Vamos voltar ao princípio porque é lá o fim
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04.03.2019
Bruno Lage, de fato de treino, pois claro, com Rafa Silva, o homem que marcou o golo da vitória do Benfica no Dragão
Gualter Fatia
Completar três décadas de vida nos tempos que correm não é fácil, diz-vos quem conseguiu cumprir tão heróico feito há pouco tempo. Os 30 são os novos 40, na medida em que a nova consciência da finitude da nossa juventude nos põe a pensar de forma mais responsável, especialmente nesta sociedade em que o "eu" normalmente interessa mais do que o "nós". Foi assim que, recentemente, passei a usar uma escova de dentes de bambu, a tentar renegar o plástico do meu quotidiano (dificilmente haverá tarefa mais difícil neste mundo), a procurar alimentos sem porcarias processadas, a tentar escolher o pão mais parecido com o dos meus avós (já repararam na quantidade de ingredientes desnecessários que leva o pão de supermercado?), etc, etc, etc.
Eu sou só uma (alguém a quem o estimado leitor já deve estar a chamar de millenial ou hipster ou esquisitinha ou coisa que o valha), mas se o meu regresso ao essencial da vida puder ajudar o planeta - e a minha saúde, já agora - nem que seja 1%, bom, então já será minimamente útil, sei lá, para os animais ou para as gerações vindouras.
Chegados a este ponto, o leitor já deve estar a pensar que me esqueci do futebol, mas tudo isto tem a ver com o futebol, porque o futebol é vida. E se eu já andava a pensar em tudo isto desde 6 de janeiro de 2019, mais ainda pensei no sábado à noite. Isto porque, desde que se estreou como treinador do Benfica, Bruno Lage impressiona pelo encanto simplista com que desempenha as suas funções. Primeiro, vai sempre para os jogos, sejam eles quais forem, de fato de treino, o que me agrada particularmente, desculpem dizer-vos: mas que sentido faz um homem do desporto estar num campo de futebol de fato e gravata e sapato engraxado? Se isto é moderno, deixem-me ser antiga.
Depois, vai à conferências de imprensa de forma descontraída, falar daquilo que mais gosta: futebol (e, particularmente, treino). Mais: entra em campo quando chega aos estádios simplesmente para apreciar a envolvência e o ambiente criado pelos adeptos, como se fosse uma criança maravilhada com o que vê, e não há nada como apreciar o que nos rodeia, nestes tempos modernos em que olhamos mas não vemos.
E, por fim, sábado à noite, na flash interview pós vitória no Dragão, justificou o êxito da equipa assim: "É no treino e nos jogadores, foi isso que acabei de dizer-lhes. Agradecer-lhes pela atitude mostrada no treino, em querer formar esta equipa que hoje se viu. Agradecer-lhes, porque de alguma forma estão a fazer de mim treinador. Tenho dito que o mérito é deles e esta caminhada de dois meses só tem sido realizada pelo trabalho que eles colocam em campo."
Isto, em suma, é apenas uma coisa: voltar ao essencial do futebol. E o que é o essencial no futebol? Simples: os jogadores, a bola, o relvado (não, não são os "mestres da tática", ainda que, obviamente, os treinadores tenham uma importância muito alargada no sucesso de uma equipa). Como teoriza - e bem - Juanma Lillo, um dos mentores de Pep Guardiola, sobre o futebol moderno: “Hoje fala-se de tudo menos do próprio jogo. Onde está a paixão de um adepto que nem pode dizer o 11 da equipa numa época, porque os jogadores estão sempre a mudar? Antes, o Maradona marcava um golo sozinho, era um herói. Hoje, se o Messi marca um golo há cinco gajos que levantam logo a mão: o dietista diz que foi da refeição que preparou, o podologista diz que lhe cortou as unhas, o preparador físico diz que foi dos sprints que treinaram...”
Parece simples. E, às vezes, até é. Como foi o clássico de sábado à noite, em que o medo de perder (dos treinadores?), que habitualmente se sobrepõe a tudo o resto nestes jogos, deu lugar à vontade e à confiança (dos jogadores?) em ganhar. É voltar ao essencial, com a Liga portuguesa ao rubro: o Benfica é líder, com 59 pontos, e o FC Porto agora segue atrás, com 57 pontos. Faltam 10 jogos. Resta-nos apreciar o espetáculo.
