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I have a feeling: ninguém sabe quem vai treinar o Benfica

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MIGUEL A. LOPES

😉

Quanto a vocês, não sei, mas quando tenho uma pessoa à frente e a vejo a piscar um dos olhos, mantendo a bocada fechada e calada, mas ordenando aos lábios que sorriam, ao de leve, sincronizados com o pisca que acendeu, penso em várias hipóteses: o gesto denuncia que o antes dito, se é que alguma coisa foi dita, era algo jocoso, uma brincadeira para não ser levada a sério; ou que a mesma lógica se aplica ao que dirá após a piscadela do olho, alertando para a espécie de partida que aí virá.

É um gesto tão óbvio, usual e trivial que a quinésia, ciência que estuda a linguagem corporal, talvez já nem se preocupe em fazer-lhe grande caso. O seu uso mais banalizado se tornou quando, além de substituir a fala, em pessoa, também passou a fazer as vezes das palavras escritas nos telemóveis espertos que hoje estão na palma de quase toda a gente. Por isso, quando uma apresentadora de um programa de televisão anunciou, nas redes sociais, que Luís Filipe Vieira iria estar presente "e, talvez, [houvesse] um treinador para anunciar", deixando, no fim, um emoji a picar o olho, podíamos responder assim:

🤔

Com desconfiança. Porque o presidente do Benfica é raro e ponderado nas entrevistas que concede com câmaras a filmá-lo, em direto, raridade que se acentua quando a ocasião é para entreter e não necessariamente, e em primeiro lugar, informar - como o é no "Programa da Cristina", que estreou esta segunda-feira, na "SIC". E a hipótese que a apresentadora soltou, a priori, ficou logo em vias de extinção tendo em conta o que fomos sabendo, desde a última quinta-feira: que "o processo de contratação do novo treinador " do Benfica só começaria "na segunda-feira", ou seja, nesta segunda-feira, garantiu Luís Bernardo, diretor de comunicação.

Só que a história do futebol ensinou-nos que o dito para fora nem sempre dá a mão ao que se diz dentro dos clubes, das equipas e dos gabinetes. Logo, poderíamos acreditar, ou não, em Bruno Lage, quando disse não saber quanto tempo vai durar na equipa principal do Benfica. O técnico que substituiu provisoria e interinamente o demitido Rui Vitória ganhou ao Rio Ave, revirou um resultado como já não se via desde 2010 e, por muito que haja pessoas a pregarem que o futebol é vitória e o espetáculo é no teatro, pelo menos viu-se uma equipa um pouco mais entretida.

E a entreter quem a viu.

Porque se o futebol não fosse espetacular para alguém que não os tipos que correm atrás de uma bola, não se teria decidido construir bancadas à volta de um hectare retangular de relva. E se a televisão não fosse para entreter, também não haveria programas como aquele que recebeu o presidente que segurou um treinador, assegurou mantê-lo até ao fim da época, adiou o inevitável e evitou que a perceção pública de quem tomou a decisão ficasse com ele. Luís Filipe Vieira riu-se a falar da infância e da família, chorou ao recordar o pai, mandou um abraço a Rui Vitória e disse que a sua vida "não anda para trás por causa de futebol".

Mas foi o futebol que o levou ali, a deixar para o fim o que terá deixado muito boa gente em suspense, à espera do hipotético anúncio que era de desconfiar pela mesma razão invocada por Bruno Lage para jogar com dois avançados e convocar quatro para o jogo de ontem - feeling. Só podia existir a sensação de que o anunciado não seria concretizado e dificilmente se veria Luís Filipe Vieira a dizer algo diferente a isto: "A decisão final vão tê-la para a semana. Neste momento, a única hipótese que existe é Bruno Lage".

O presidente do Benfica foi à televisão, desta vez, para entreter e não necessariamente para informar. Até o próprio disse, bem-disposto, que não vem mal ao mundo com isso, com a mesma naturalidade com que garantiu que o dinheiro não é o mal do Benfica, a propósito de José Mourinho: "Se disser amanhã que sim, vem logo. O dinheiro não é problema para o Benfica".

