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“Hey Mutombo, this is for you baby”: 30 anos do cesto de Michael Jordan com os olhos fechados

No dia 23 de novembro de 1991, nos últimos segundos de um Bulls-Nuggets, Mutombo provocou Michael Jordan quando este ia executar o segundo lançamento livre. A vedeta de Chicago, sorridente e com uma insolência muito jordaniana, ofereceu-lhe um dos momentos mais icónicos da história da NBA

Hugo Tavares da Silva

Simon M Bruty

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Faltavam menos de quatro segundos para o final do jogo e Jordan já havia acertado o primeiro lançlamento livre. A seguir, esticou o pescoço, como quem queria ouvir melhor, e abriu os olhos na direção de Mutombo. A lenda e o rookie trocaram umas bola e o mago disse “hey, mutombo, esta é para ti”. Fechou os olhos, lançou e, como por magia, ouvu-se a rede a suspirar. Maais um ponto.

É isto que pode acontecer quando alguém tenta fazer o seu trabalho de olhos fechados. Em cima observamos algumas cacetadas na mui bela língua portuguesa — quem nos mandou escrever de olhos fechados? —, um exercício que só por milagre e acaso não esventrou a dignidade da pessoa que está deste lado (o truque esteve em não perder o contacto com o teclado nem por uma vez, vá).

Até nisso Michael Jordan era diferente. E, claro, não falhou o cesto naqueles segundos finais de um Bulls-Nuggets, em 1991. Ele sabia de cor a localização exata da tabela, a força que tinha de dar na bola, a rota da mesma, que esvoaçou, vaidosa, até transformar aquele momento num dos mais icónicos da NBA. Aconteceu a 23 de novembro de 1991, há exatamente 30 anos.

O olhar e o riso do 23, antes do derradeiro lançamento, é do mais belo e insolente que há, até porque se adivinha que houve uma provocação de Dikembe Mutombo, que chegara naquela época à NBA, com 25 anos.

O destinatário era somente um dos maiores trash talkers que o basquetebol, talvez o desporto, já viu. A alegria juvenil denuncia-o.

— Hey, Mutombo...,
— Yeah?
— This is for you, baby.

Jordan assinou 37 pontos na vitória contra os Denver Nuggets nessa noite (107-100). Os números estavam do seu lado naquela ação que arrebataria qualquer aficionado de magia: na época anterior havia acertado 85.1% dos lançamentos livres de que dispôs. Ou seja, acertou 571 em 671. Talvez nem esteja perto dos melhores, mas em momentos de tensão e de “desculpem, agora tenho de ser o Michael Jordan”, não havia mãos que tremessem menos.

Aquele cesto de olhos fechados foi um dos 2.404 pontos que somou na temporada de 1991/1992. Os Chicago Bulls venceriam o segundo anel consecutivo, o segundo dos seis campeonatos conquistados por Michael Jordan.

Mas a rivalidade entre ambos continuou, sobretudo porque Jordan supostamente tardou algum tempo a afundar em cima de Mutombo e esse facto chegou a dar falatório. Até que num Bulls-Hawks, em 1997, Jordan foi para cima do basquetebolista de 2,18 m e, lembrando a imagem de marca do rival, esticou-lhe o dedo, como quem diz “não te esqueças” ou “agora já não podes cantar da mesma maneira”.

O rookie de 1991, que se tornou num dos grandes defesas e bloqueadores que a NBA já testemunhou, lembrou o episódio na "ESPN", em 2018, e explicou porque é que a vedeta de Chicago se apropriou da dança do indicador, algo que até lhe valeu uma falta técnica.

"Foram precisos sete anos para o Michael fazer um afundanço”, começou por dizer, saciando a fome dos entusiasmados parceiros de painel.

“Eu estou no Hall of Fame por bloquear lançamentos, por isso deem-me algum crédito. Eu não vou ficar aqui quietinho só porque alguém teve a sorte de fazer um afundanço. Quantos é que bloqueei ao Michael?”, questionou o desafiante Mutombo, que terminou a carreira em 2009, quando vestia a camisola dos Houston Rockets.

Uma coisa é certa e não precisa de ser validada pelos deuses ou vigilantes da gloriosa eternidade: aquele lançamento livre com os olhos fechados não foi sorte.