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Pippen continua zangado com Jordan por causa de “The Last Dance”: “Todos os episódios o mesmo: o Michael num pedestal, nós algo secundário”

O extremo, que acompanhou His Airness nos seis títulos conquistados nos Bulls, diz que o documentário conta a história de Jordan, à maneira de Jordan, diminuindo o papel dos restantes jogadores nos sucessos da equipa de Chicago. "Ano após ano recebíamos pouco ou nenhum crédito quando ganhávamos, mas todas as críticas quando perdíamos", escreve Pippen numa biografia que será lançada na próxima semana

Lídia Paralta Gomes

VINCENT LAFORET/Getty

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Não é um recorde - só Bill Russell tem 11 anéis - mas os seis títulos da NBA de Michael Jordan tornaram-se numa espécie de número quimérico para a nova geração de jogadores. Kobe Bryant persegui-o, sem conseguir lá chegar - ficou-se pelos cinco - e LeBron James, com quatro, ainda sonha igualar o jogador que fez da liga norte-americana de basquetebol um campeonato e um negócio global.

Mas, como em todos os desportos coletivos, não haveria Jordan sem uma equipa e houve um nome que esteve ao lado de His Airness em todos os seis títulos dos Chicago Bulls na década de 90: Scottie Pippen.

Um dos melhores extremos defensivos da história do jogo, Pippen teve a sua dose de desaguisados com os Bulls nos onze anos que equipou de vermelho e a convivência com Michael Jordan - ao lado de quem também conquistou o ouro com o Dream Team nos Jogos Olímpicos de Barcelona 92 - não foi pacífica. E a sua versão da história será contada numa biografia que chegará às livrarias norte-americanas a 8 de novembro.

A revista “GQ” teve acesso a algumas páginas de “Unguarded” e nesse excerto Pippen não deixa nada por dizer sobre o que pensou de “The Last Dance”, o documentário centrado em Michael Jordan e naqueles Bulls, particularmente na derradeira temporada de Jordan na equipa, em 1997/98. O ressentimento em relação a Jordan, esse, não passou com o tempo e ficou ainda mais forte com o lançamento da série da Netflix, um estrondoso sucesso de audiência durante as primeiras semanas de confinamento na pandemia, em abril de 2020.

No livro, Pippen acusa Jordan, que teve controlo criativo no documentário, de contar a sua história e não a verdadeira história dos Bulls e da última dança, menosprezando o trabalho e o papel dos homens que o rodeavam nos seis títulos conquistados.

“Todos os episódios a mesma coisa: o Michael num pedestal, os companheiros de equipa algo secundário, pequeno. A mensagem não é diferente de quando jogávamos, quando nos chamava de 'elenco secundário'. Ano após ano recebíamos pouco ou nenhum crédito quando ganhávamos, mas todas as críticas quando perdíamos”, escreve o antigo extremo, que depois dos Bulls passou ainda pelos Rockets e pelos Trail Blazers antes de um breve regresso a Chicago, onde disse adeus à NBA em 2004.

ADRIAN DENNIS

Ultra-competitivo, Jordan não se livrou da fama de bully e de rebaixar os antigos colegas e Pippen diz não ser o único ex-companheiro desgostoso pela forma como se viu retratado na série. Além disso, conta ter-se sentido apenas um pormenor naquela ode a um só homem: “No segundo episódio, que em parte se focava na minha infância difícil e caminho improvável até à NBA, a narrativa rapidamente voltou de novo para o MJ e a sua determinação para ganhar. Eu não era mais do que um adereço. O seu “melhor companheiro de equipa de sempre”, chamou-me ele. Não teria conseguido ser mais condescendente, nem que tentasse”.

O extremo conta ainda no livro como se sentiu de novo mal-tratado quando se sentou junto dos filhos para ver o documentário, depois de anos e anos a lidar com a personalidade forte de Jordan no balneário. “Agora aqui estou eu, nos meus cinquentas, dezassete anos depois do meu último jogo, a ver-nos a ser diminuídos outra vez. Vivê-lo a primeira vez já foi insultuoso que chegue”, diz.

Ainda assim, Pippen não tem qualquer vontade em menosprezar o enorme jogador que era Michael Jordan (“Ele era incrível”), embora acredite que o número 23 mais famoso da história do desporto nunca teria ganhado tanto se não tivesse encontrado ao longo do caminho jogadores como ele próprio, Steve Kerr, Dennis Rodman ou Horace Grant, entre outros. Muitos dos seus companheiros entraram e deram o seu testemunho para o documentário, mas o único a receber dinheiro por ele foi mesmo Jordan que, de acordo com Pippen, embolsou qualquer coisa como “10 milhões de dólares”.

“Deixámos câmaras entrarem no nosso balneário sagrado, nos treinos, hotéis… nas nossas vidas”, relata ainda o antigo basquetebolista, que diz não ter ficado surpreendido com a atitude do colega, não muito diferente da que tinha enquanto jogador.

Horace Grant foi outro dos antigos companheiros de Jordan que criticou publicamente o documentário (ou "uma espécie de documentário", como o apelidou), assegurando na altura da estreia que "90 por cento" do que se vê "é treta".