Continuamos a não ter ideia de quem será o próximo e definitivo treinador do clube após três anos e meio de Rui Vitória. E o feeling com que ficamos é que, por enquanto, talvez nem o presidente saiba ainda quem deverá ser. Ou isto: 🤷🏻‍♂️

O QUE SE PASSOU

O Vitória que há em Guimarães e de que muito se falou quando vitorioso foi contra o Sporting, fazendo ruir a fortaleza de euforia que crescia, sem controlo, em torno dos primeiros resultados com Marcel Keizer, perdeu pela segunda jornada seguida. O futebol de Luís Castro continua a dominar e bom de se ver, mas não tem ganhado e caiu para 7.º, em contraste com o de Silas, que entre os pingos da chuva do mediatismo já tem no 5.º lugar a parte do Belenenses que é de uma SAD.

Se escavássemos um buraco algures em Portugal e respeitássemos uma linha reta, do outro lado do planeta redondo teríamos visto João Sousa a eliminar Denis Shapovalov, na primeira ronda do torneio de Auckland, na Nova Zelândia. Que o ténis lhe continue a sair nos nossos antípodas, porque logo a seguir tem o Open da Austrália, o primeiro Grand Slam da temporada.

Futebol: coisa acéfala, boçal e linda

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Mais de 4500 adeptos estiveram este domingo à tarde na Reboleira a assistir a um dérbi do antigamente: Estrela (sucessor do Estrela da Amadora) e Belenenses (clube e não SAD) defrontaram-se no distrital lisboeta e o resultado foi... uma grande festa - e um empate (0-0)

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Numa crónica dura, lúcida e com autocitações (o autor haverá de pedir perdão por isso), o escritor Bruno Vieira Amaral explica como um homem pode ser tão pouco amado e enigmático: “Rui Vitória falava como alguém que parecia não saber nada do que estava a dizer. Se era estratégia, era de génio. Se não era estratégia, era de quadrúpede”. Vem aí uma grande leitura

“Na Arábia Saudita, um presidente trouxe um guarda-redes sem avisar. Fui lá acima, atirei o computador dele ao chão e gritei: Eu sou o quê?”

José Morais, 53 anos, ficou conhecido como o adjunto de José Mourinho, mas é como treinador principal que se quer afirmar cada vez mais. Depois de ser forçado a deixar pai e mãe em Angola, cresceu na zona de Vieira de Leiria, onde se tornou jogador, Serviu como voluntário na Força Aérea, para fugir de casa da familia de acolhimento, mas foi no curso de educação fisica que encontrou rumo para a vida. Esteve 10 anos na formação do Benfica, como treinador, até decidir aventurar-se pelo futebol profissional, no Estoril Praia. Casou, teve dois filhos, divorciou-se, apaixonou-se por uma sueca, voltou a ser pai, de uma menina, e andou pela Alemanha, Viseu, Açores, Suécia, Arabia Saudita, Turquia e Iémen, até receber o convite de Mourinho. Esta é apenas a primeira parte do percurso, em entrevista.

“O clube de sonho que gostava de treinar é o Benfica, mas espero voltar a trabalhar com José Mourinho”

Na segunda parte da entrevista, José Morais, que esta semana assumiu a liderança de um clube sul-coreano, revela alguns pormenores dos anos em que esteve como adjunto de José Mourinho, conta como foram as passagens como treinador principal por clubes da Arábia Saudita, Turquia, Grécia, Inglaterra e Alemanha e como o AVC, sofrido há dois anos, lhe mudou a vida, tornando-o numa pessoa mais calma e tolerante com os outros

Mais do que Bruno Lage, Um Azar do Kralj comoveu-se com João Félix, animal selvagem que o homem das palestras nunca conseguiu descortinar

O Benfica venceu o Rio Ave (4-2), na estreia de Bruno Lage, e Vasco Mendonça tem uma mensagem para o novo treinador: "Os historiadores referem que há dezasseis anos não se via uma reviravolta assim na Luz. Parece fácil, mas se fosse fácil não era para ele. Carrega Bruno"

ZONA MISTA

"Chegar, falar um pouco com os jogadores, ir treinador, perceber as reações e depois ter feelings sobre isso. Tive a oportunidade de rever o jogo com o Portimonense, vi que a equipa terminou bem o jogo a jogar em 4-4-2 e tive esse feeling. Por isso, havia necessidade de ter mais avançados no banco. Às vezes, há coisas estão deste lado e que vocês não percebem. Às vezes, olhamos muito para a posição do jogador e não vemos a dinâmica e os espaços que ele ocupa"

Bruno Lage, o treinador interino, provisório ou não, do Benfica, na conferência de imprensa seguida à reviravolta contra o Rio Ave, em que lhe perguntaram mais coisas para entreter do que para entendermos o futebol que se viu.

