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Neemias na G League é um mau sinal? Mery Andrade explica: “Não é um step back, não tem nada de negativo, antes pelo contrário”

Neemias Queta é o primeiro português a chegar à NBA, mas não é o primeiro a chegar à G League. A treinadora portuguesa Mery Andrade já lá estava e garante à Tribuna Expresso que o two-way contract não é, necessariamente, um mau augúrio, é uma mais-valia para a sua carreira — “A época da NBA é uma época longuíssima, com 82 jogos, as pessoas vão-se aleijar”

Rita Meireles

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Desde a noite do draft, quando Neemias Queta foi selecionado pelos Sacramento Kings na 39.ª posição, muitos portugueses estão a contar os dias para ver o jogador na principal liga norte-americana de basquetebol. Talvez seja por isso que a notícia do two-way contract, que o leva a dividir o seu tempo entre os Kings e os Stockton Kings, da G League, oferecido a Neemias não tenha agradado a todos.

Mas não é o fim do mundo. Pode ser, aliás, o melhor cenário.

“A G League é a liga mais importante, em teoria”, explica Mery Andrade à Tribuna Expresso, garantindo que está a tentar não puxar a brasa à sua sardinha, “como se diz em Portugal”.

A carreira de Mery começou como jogadora, mas continuou como treinadora. Chegou à WNBA em 1999, quando foi selecionada na posição número 23 pelas Cleveland Rockers. Como integrante de uma equipa técnica, começou a nível universitário, na equipa feminina da Universidade de San Diego (San Diego Toreros), e depois passou para a G League. Começou nos agora extintos Erie BayHawks e atualmente é uma das treinadoras-adjuntas dos Birmingham Squadron, equipa afiliada dos New Orleans Pelicans.

“Acho que há equipas que utilizam mais a G League do que outras, mas a tendência é sempre mais e mais as equipas levarem muito a sério a própria equipa da G league. Porque é como se fosse a extensão da primeira equipa”, explica Mery.

Mery Andrade, uma das portuguesas que chegou à WNBA

Mery Andrade, uma das portuguesas que chegou à WNBA

Kellie Landis

Em tempos, a única opção para os jogadores que não tinham entrado diretamente para a NBA eram as equipas europeias. Algo pouco conveniente para as equipas norte-americanas. Ainda que a liga tenha scouts na Europa, “o estilo de jogo é muito diferente”, afirma a treinadora. “A época da NBA é uma época longuíssima, com 82 jogos, as pessoas vão-se aleijar, tem que se pensar no descanso das estrelas para poderem estar melhor na altura dos play-offs, então terem os jogadores a vir da Europa não era muito cómodo”.

Foi aí que entrou a G League, antes chamada de NBA Development League, uma vez que é o “que lhes permite [às equipas] serem competitivos durante todo o ano e fazerem um acompanhamento melhor dos jogadores jovens que saem do draft”, diz Mery.

Os atuais campeões são um bom exemplo do sucesso desta liga. Segundo a treinadora portuguesa, na equipa dos Milwaukee Bucks estão vários jogadores que passaram pela G League. Como é o caso de Khris Middleton, duas vezes all-star. Outros exemplos são Pascal Siakam, dos Toronto Raptors, ou Danny Green, dos Philadelphia 76ers.

“Acho que esse tipo de contrato [two-way] é só uma mais-valia para o Neemias. Muitos dos jogadores passaram pela G League e agora são estrelas nas equipas e all-stars. Não tendo tanto espaço na equipa principal, pelo menos na G League vai desenvolver minutos de jogo, trabalhar players development [desenvolvimento dos jogadores], fazer parte de uma equipa e acho que isso só lhe faz bem. Não é um step back, não tem nada de negativo, antes pelo contrário”, garantiu Mery.

Fase de transição

Entre o campeonato universitário, onde Neemias esteve por três épocas ao serviço dos Utah State Aggies, e a NBA, há algumas diferenças. Para se adaptarem a um jogo “mais físico” e “mais rápido”, os rookies passam por uma fase de transição.

Utah State

“Acho que essa transição tem o seu tempo, todos os jogadores são diferentes. Há quem se consegue adaptar em alguns meses e quem leva um ou dois anos. Normalmente quem se adapta em meses é quem tem mais sucesso e nós esperamos que o Neemias seja um desses”, explica Mery.

Neemias chega à liga com várias características positivas. “Quer no masculino ou feminino, quer a qualquer nível que se jogue, a posição mais cobiçada é sempre a do poste”, afirma a treinadora portuguesa. “São poucos. Com as características do Neemias, muito menos”. Essas características passam pelo facto de o português ser atlético, conseguir correr, defender, lançar.

“É incrível, ele consegue jogar de costas para o cesto, de frente para o cesto, mas sempre com a sua velocidade, é um jogador coordenado”, diz, realçando que ainda há coisas onde Neemias pode melhorar e, caso isso aconteça, terá muitas equipas interessadas nele.

Analisar a equipa onde Neemias vai jogar enquanto estiver na G League não é tarefa fácil, até porque de um ano para o outros os jogadores raramente são os mesmos. Ainda assim, Mery considera os Stockton Kings “uma equipa bem treinada e competitiva”. A esperança é de que seja o “lugar ideal” para o poste português.

A partir daqui, está nas mãos de Neemias: “O importante é ter a oportunidade, depois o que fazemos com ela é o que conta. Não é só ir para a liga, é conseguir manter-se na liga e acho que o Neemias, havendo esta oportunidade, de certeza que a vai agarrar com unhas e dentes e fazer o melhor para ter uma carreira na liga o mais longa possível”, conclui.