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Há que ter Paciência, Gonçalo

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O português tem seis golos marcados esta época em 968 minutos em campo.

O português tem seis golos marcados esta época em 968 minutos em campo.

Alex Grimm/Getty

Thomas Shelby apruma-se impecavelmente, há um fraque a adornar-lhe o corpo, um relógio de bolso com o fio pendurado, uma gravata, sapatos impecáveis apesar da enlameada Birmingham e da imundice dos atos que comete, porque assassina, corrompe, extorque e violenta pessoas a preceito com o fim de beneficiar a família e o negócio que têm. Se é fã de 'Peaky Blinders', como eu, série que inventou a poção mágica que nos faz quase torcer e admirar as errâncias mafiosas de um gentleman a olho nu, mas que nos causaria males inimagináveis se, por acaso, estivéssemos entre ele e algo que ele quer, então sabe o que o líder do clã e os irmãos dizem quando sentem a morte a querer quase a levá-los - "In the bleak midwinter".

Será no meio de um inverno sombrio da Alemanha, porventura gélido e com muita neve, onde daqui uns meses vão estar dois portugueses com "características de 9" e que terão morrido um bocadinho por dentro quando, há coisa de uma semana, ouviram Fernando Santos dizer que Portugal, simplesmente, não os tem.

André Silva tem pés, sabe jogar de costas para a baliza, servir de referência para tocar e ter alguém móvel a orbitar à sua volta. O mesmo se aplica a Gonçalo Paciência, talvez com mais técnica nos pés, mais mobilidade no corpo e, por certo, mais golos e mais qualidade mostrada durante mais tempo, esta época. Gonçalo tem seis em 968 minutos, André vai com três em 601, ambos jogam no Eintracht Frankfurt, Gonçalo tem uma internacionalização, André é dono de 33 e foi ele a ser convocado para os jogos de Portugal contra o Luxemburgo (sexta-feira) e a Ucrânia (terça-feira).

Nem sempre a seleção nacional e todas as outras seleções funcionam por mérito direto. Entre as viagens de avião, a recuperação do cansaço trazido dos clubes e o calendário dos jogos, há muito pouco tempo para treinar e, portanto, ajuda que entre 23 jogadores haja uns 15 ou 16 que lá estejam quase sempre, conhecedores uns dos outros, uma base treinada pelo hábito onde seja mais fácil encaixar quem ali chega sem muito convívio prévio.

É a desculpa - justificada e lógica - que Fernando Santos muito usa. Depois, há a lógica de um seleccionador que se adaptou às circunstâncias: foi para um Europeu com dois extremos de origem a servirem de avançados e ganhou-o com um golo do único avançado que sempre tinha no banco; qualificou-se para o Mundial com André Silva a ganhar reputação de ser a melhor companhia para um extraterrestre, que veio à Terra por causa de golos, e foi eliminado da prova com o avançado no banco em três dos quatro jogos; e, há meses, conquistou uma Liga das Nações sem pontas de lança em campo.

São quatro anos, dois troféus e 126 golos marcados, verdade, com poucos homens com características de 9 em campo. Mas falso é dizer que Portugal não os tem quando há dois a jogar no mesmo país, no mesmo clube e um deles, em especial, muito tem galgado de baixo para cima e feito por merecer uma chamada à seleção pelo trabalho feito.

Gonçalo terá que continuar a ter paciência, André já não, mas ambos terão de a ter em grande dose quando o inverno chegar à Alemanha, a Bundesliga parar durante quase um mês e o futebol morrer, durante uns tempos, no meio de um inverno gélido e sombrio (e não durante 29 dias, como o campeonato português estará agora parado, mas isso são outras conversas).

O que se passou

O City de Pep Guardiola tornou-se no mais recente lesado de NES, treinador do Wolves que foi a Manchester ganhar (2-0) e deixar a milionária equipa a 8 pontos do Liverpool, os mesmos que, a época passada, recuperou para ser campeão inglês. Cristiano Ronaldo não marcou, apenas rematou à barra, mas a Juventus bateu (2-1) o Inter em Milão para respirar um pouco numa Série A em que a AS Roma de Paulo Fonseca empatou (1-1) com o Cagliari.

Novak Djokovic respondeu a um mês fora dos courts, lesionado, ganhando o ATP 500 de Tóquio. Patrícia Mamona ficou a 33 centímetros do suposto mínimo para uma medalha nos Mundiais de atletismo, a Miguel Oliveira faltou um ombro em condições para fazer melhor do que um 16.º lugar no Grande Prémio da Tailândia, em MotoGP, e a Filipa Martins nada falta para os Jogos Olímpicos de Tóquio - já garantiu a qualificação.

