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Os portugueses em busca da NBA e da WNBA: escola americana, sonho europeu

Na semana em que regressa a principal liga de basquetebol norte-americana, a Tribuna Expresso foi à procura dos portugueses que deixaram para trás o país de origem para irem em busca de um sonho que na maioria das vezes culmina com o regresso ao continente de onde partiram. Mas há exceções. No basquetebol universitário norte-americano, Neemias Queta está perto de fazer história e tornar-se o primeiro português a chegar à NBA

Rita Meireles

Utah State

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É a última jogada da partida. Com menos de um segundo para o final, os San Diego State marcam mais dois pontos, insuficientes para vencer o jogo. Do outro lado da quadra, os Utah State sagram-se, assim, os campeões da Conferência Mountain West 2019, do campeonato de basquetebol universitário norte-americano. Um ano depois, a história repete-se. No mesmo pavilhão e contra a mesma equipa, os “aggies” conquistam o bicampeonato.

Mas se para uns estas são duas finais disputadas entre universidades dos EUA, para o público português estas são as finais que levaram por duas vezes os atletas portugueses Neemias Queta e Diogo Brito à fase final do campeonato da National Collegiate Athletic Association (NCAA), conhecida como “March Madness”, ainda que devido à pandemia só tenham jogado uma.

Quem conhece bem a sensação de jogar esta fase final é Mery Andrade, a segunda portuguesa a chegar à liga feminina da NBA (WNBA). A ex-jogadora e atual treinadora não esconde que se arrepia só de ouvir falar no assunto. “Em questão de emoção e adrenalina é o top para jogadores, treinadores e escola”, diz. Tanto do lado feminino quanto do masculino existem cerca de 350 equipas que serão divididas por conferências – cada uma terá entre oito a 12 equipas. Mery explica que entre os meses de novembro e março jogam-se duas fases: “Non conference game, que é uma primeira parte que podem jogar com qualquer equipa dos EUA e tentam tirar o maior número de vitórias, e depois começa a conferência”.

A “loucura” fica reservada para 64 equipas do lado feminino e 68 do lado masculino. Cada fase do torneio é uma eliminatória, o que faz com que cada jogo seja uma final. “A beleza dessa parte do campeonato é a equipa número um jogar contra a número 16 e perder”, diz Mery, realçando que também os espectadores, e a forma como vivem esta fase final, são muito importantes.

“A March Madness não se explica, antes de chegar à NBA é o que todos os jogadores de basquetebol aspiram fazer”, afirma Neemias. O jogador português, natural do Barreiro, chegou a Utah em 2018 e não tardou a atrair todas as atenções. Com 414 pontos, 57 assistências e 84 bloqueios na sua primeira época, Neemias foi eleito rookie do ano e melhor defesa da temporada. Hoje é considerado por muitos o nome mais provável para ocupar o lugar de primeiro jogador português a jogar na NBA.

Utah State

Ao mesmo tempo que assume ter ido para os EUA com o objetivo de chegar à liga principal de basquetebol no país, Neemias mostra-se consciente de que o contrário “não é o fim do mundo”. 2019 foi o ano em que começou a dar forma ao sonho, ao apresentar uma candidatura ao draft. Após um mês que descreve como “de experiência”, percebeu que aquele ainda não era o seu momento e recuou na decisão. “Era muito jovem, era fraco”, afirma. Hoje o sentimento é outro. Confiante, acredita que “mais cedo ou mais tarde irá acontecer”, mas sempre com a noção de que ainda não chegou lá. Sobre a sua presença no próximo draft, Neemias deixa no ar um “esperemos que sim”.

A confiança chega um pouco de todo o lado. Seja a imprensa que lhe troca o nome por “o português que pode fazer história nos EUA”, ou de quem o acompanha de perto. “O Neemias tem estado no radar da NBA desde o seu primeiro ano”, começa por explicar Eric Peterson, treinador adjunto dos Utah State. “Se ele se mantiver saudável este ano, o céu é o limite. O seu tamanho, habilidade, QI e presença na defesa são as principais razões que levam as equipas da NBA a acompanhar o seu desenvolvimento”, conclui.

Diogo Brito, jogador do Ourense da segunda liga espanhola e ex-colega de equipa, não hesita quando questionado se será Neemias o primeiro português a chegar à NBA: “Acho que sim, espero bem que sim e se não for fico bastante desiludido”.

Estudar para jogar

O segredo para conseguir voar para os EUA parece estar nos treinadores. É através do passa-palavra entre eles que, geralmente, os nomes dos atletas portugueses chegam ao outro lado do Atlântico. Desde 2017 que Marta Vargas estuda Engenharia Informática e joga basquetebol na Universidade de Rhode Island. Chegou lá por indicação de um treinador que passou pelo Benfica, clube onde jogou antes de se mudar para os EUA. As aulas e treinos em inglês foram uma das maiores dificuldades que encontrou – também este denominador comum a muitos jogadores. Em relação ao jogo fala em dois estilos diferentes: o americano e o europeu. “A principal diferença é que aqui [EUA] o jogo é mais rápido e menos tático”, diz, o que faz com que o primeiro seja mais exigente a nível físico e o segundo mentalmente.

O facto de existirem dois estilos de jogo diferentes acaba por ser uma vantagem para quem passa por ambos. Depois de cinco anos nos EUA, Diogo considera que regressou à Europa “uns passos à frente relativamente aos jogadores europeus” no que diz respeito à capacidade de jogar no um contra um. “Eu identifico-me mais com o estilo Europeu”, diz.

