Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
NBA

Jogam por dois clubes de continentes diferentes, na mesma época. Mas as jogadoras da WNBA continuam a receber menos do que os homens

O desafio é enorme para as jogadoras de basquetebol da liga norte-americana. Jogam “em casa” durante uns meses, mas não os suficientes para ter sustento que dure o ano inteiro. E o desafio começa: mudam-se para outro continente, representam um novo clube, integram-se num novo grupo de pessoas. A única constante é o basquetebol, que as acompanha sem pausas o ano inteiro. Rebecca Allen e Nia Coffey falam da experiência à Tribuna Expresso

Rita Meireles

Meg Oliphant

Partilhar

Imagine que o seu jogador de futebol favorito representava dois clubes, em dois continentes diferentes, na mesma época. Sim, dois clubes, além da seleção do seu país de origem. Depois, imagine que muitas das vezes ele nem chegava a tempo de iniciar a época por um dos clubes porque ainda não tinha terminado a temporada com o outro.

Parece impossível, não é? E é mesmo. Mas só se estivermos a falar dos jogadores e não das jogadoras.

Para muitas das atletas da WNBA, a liga feminina de basquetebol norte-americana, esta é a realidade ao longo das suas carreiras. Uma sucessão de viagens dos EUA para a Europa, onde jogam competições como a EuroLeague ou a EuroCup, passando por qualquer que seja o país onde naquele ano há competições a nível de seleções - como é o caso dos Jogos Olímpicos, este ano, que levam muitas das jogadoras para o terceiro continente na mesma época.

E porque a liga não é constituída apenas por jogadoras norte-americanas, Mery Andrade, uma das duas portuguesas que conseguiu chegar à WNBA, viveu esta situação na primeira pessoa. Juntou-se à equipa Cleveland Rockers em 1999 e a vida da jogadora passou a ser uma sequência de viagens entre os EUA, Itália e Portugal.

Em declarações à Tribuna Expresso, no final do ano passado, Mery admitiu que apesar do entusiasmo e a vontade de fazer tudo que tinha na altura, esta rotina não foi fácil e acabou por levá-la a uma lesão no joelho. “Foi por isso que o meu joelho começou a ceder um bocado e tive que dizer chega”, afirmou. Na altura, a decisão que tomou foi deixar a WNBA e isso prende-se com o facto de as ligas europeias serem mais lucrativas para as jogadoras. “Só jogas cinco meses, portanto só recebes para cinco meses. Têm a glória de dizer que jogaram na W, mas o dinheiro verdadeiro, fizeram na Europa”, explicou.

Mery Andrade, uma das portuguesas que chegou à WNBA

Mery Andrade, uma das portuguesas que chegou à WNBA

Kellie Landis

A temporada atual é 25.ª da liga feminina norte-americana e a evolução tem sido animadora. O número de adeptos é cada vez maior e a prová-lo está o aumento nas audiências dos jogos transmitidos na televisão. Mas a WNBA parece confirmar a ideia de que há coisas que nunca mudam.

A australiana Rebecca Allen assinou com o clube New York Liberty em 2015 e é lá que tem jogado toda a sua carreira na WNBA. Ao mesmo tempo, passou pela Eslováquia, França, Polónia e Espanha, onde vai regressar assim que terminar a temporada americana para representar o Valencia Basket, pelo segundo ano consecutivo. Tudo isto com base em contratos decididos ao ano.

“Há muito tempo que não tenho férias”, confessa Rebecca Allen à Tribuna Expresso. No final de abril de 2021, Rebecca jogou o último jogo da temporada pelo Valencia. Poucos dias depois, no início de maio, começou a época em Nova Iorque. Neste momento, a WNBA está na pausa olímpica e a jogadora está em Tóquio, para representar a Austrália. Em seguida dá-se o regresso aos EUA para terminar a época, seguido do regresso a Espanha para começar uma nova.

Pelo meio corre ainda o risco de que uma competição não tenha acabado quando a outra já começou. Assim, é importante garantir que os clubes não levantam problemas com isso logo no momento em que o contrato está a ser discutido.

“Financeiramente é uma coisa importante, assim como para construir o meu jogo”, explica, quando questionada sobre o porquê de se sujeitar a esta situação época após época. “O dinheiro não é tanto quanto é para os homens, então penso que em última instância é necessário jogar as duas temporadas [americana e europeia] para beneficiar financeiramente de todo o trabalho que estás a realizar”, afirma.

Ainda que a liga em questão seja uma das mais importantes do basquetebol a nível mundial, Mery Andrade continua certa em relação aos salários destas jogadoras. “Pagam-me mais no estrangeiro neste momento”, afirma Nia Coffey à Tribuna Expresso. A atual jogadora dos Los Angeles Sparks garante que ainda que tudo dependa da região, equipa ou os valores dos bónus pré-estabelecidos, é mais comum obter um salário superior na Europa.