O caso de Ruben Semedo pode ser exemplar sem as roupagens pesadas e bafientas do moralismo

O escritor Bruno Vieira Amaral escreve sobre o regresso de Semedo à seleção nacional

“Num estágio do Benfica, na Suíça, atirei a porta de um quarto abaixo. Os jogadores que estavam lá dentro começaram a fugir pela varanda”

Aos 47 anos e sem que estivesse nos seus planos, Fernando Aguiar tornou-se treinador adjunto do Vilar de Perdizes. O futebol, aliás, passou de hobby para profissão, à força, mais por vontade do pai do que sua. Nascido em Chaves, onde agora vive, continua saudoso de Toronto e do Canadá, país onde começou a praticar futebol e onde jogou hóquei no gelo. Pai de três filhas, conta que veio parar ao Marítimo pela mão de Joe Berardo, ganhou a alcunha de Robocop no Beira-Mar, marcou o golo do Benfica no dia da morte de Fehér e experimentou, sem sucesso, a liga sueca. Também jogou no Nacional, Maia, Gondomar, U. Leiria e Penafiel, antes de pendurar as botas definitivamente no Pedrouços, aos 42 anos. Entre várias histórias que metem roupa e vidros partidos,e cigarros e e balanças, confessa que teria sido melhor hoquista do que futebolista

Domingos Gomes: “Socorri o Silvino, na Luz, os adeptos aplaudiram. O Ivic disse-me: ‘Isto é uma guerra.’ Respondi: ‘Engana-se, sou médico’”

Aos 79 anos, duas décadas após ter deixado o seu clube de sempre para assumir o lugar de deputado do PSD, ainda lhe pedem autógrafos nas ruas do Porto. Não disfarça o orgulho que sente nestes gestos, que atribui à memória de quem viveu um antes e um depois da chegada da dupla Pinto da Costa e José Maria Pedroto às Antas, cruzada que compara à da conquista do Sul por D. Afonso Henriques. A comemorar 50 anos de medicina desportiva, Domingos Gomes recorda como foi parar ao FCP, jovem de barba e cabelo longo, visual que lhe valeu a alcunha de “Bee Gees”. Em Alvalade, em 1995, socorreu os adeptos leoninos feridos na queda do varandim. Recebeu em troca um troféu de louvor, que guarda até hoje

“Vivi duas guerras, vendi legumes e fruta na rua, perdi o meu pai quando jogava o Euro-2016. Mas olho-me ao espelho e digo: sou boa pessoa”

Depois da guerra entre Croácia e Sérvia, vive a segunda guerra na Ucrânia. Em miúdo, vendeu vegetais e fruta num bazar e, certo dia, gastou todo o dinheiro numas botas. Darijo Srna, recordista com a seleção croata e ex-capitão do Shakhtar Donetsk, fala com a Tribuna Expresso sobre Luís Castro e os adjuntos portugueses, o clube onde jogou 15 anos, a família e a infância. No fundo, sobre a vida e de como a leva: "Não é fácil quando entras numa equipa técnica e eles não te conhecem. É tão, tão, tão difícil mas vou dizer-te a verdade: desde o primeiro dia com o <em>mister </em>Castro, Filipe [Celikkaya], João [Brandão], Vítor [Severino] e [José] Roque, temos uma relação fantástica. Senti imediatamente que são meus amigos. Eles não são só bons treinadores, são também boas pessoas"

A saúde que vai dentro da cabeça de quem joga

Carlos Fernandes é guarda-redes, tem 39 anos, e a razão pela qual ainda joga tem a ver com a saúde mental, tema do mais recente estudo do Sindicato dos Jogadores, que a Tribuna Expresso antecipa - só será apresentado na totalidade a 10 de outubro

Zona Mista

"Foi uma falta de respeito o método que usaram, não só comigo mas também com outros jogadores. Então, sobretudo, para alguém que tinha vários anos de casa, vários títulos, e afastam assim um jogador sabe-se lá porquê. Dizem-te 'vais treinar ali, separado'. (...) Avisaram-me através de uma mensagem para o telemóvel e por e-mail. Ninguém falou diretamente comigo. Não, só enviaram mensagem para ir ver o email e pronto."

Jefferson, ex-lateral esquerdo do Sporting, a criticar a forma como rescindiu contrato com o clube, no verão, em entrevista ao jornal "Record". O brasileiro encontra-se, de momento, desempregado.

O que aí vem

Segunda-feira, 7

A semana arranca calma e com parcos afazeres. Se é um fiel seguidor do futebol profissional em Portugal, o único jogo até ao fim de semana é o Penafiel-Braga (20h15, Sport TV1), a contar para a Taça da Liga.

Terça-feira, 8

Logo pelas 11h, a seleção nacional feminina de sub-19 joga contra a Alemanha (Canal 11), em Braga, no encontro mais difícil da ronda de qualificação para Euro 2020. No Mundial de râguebi, a única atividade do dia será o África do Sul-Canadá (11h15, Sport TV), do Grupo B. Em caso de vitória, os primeiros garantem os quartos-de-final, porque se há verdades que se podem dar como quase absolutas é a de a Nova Zelândia ganhará à Itália que, por enquanto, tem os mesmos pontos que os sul-africanos.