Uma outra diferença, em relação a Portugal é que no desporto universitário norte-americano os jogadores têm que conciliar as aulas com os treinos. Ter uma boa média é, aliás, um dos requisitos para poderem jogar. “São-nos permitidas 20 horas por semana de treino durante a época para tentar dar aos nossos jogadores um equilíbrio entre o basquetebol e a escola”, afirma o treinador Eric Peterson. Fora da época o número decresce para oito horas. Fazer determinadas disciplinas e manter uma média mínima de 2,3 são outras exigências da NCAA para que os jogadores sejam elegíveis para jogar na “division 1”.

Neemias escolheu Utah muito pela insistência dos treinadores, que o contactavam regularmente. “Demonstrou-me o quanto eles me queriam e foi fácil escolher”, diz o jogador português. O sonho da aventura pelo continente americano muitas vezes fica adiado por questões financeiras, mas no caso dos atletas internacionais, por norma, é-lhes oferecida uma bolsa. “Eles dão-te a bolsa, dão-te uma estadia, alimentação e uma quantia mensal para te desenrascares”, afirma Neemias. Além disso, a universidade fica também responsável por toda a ajuda necessária no processo de mudança dos jogadores internacionais, principalmente a nível burocrático.

Correr atrás do sonho

Dentro do mundo do desporto, o basquetebol não foge à regra e também aqui as jogadoras falam de desigualdades entre géneros. Ana Ramos, atual jogadora do União Sportiva, de Ponta Delgada, considera que as coisas têm vindo a melhorar, mas as diferenças salariais ainda são uma realidade, o que afasta a posição de igualdade. “Agora está melhor, já se ganha melhor, mas para fazer vida disto ainda é muito difícil, por isso é que na liga portuguesa ainda tens muitas mulheres que trabalham e jogam, enquanto que no masculino já quase todos são profissionais”, diz.

“Quando és jovem tens muita adrenalina e queres tudo”, diz Mery. Chegou à WNBA em 1999 pelas mãos da equipa Cleveland Rockers – um ano depois de Ticha Penicheiro ser escolhida pelas Sacramento Monarchs – e foi nesse momento que a sua vida se tornou a sequência “WNBA, seleção, Itália” que se repetiu por cinco anos. Na transição de uma equipa para outra tinha no máximo uma semana livre para visitar a família, mas até aí não podia descuidar os treinos. “Foi por isso que o meu joelho começou a ceder um bocado e tive que dizer chega”, diz. A decisão de abandonar a liga americana e não a italiana foi tomada de uma forma muito prática e trata-se de uma questão que ainda hoje é uma realidade para muitas jogadoras: “Só jogas cinco meses, portanto só recebes para cinco meses. Têm a glória de dizer que jogaram na W, mas o dinheiro verdadeiro fizeram na Europa”, explica.

Mery Andrade, uma das portuguesas que chegou à WNBA

Mery Andrade, uma das portuguesas que chegou à WNBA

Kellie Landis

Os caminhos de Ana e Mery Andrade cruzaram-se na Universidade de San Diego, onde Ana estudou e a treinadora fazia parte da equipa técnica do basquetebol feminino. Depois de quatro anos atribulados nos EUA, a jogadora regressou a Portugal, mas não esqueceu o seu grande sonho. “O meu sonho sempre foi jogar na W e continua a ser, mas há cinco anos eu sonhava muito alto se calhar, agora sei que é muito difícil”, conta Ana. Nos Açores encontrou aquilo que precisava no primeiro ano como profissional: “Mais minutos, mais tempo no campo, ganhar mais confiança, fazer bons números”. Na lista de metas, tem agora a seleção nacional sénior e a Euroliga para daqui a dois anos.

Jogar em casa

Sem ser para terminar a carreira, os jogadores portugueses não pensam num regresso a Portugal. Os resultados têm aparecido. Diogo Brito recorda o ano passado, quando a seleção masculina de sub-20 se sagrou campeã da divisão B ou Neemias Queta se aproximou da NBA. Recorda ainda a seleção feminina, que “tem vindo a alcançar grandes resultados a nível europeu”, afirma, realçando que está mesmo “uns passos à frente do masculino”.

Mas há muito para mudar. Mery Andrade confessa-se “abismada” quando olha para a Federação Portuguesa de Basquetebol e percebe que as pessoas que hoje lá estão são as mesmas que estavam quando jogava e defende que é preciso incluir ex-jogadores. “Porquê? Porque nós passámos por tudo e mais alguma coisa, sabemos o que os jogadores sentem e, às vezes, qual é a maneira mais rápida de obter resultados”, diz.

Também Marta Vargas defende que o talento das novas gerações é inquestionável, mas há muito para melhorar. “Eu não acho que seja normal na liga principal feminina de um país haver tanta falta de condições em certos clubes”, diz. Não considera justo o tratamento diferenciado entre géneros, ainda que o nível não seja elevado para ambos. “Não é que a liga masculina seja um grande nível em Portugal, mas acho que ainda há uma grande diferença”, conclui.

Diogo Brito e Marta Vargas partiram para os EUA com a mesma ideia em mente: o regresso à Europa. O primeiro assume que mudou de continente “com o objetivo de evoluir, mas sempre com um olho posto em voltar para a Europa e fazer carreira profissional”, enquanto que a segunda nunca pensou muito na WNBA, por considerar que “temos que ser realistas”, diz.

A crença comum seria de que os jogadores que apostam no basquetebol universitário norte-americano o fazem com o objetivo de chegar à NBA ou WNBA. A verdade é que Mery, que o conseguiu, ou Neemias, que estará perto de o conseguir, são a exceção e não a regra. A escola é americana, mas o sonho é na realidade europeu.