeu a pena?

As finais de 2020 vão jogar-se em condições nunca antes vistas. A pandemia da covid-19 parou a competição em março e só se voltou a jogar a 30 de julho, com os jogadores já isolados na bolha da Flórida. Em junho, a NBA colocou jogadores e staff de 22 equipas fechados na Disney World de Orlando, obrigados a regras estritas, um investimento de mais de 140 milhões de dólares que acabou por permitir o retomar da temporada. Daí para cá, todos os jogos foram realizados sem público, mas pela televisão milhões de pessoas têm assistido não só a basquetebol mas também a uma plataforma que os jogadores e a própria liga têm utilizado para sensibilizar os norte-americanos para a necessidade de uma reforma da justiça social, na sequência dos casos de violência e racismo que se têm repetido no país.

Enquanto comentador da Sport TV, em direto horas a fio pela madrugada fora nos últimos meses, Ricardo Brito Reis não podia ter opinião mais positiva sobre este verdadeiro “empreendimento” da NBA, totalmente instalada nuns quantos metros quadrados num dos maiores parques de diversões do Mundo. “Acho que correu muito, muito bem. Em primeiro lugar porque, de facto, a NBA conseguiu criar uma bolha impenetrável ao novo coronavírus. Só aí está a grande vitória. Mas conseguiram também que a retoma fosse usada pelos jogadores como uma plataforma para que estes mostrassem as suas lutas sociais”, salienta.

A bolha da Flórida não só trouxe momentos fantásticos de basquetebol como se tornou numa plataforma para os jogadores pedirem mais justiça social

A bolha da Flórida não só trouxe momentos fantásticos de basquetebol como se tornou numa plataforma para os jogadores pedirem mais justiça social

Mike Ehrmann/Getty

Quanto à qualidade de jogo, e apesar da bolha ter sido dura para vários jogadores em termos emocionais, os adeptos não ficaram a perder. O também treinador lembra que houve “encontros incríveis, grandes momentos, momentos que vão ficar na história” ao longo dos últimos meses.

“Tivemos o lançamento do Anthony Davis em cima da buzina contra os Nuggets que vai ficar para a história dos Lakers. Tivemos aquela série dos Phoenix Suns nos oitos jogos da fase regular, o Luka Doncic a explodir. Tivemos muitos momentos. Jogos com intensidade, com muitas faltas, que foram fruto de uma maior concentração dos jogadores, por não haver tantas distrações”, diz. Ricardo Brito Reis diz que lamenta unicamente que o público não tenha tido a oportunidade de assistir aos encontros ao vivo.

“Acho que ninguém vai dizer que foi uma época com asterisco. O título de 2020 não será um título menor. O Brad Stevens, treinador dos Celtics, disse que só a retoma ia ser tão ou mais dura psicologicamente do que uma época normal e vimos que houve vários jogadores que tiveram dificuldade em lidar com o isolamento, mas parece-me que foi um sucesso rotundo esta decisão da NBA”, remata o comentador, mais um dos que pouco vão dormir até descobrirmos quem será o próximo campeão da maior liga de basquetebol do Mundo.

  • A NBA dentro de uma bolha começa a jogar-se esta quinta-feira. O guia para lá entrar está aqui

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    Mais de quatro meses depois da suspensão da temporada, a NBA está de regresso, mas é uma NBA diferente de tudo o que conhecemos: 22 equipas fechadas na Disney World, na Florida, onde a vida e os jogos se vão concentrar no complexo de onde ninguém pode sair, a não ser por razões de força maior. As bancadas estarão vazias e os jogadores e staff estão obrigados a seguir regras e recomendações restritas para evitar qualquer infeção com a covid-19