Abel é grande, mas não foi assim tão grande
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18.02.2019
Gualter Fatia
Os argumentos de Abel Ferreira são irrepreensíveis do ponto de vista da matemática. Acontece também que são muitos e por isso peço-vos paciência para o que se segue.
O Sporting de Braga perdeu apenas três dos 32 jogos disputados esta época que incluem os quatro da Taça da Liga, os outros tantos da Taça de Portugal, os 22 da Liga e os dois da pré-qualificação falhada para a Liga Europa. As tais derrotas foram contra o FC Porto, o Benfica e o Sporting, aconteceram no Dragão, na Luz e no domingo em Alvalade, e por números que nada têm a ver uns com os outros: 0-1, 2-6 e 0-3, ou seja, 2-10, ou seja, metade dos golos sofridos no campeonato resultaram dos encontros com os três grandes, ou seja, esta é mesmo uma boa época do Braga tendo em conta as várias condicionantes – e naturalmente nenhuma delas é tão determinante quanto o dinheiro, como o próprio Abel nos relembra subliminarmente quando diz “vocês [jornalistas] são inteligentes, digam o que faz a diferença”.
Mais do que a base social de apoio. Mais do que o impacto mediático. Mais do que os lobbys. E, claro, mais do que a qualidade do treinador. Porque o dinheiro dá para comprar e pagar a futebolistas-tipo-Bruno Fernandes que sacodem jogos decisivos literalmente ao pontapé.
Assim, enquanto a diferença de orçamentos for de €70 milhões para €30 milhões, Abel lutará heroicamente como sempre e perderá, salvo algum milagre que, já sabemos, não será mais do que o reflexo do seu trabalho e da bravura e do caráter dos seus jogadores. Mas como não há modos de isto dar a volta – única hipótese: o delírio de um mecenas generosíssimo que empate os seus milhões sem meter o nariz nos assuntos de António Salvador –, não se pode pedir mais a Abel e Abel estará para sempre perdoado.
Só que não é bem assim.
Por exemplo, ontem. É inegável que Marcel Keizer foi bastante superior a Abel Ferreira, na medida em que o primeiro inovou e ganhou bem, e o segundo nunca se adaptou e perdeu. Os três defesas, os laterais subidos e o falso-extremo Diaby foram o tal elemento-surpresa que tantas batalhas históricas ganhou por, basicamente, surpreender o adversário; bom, e a isto o Sporting juntou-lhe intensidade e a coerência, duas coisas que o Braga jamais teve pela segunda vez consecutiva que visitou Lisboa esta época, e ambas as ocasiões coincidiram na 2.ª Circular.
A terceira coisa que o Braga também não conseguiu novamente foi o tradicional golpe de asa, depois de levar o primeiro (33') e o segundo golos (50'), sendo que teve praticamente meia-hora mais os quinze minutos do intervalo para o fazer. Aliás, o primeiro remate à baliza acabou por ser o único em 90 minutos e sucedeu aos 63', cinco minutos antes do 3-0 de Bas Dost – e foi um chutão de fé de Wilson Eduardo que morreu biblicamente nas mãos de Renan Ribeiro.
E, agora, o contexto: o Sporting perdera indigentemente na quinta-feira para a Liga Europa contra o Villarreal, trocara sete jogadores e apresentara-se fresco no seu 39.º jogo oficial do ano; o Braga descansara durante a semana e tivera tempo para preparar o seu 32.º que poderia oficializar a candidatura a candidato ao título. Só que, tal como na Luz, houve um falhanço espectacular, que nem o VAR ou o árbitro desculpa, perante um adversário fragilizado e a passar por uma crise existencial. Isto amplifica as frustrações. E as críticas. E as perguntas que fazem a Abel e que Abel não gosta, como a dúvida shakespeariana – é ou não candidato ao título? – à qual ele responde que isso são coisas dos media.
Não são. São do presidente do Sporting Clube de Braga, o homem que lhe paga o salário.
P.S.: O Braga perdeu 6-2 com o Benfica e pensou-se que Rui Vitória estava a salvo, a luz do Seixal era efetivamente milagrosa. Seguiu-se o empate sofrido com o Desportivo das Aves, a derrota com o Portimonense e o despedimento.