Nia Coffey representa esta época a equipa Los Angeles Sparks, enquanto está nos EUA

Nia Coffey representa esta época a equipa Los Angeles Sparks, enquanto está nos EUA

Meg Oliphant

Vida nova, o mesmo ano

Como se não bastasse a dificuldade da gestão financeira ou da falta de dias de descanso, há ainda uma série de mudanças com que estas jogadoras são obrigadas a lidar sempre que passam de um clube para outro. “São diferentes pessoas, culturas, organizações, jogadas. Tudo é diferente”, explica Nia.

Estas atletas são obrigadas a recusar um ambiente que se pode tornar familiar e de fácil crescimento, por um onde estão em constante adaptação. “Quando te mudas de um lugar para outro tens que te adaptar e pode demorar um pouco para ficar confortável e aprender as coisas. Há sempre uma curva de aprendizagem”, diz Nia Coffey.

O próprio jogo é diferente.

Nia lembra a frequência com que as jogadoras americanas são chamadas à atenção por “travelling” na Europa (dar mais passos do que os permitidos com a bola na mão, sem a bater no chão), sendo que são obrigadas a mudar o movimento de pés para que isso não aconteça. “É interessante como o estilo de basquetebol é um bocadinho diferente, alguns movimentos são permitidos nuns lugares e não são em outros”, explica.

Para Rebecca Allen a grande diferença está no evento desportivo em si. Os americanos não fazem a coisa por menos, como, aliás, já têm habituado o público em diversas modalidades e fazem do jogo um autêntico espetáculo. “Na WNBA é todo um evento, um espetáculo. Eu adoro como eles fazem tantas coisas extra. É mais do que um jogo de basquetebol, da perspetiva dos fãs, é um evento completo”, diz Rebecca.

Assim como na época passada, este ano Rebecca Allen vai representar o Valencia assim que terminar a temporada na WNBA

Assim como na época passada, este ano Rebecca Allen vai representar o Valencia assim que terminar a temporada na WNBA

Europa Press Sports

E na Europa? “Vem tudo de um lugar de paixão”.

A proximidade dos adeptos à modalidade e à equipa passa às jogadoras algo que Rebecca descreve como um “ride or die feeling”. É que mesmo com as inúmeras restrições impostas pela pandemia no ano passado, a jogadora australiana admite que os adeptos se fizeram ouvir e isso é algo muito positivo para qualquer equipa.

Fora da quadra também há uma fase de adaptação a ser enfrentada. A maior dificuldade prende-se com o idioma de cada país, visto que nem sempre se fala inglês nestas equipas. Também os diferentes fusos horários podem ser um problema, uma vez que acaba por limitar as conversas com família e amigos e pode levar algumas jogadoras a sentirem-se sozinhas.

“O que as pessoas não veem, elas não conhecem”

Além de ser um problema económico, este é também um problema de género. “Estou a pensar na cobertura mediática, que é dominada por ligas masculinas, então acho que pode ser um problema de género”, defende Nia.

Para Rebecca, não se trata de ganhar o mesmo que os homens, visto que “na NBA eles ganham quantidades de dinheiro exorbitantes”, mas sim conseguir “fazer parte da mudança para ver os salários aumentarem, a igualdade entre homens e mulheres, a lacuna entre os dois a fechar um bocadinho mais”, diz, ao mesmo tempo que confessa não esperar assistir a esta mudança enquanto jogadora.

Reverter esta situação parece não ser tarefa fácil, visto que ainda não aconteceu até hoje. Mas as jogadoras parecem saber a receita para que isso aconteça. Rebecca e Nia defendem que a cobertura por parte dos meios de comunicação é essencial para que a liga continue a crescer. Esta visibilidade acaba por gerar mais receitas, audiências e patrocinadores.

“O que as pessoas não veem, elas não conhecem. Se tivermos essa mesma chance de estar nos meios de comunicação social, não há dúvidas de que há um grupo demográfico que vai gostar do produto que nós podemos fornecer”, conclui Nia Coffey.

  • Os portugueses em busca da NBA e da WNBA: escola americana, sonho europeu
    NBA

    Na semana em que regressa a principal liga de basquetebol norte-americana, a Tribuna Expresso foi à procura dos portugueses que deixaram para trás o país de origem para irem em busca de um sonho que na maioria das vezes culmina com o regresso ao continente de onde partiram. Mas há exceções. No basquetebol universitário norte-americano, Neemias Queta está perto de fazer história e tornar-se o primeiro português a chegar à NBA