Quarta-feira, 9

As atenções ovais focam-se no Argentina-EUA (5h45), do Grupo C, no Escócia-Rússia (8h15), do Grupo A, e no Gales-Fiji (10h45, Sport TV), que é o jogo grande do dia: os fijianos, espetaculares, mas erráticos por serem muito dados às invenções, jogam contra os sólidos e constantes galeses, que só dependem de si para terminarem no primeiro lugar do Grupo D. Para fechar o dia, há o Alemanha-Argentina (19h45, Sport TV1), que é amigável no papel, mas não deverá sê-lo no campo, pois trata-se da reedição da final do Mundial de 2014 - só que sem Messi, que está suspenso.

Quinta-feira, 10

Começa a jogar-se a penúltima ronda de qualificação deste ano civil para o Campeonato da Europa de futebol, que se realizará em 2020, espalhado por 12 países. Os encontros, à partida, mais entusiasmantes, são o Holanda-Irlanda do Norte (19h45, Sport TV1), do Grupo C, e o Croácia-Hungria (19h45, Sport TV4), do Grupo E.

Sexta-feira, 11

A seleção nacional de sub-21 joga, na Holanda (17h, Canal 11), mais um encontro de qualificação para o Europeu de 2021. Depois, os graúdos entram no Estádio José de Alvalade para defrontar o, por hábito, frágil Luxemburgo (19h45, RTP 1), onde se espera, também por ser costumeiro, que Portugal ganhe e não seja por um ou dois golos. Veremos se a prática vai com a teoria futurista. À mesma hora há outros seis jogos, como o Islândia-França (Sport TV3) ou o República Checa-Inglaterra (Sport TV2).

Sábado, 12

O raiar do fim de semana tem o Estoril-Benfica (11h, Canal 11) do campeonato nacional feminino. Pela tarde, haverá três jogos de qualificação para o Euro 2020 (Ilhas Faroé-Roménia, Bósnia e Herzegovina-Finlândia e Dinamarca-Suíça), às 17h, e outros quatro (Noruega-Espanha, Malta-Suécia, Liechtenstein-Arménia e Itália-Grécia), às 19h45, todos com transmissão na Sport TV. A diferença horário para o Japão não ajuda, mas no Mundial oval há um Nova Zelândia-Itália (5h45) para ver, seguido do Inglaterra-França (9h15) e do Irlanda-Samoa (11h45).

Domingo, 13

As campeãs nacionais de futebol feminino, Sporting de Braga, jogam em casa do Cadima (11h, Canal 11). A ginga futeboleira do Brasil defronta a Nigéria (13h, Sport TV1), num encontro particular. A Bélgica onde os craques abundam por metro quadrado de relva joga no Cazaquistão (14h, Sport TV2) para o apuramento rumo ao Euro 2020 e, ao fim da tarde, há mais: o Hungria-Azerbaijão, o Escócia-San Marino, o Chipre-Rússia e o Bielorrússia-Holanda, às 17h; o Polónia-Macedónia, o Eslovénia-Áustria, o Estónia-Alemanha e o País de Gales-Croácia, às 19h45.

No râguebi, estão quatro jogos agendados: Namíbia-Canadá (4h15), EUA-Tonga (6h45), Gales-Uruguai (9h15) e o Japão-Escócia (11h15). Fora a hora mais aceitável, este último poderá gerar mais interesse porque, quatro anos após ter sido a primeira seleção com três vitórias a ficar pela fase de grupos, o Japão joga para viver até aos quartos-de-final contra a precisa nação que, em 2015, a impediu de lá chegar.

Hoje deu-nos para isto

Michael Steele/Getty

Durante quase 10 anos, a seleção teve um homem de área vindo dos Açores, alguém de poucos toques na bola até chegar ao que atirava a bola para dentro de uma baliza. Era dono de poucos artifícios e muito sentido prático, o ponta da lança da geração a que chamaram de ouro e de uma equipa com Luís Figo, Rui Costa, Deco e, a seu tempo, Cristiano Ronaldo atrás dele, a alimentarem-no.

Pedro Miguel Carreiro Resendes marcou 47 golos por Portugal e era um avançado, um 9 puro, de área, de receber a bola, arranjar espaço para ele próprio e rematar. Bateu o recorde de Eusébio da Silva Ferreira e manteve-o até um rapaz da Madeira fazer dele o que bem entender. E, como bom açoriano que é, Pauleta abraçou-se ao que a sua terra tem de bom e, às tantas, como admitiu à minha colega Alexandra Simões de Abreu, já era conhecido como "o homem do queijo".

Por causa de anúncios como este, que podem ver em baixo.

Que tenha uma boa semana, com ou sem queijo das mais variadas formas, e acompanhe a atualidade desportiva na Tribuna Expresso. E, se ainda não o tiver feito, siga-nos nas redes sociais, por favor: Twitter, Facebook e Instagram.

Pauleta, o homem do queijo

Na década passada, antes de um certo humano que é extraterrestre e calhou ser português começar a ter um caso sério com as balizas, o principal abono de golos da seleção nacional era Pauleta. Fora o recorde de Eusébio que bateu, o avançado, que era um '9' a sério, também ficou conhecido pelos anúncios que protagonizou para uma marca açoriana de queijos