O QUE AÍ VEM

Segunda-feira, 7

Primeira Liga: Moreirense - Desp. Aves (17h), Tondela - Sporting (19h), FC Porto - Nacional (21h15). Pode seguir os jogos aqui, na Tribuna, incluindo o que acabará à hora a que muitas boas famílias estariam a pensar ir dormir, em casa, após um dia de trabalho. Hora a que a Liga de Clubes continua a decidir marcar jogos do campeonato e a não facilitar a vida a quem quer ver um espetáculo no estádio.

Terça-feira, 8

Taça da Liga Inglesa: Tottenham - Chelsea (20h, Sport TV1). Duas equipas adoradoras da bola, a sairem a jogar desde trás, fiéis ao futebol apoiado e com bons jogadores por todo o lado. É preciso justificar mais?

NBA: Dallas Mavericks - LA Lakers (1h30, Sport TV1), New Orleans Pelicans - Memphis Grizzlies (1h, Sport TV5). Quem vive do lado de cá do charco está condenado a trocar os sonos se quiser deitar os olhos no basquetebol americano. As chances de o querer fazer aumentarão no primeiro jogo aqui indicado, que é o que terá LeBron James ao barulho.

Quarta-feira, 9

Taça do Rei: Real Madrid - Leganés (20h30, Sport TV1). O clube cujo melhor marcador do ano civil de 2018 é um jogador que passou os últimos seis meses em Turim tenta reverter a sua lenta decadência, esta época, contra o atual 16.º classificado do campeonato. Pode ser uma boa oportunidade para o fazer - ou para piorar a vida, já que, no domingo, perdeu nas barbas do Bernabéu contra a Real Sociedad, 13ª melhor equipa da liga espanhola.

Quinta-feira, 10

Mundial de Andebol: Coreia - Alemanha (17h15, Sport TV5), Chile - Dinamarca (19h15, Sport TV5). Arranca a maior competição de andebol, que este ano se realiza, em conjunto, em pavilhões espalhados pelos dois países europeus que jogam neste dia.

Primeira Liga: Portimonense - Sp. Braga (20h15, Sport TV1).

Sexta-feira, 11

Primeira Liga: Desp. Aves - Feirense (19h, Sport TV2), Santa Clara - Benfica (19h, Sport TV1), V. Guimarães - Moreirense (21h15, Sport TV2).

Sábado, 12

Primeira Liga: Sporting - FC Porto (15h30, Sport TV1), Boavista - Marítimo (20h30, Sport TV3). O primeiro clássico de 2019 vai fazer colidir os leões que ainda se estão a adaptar ao jogo curto, interior e a construir de trás de Marcel Keizer, com a equipa intensa e vertical de Sérgio Conceição que, provavelmente, é a que melhor pressiona a saída de bola adversária em Portugal.

Domingo, 13

Primeira Liga: Nacional - Belenenses SAD (15h, Sport TV1), Desp. Chaves - Tondela (17h30, Sport TV1), Rio Ave - V. Setúbal (20h, Sport TV1).

Premier League: Tottenham - Manchester United (16h30, Sport TV2). Eis, finalmente, uma partida contra um adversário dos grandes para vermos o novo United treinado pelo assassino com cara de bebé, vulgo Ole Gunnar Solskjaer, ser testado como deve ser.

HOJE DEU-NOS PARA ISTO

O dia em que Luís Filipe Vieira apareceu sem ser convidado: "Eu estava em casa, descansado, quando ouvi aqui alguns comentários"

Luís Filipe Vieira foi convidado a falar sobre a turbulenta situação atual do Benfica a programa de entretenimento, mas, em 2004, o presidente do Benfica decidiu aparecer, sem aviso, nos estúdios da "SIC Notícias", durante o programa "Dia Seguinte", munido de folhas, para discutir sobre coisas que estava a ver serem discutidas em casa