O que se passou
O FC Porto trazia dois empates consecutivos, contra o Vitória de Guimarães e o Moreirense, e vira o Benfica aproximar-se vertiginosamente na classificação – vencer o Vitória de Setúbal, no Dragão, era imprescindível. E aconteceu, por 2-0, num jogo que os portistas dominaram, como se lhes impunha, mas do qual resultou outro problema para Sérgio Conceição: Danilo lesionou-se e assim sobe para quatro o número de titulares fora de combate (Aboubakar, Marega e Brahimi são os outros). Ah, e já agora, Sérgio Conceição voltou a pôr Militão no lugar: a defesa-central.
No futsal feminino, a seleção nacional perdeu a final do Europeu frente a Espanha (0-4), num encontro disputado em Gondomar.
No aeroporto, o outrora desterrado Jorge Jesus fez furor ao responder aos jornalistas que o questionaram sobre o estado das coisas no futebol português, e isso incluiu o FC Porto, o Benfica, o Sporting, João Félix, Bruno de Carvalho e Frederico Varandas.
No planeta terra, há o livro da editora Planeta chamado “Football Leaks” sobre, bom, os football leaks. A Tribuna Expresso publicou um dos capítulos e uma recensão crítica.
Uma crónica com Dadinho, Zé Pequeno e o antipático Braga (por Bruno Vieira Amaral)
Este não é um livro sobre futebol, mas sobre o que corrói o futebol. Chegou “Football Leaks”
Quando Rui Pinto ainda não era John, mas apenas o “FL” e falava no plural: “Vivemos em Portugal. Somos cidadãos portugueses”
À revolução Keizer, Bruno Fernandes e Bas Dost responderam da forma habitual. Com os golos do triunfo
"É bonito de se ver como se olham nos olhos apaixonadamente." Bas Dost e Bruno Fernandes deixam Diogo Faro enternecido
“Maltia de Madrid”: Lá em Casa Mando Eu manda dizer que Militão só recebe prémios porque “nosotros no tenemos más defesias nieste país”
Os improváveis (com ajuda dos do costume) assumem papel de destaque na vitória do FC Porto
Zona Mista
“Como não preciso de escrever livros para sobreviver trabalho no que sei”
Jorge Jesus a dar troco a Bruno de Carvalho, que revelou vários pormenores da convivência entre ambos em Alvalade no seu livro chamado “Sem Filtro”.
O que aí vem
Segunda-feira
Hoje há Desportivo das Aves - Benfica (20h15, na SportTV, e com minuto a minuto, crónica e contra-crónica aqui na Tribuna Expresso) a fechar esta jornada do campeonato. Será um confronto geracional e estilístico, entre um treinador da velha guarda dado a sound bites populares , Augusto Inácio, e um da nouvelle vague portuguesa, Bruno Lage.
Em Inglaterra, há Chelsea - Manchester United, para os oitavos de final da mítica Taça de Inglaterra, na qual o Wolverhampton de Nuno Espírito Santo já garantiu a presença nos quartos de final.
Terça-feira
A segunda-parte dos oitavos de final da Liga dos Campeões: Lyon - Barcelona e o excelente Liverpool - Bayern de Munique, ambos às 20h, ambos na Eleven Sports.
Quarta-feira
A segunda-parte da segunda-parte dos oitavos de final da Liga dos Campeões: Atlético de Madrid - Juventus, o regresso de Ronaldo a Madrid por razões que não fiscais, e o Schalke - City, ambos às 20h, ambos na Eleven Sports.
Quinta-feira
O dia do tudo ou nada para Benfica e Sporting na Liga Europa. Os encarnados recebem o Galatasaray (20h, na Tribuna Expresso e na SIC) e trazem a vantagem de 2-1 alcançada em Istambul; os leões jogam em Espanha com o Villarreal (18h, SportTV e Tribuna Expresso) para tentarem reverter a derrota por 0-1 em Avalade.
Sexta-feira
Regressa o campeonato com o Tondela - FC Porto (21h15, SportTV e Tribuna Expresso).
Hoje deu-nos para isto
E não é que era mesmo verdade? Jorge Jesus saiu no verão e regressou em pleno inverno, cheio de planos para o futuro e com uma experiência que não correu assim tão bem na Arábia Saudita.