O que se passou
Sai mais uma medalha para a estante de Nélson Évora s.f.f; Balotelli, a ser Balotelli, festejou com o telemóvel, fazendo um live no Instagram; o Everton de Marco Silva empatou O Liverpool de Klopp e o City de Guardiola já está novamente na liderança; o Sporting de Braga fez jus às exigências de António Salvador e conquistou o campeonato... ou melhor, o Mundialito de futebol de praia; e ainda houve Sporting, Real Madrid-Barcelona, Riade e, claro, clássico - os links para os artigos que não pode perder estão todos aqui em baixo.
A leveza de Rafa Silva (por Bruno Vieira Amaral)
Diogo Faro diagnosticou Bas Dost com alergia aguda contemporânea a bolas de futebol e tem um pedido: medique-se rapidamente o homem, sff
20 lances explicados que explicam o FC Porto - Benfica (e um elogio inesperado)
Conceição não cumprimentou Félix? Tudo certo. É que um é pago para ter mau perder, o outro para ganhar bem (por Um Azar do Kralj)
Estivemos sete pontos à frente, estamos dois atrás e acabámos a tirar Óliver e a meter o Danilo para tentar ganhar (por Lá Em Casa Mando Eu)
A falta que faz um tipo que marque golos. Conhecem algum, merengues?
“Uma coisa do outro mundo”: era uma vez Bernd Schuster, por Paulo Futre
“Naquele instante, acho que qualquer coisa saiu do meu corpo, foi como se a minha alma saísse e estivesse a observar”
Tudo começou em parte mais ou menos incerta: Riade, 30 anos depois, por Rui Santos
Zona mista
“Isto pode acontecer a qualquer um e temos de ajudá-lo, porque precisamos dele. Porque é que o substituí? Porque o Bas Dost não estava no jogo.”
- Marcel Keizer, treinador do Sporting, a justificar a substituição de Bas Dost, aos 59', depois do holandês falhar mais um golo cantado - está a atravessar uma crise de confiança nunca vista no avançado
O que aí vem
Segunda-feira, 4
Hoje há um jogo que me é especialmente querido, como ex-jogadora e treinadora, e para o qual convido o estimado leitor a sintonizar a TVI24, às 16h45: Portugal-Suíça em futebol feminino, para a Algarve Cup 2019, um dos torneios internacionais mais relevantes na modalidade. Na sexta-feira, a seleção liderada por Francisco Neto venceu de forma brilhante a Suécia (2-1), que é uma das potências mundiais (9º do ranking FIFA, Portugal é 32º), o que só demonstra o quanto o futebol feminino em Portugal tem evoluído. Logo há noite, há mais futebol, mas no masculino: Vitória de Guimarães e Marítimo encerram a 24ª jornada, às 20h15 (SportTV1).
Terça-feira, 5
A Liga dos Campeões está de volta e é tempo de decisões nos oitavos de final: há Borussia Dortmund-Tottenham (0-3 na 1ª mão) e Real Madrid-Ajax (2-1 na 1ª mão), ambos às 20h e ambos na Eleven Sports. Na Liga Revelação, que já vai na fase de apuramento do campeão (e que se tem revelado uma aposta de sucesso por parte da FPF), o Benfica recebe o Rio Ave (16h, BTV). Na Libertadores, os bolivianos do San José recebem os brasileiros do Flamengo (22h15, SportTV3) e os bolivianos do Jorge Wilstermann recebem o Boca Junios (0h30, SportTV3).
Quarta-feira, 6
Há mais Champions, agora com um toque luso: o FC Porto joga a permanência na prova, frente à Roma, no Dragão, depois de ter perdido 1-2 em Itália; o PSG recebe o Manchester United (2-0 na 1ª mão).
Quinta-feira, 7
Começam a ser disputados os oitavos de final da Liga Europa, com o Benfica a ir à Croácia defrontar o D. Zagreb (17h55, transmissão SIC e Tribuna Expresso).
Sexta-feira, 8
A Juventus, que já é praticamente campeã (olha que novidade) depois de ter derrotado o Nápoles, recebe a Udinese, para a 27ª jornada da Serie A (19h30, SportTV3). Começa a 25ª jornada da Liga portuguesa, com o Chaves-Rio Ave (20h30, SportTV1).
Hoje deu-nos para isto
Voltando ao princípio, que também é o fim: quando o medo de perder se sobrepõe à vontade de ganhar, acontecem fenómenos... como os 5-0 aplicados pelo FC Porto de André Villas-Boas ao Benfica de Jorge Jesus, em 2010/11. Para um lado ou para o outro, venham daí mais clássicos que nós estamos cá para apreciar.