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Ser mais VARista que o VAR (e o best of Tribuna de 2019)

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Julian Finney/Getty

O meu café da esquina é curioso. Antes de mais por ser *literalmente* de esquina, o que faz com que tenha uma arquitetura estranha, meio enviesada lá dentro, algo que a esplanada acaba por compensar, com a vista para o largo. Depois, parece estar sempre aberto, como que a abraçar tanto os finais de dia solitários como os domingos preguiçosos de quem teve compridos sábados. E, mais importante, o café continua a custar 60 cêntimos.

Depois também há a televisão invariavelmente a dar futebol, apesar do café ter lugar para pouco mais de uma dezena de pessoas lá dentro, o que me parece constituir o mais pequeno estádio do planeta. Mas, cheira-me, o mais pequeno estádio do planeta já teve grandes discussões planetárias, porque não se tem um papel a dizer “É proibido assistir aos jogos na TV ouvindo em simultâneo o rádio” se não houvesse para tal razão.

Mas adiante. No último sábado, entrei eu no meu café da esquina, onde sou nova cliente porque também nova no bairro sou, mesmo a tempo de pedir uma bica, sentar-me numa das poucas mesas e ver Teemu Pukki receber um cruzamento na esquerda, receber com classe e finalizar também em grande estilo na baliza do Tottenham. O finlandês com nome de desenho animado japonês festejou à grande, porque o golo foi muito bom, o Norwich é último e estar a ganhar 2-0 à equipa de Mourinho é interessante.

Acontece que há VAR, por estes dias a sigla mais discutida em Inglaterra, e o VAR viu que o cotovelo de Pukki estava uns centímetros à frente do último defesa do Tottenham e lá se foi o 2-0, lá se foi aquela jogada fantástica, aquela receção de classe e aquela finalização de luxo. Por causa de uns milímetros de cotovelo.

Fast forward para domingo. Entro eu no meu café da esquina, onde sou a cada dia cada vez menos nova cliente, peço a bica e sento-me na mesa e já só apanho o início da 2.ª parte do Liverpool - Wolverhampton - porque o domingo é preguiçoso e o sábado foi comprido. Faço um scroll rápido na rede social do passarito e percebo que por pouco falhei o déjà vu, porque ainda na 1.ª parte houve mais bernarda por causa do VAR, desta vez um braço de Virgil van Dijk que passou incólume no lance que deu o golo do Liverpool e mais um fora de jogo tirado a régua e esquadro pelo VAR na jogada que daria o empate ao Wolverhampton.

E assim, meus caros, o país e o campeonato que se orgulhava de nunca falar de árbitros começou a falar deles desenfreadamente por causa da tecnologia que, supostamente, servia para não termos de falar mais dos homens do apito.

Tem sido assim semana após semana na Premier League: gente antes aparentemente imune ao insulto fácil e à crítica de cabeça quente a pedir guilhotina ao VAR, as redes sociais cheias de frames dos lances, cheios de linhas paralelas e perpendiculares, a várias cores, como se de repente o AutoCAD tivesse chegado ao futebol, linhas essas que provam foras de jogo antes absolutamente impossíveis de decifrar ao olho humano, por serem tão milimétricos, por envolverem partes da anatomia que antes achávamos nem contarem para essas contas.

O britânico não gosta disso porque o britânico é um liberal nisto do futebol: gosta da menor intervenção possível do árbitro e por isso é que os jogos na Premier League são tão frenéticos, tão intensos, com tão poucas paragens porque não é cá um empurrãozito que vai fazer o juiz sacar do apito. E o VAR veio baralhar essa realidade, muitas vezes por centímetros. Será justo?

No meu café da esquina comecei a problematizar a questão, a tentar encontrar uma solução, como se algum dia a resolução dos problemas do futebol saíssem de uma mesa de café num bairro lisboeta. E estas foram as minhas conclusões: ainda me parece evidente que o VAR é bom para o futebol e prova disso é a última jornada da fase de grupos da Taça da Liga, em que a sua falta foi mais que muita. O futebol sem VAR, pelo menos cá, é o futebol que privilegia demasiadas vezes o provocador, o piscineiro, o simulador. E pelo meio há erros colaterais, há esses foras de jogo demasiado zelosos, penáltis que continuam a ser uma questão ideológica. Na Premier League, como a cultura já não permite per se os provocadores, os piscineiros e os simuladores, talvez se notem mais os excessos de zelo.

Mas se o cotovelo está 3 centímetros adiantado, deixa de ser fora de jogo? Talvez não. Não sei se o futebol pode abarcar margens de tolerância, como no código da estrada, mas confesso que também me faz espécie que a popa do cabelo de um jogador seja a diferença entre um golo e um fora de jogo. Morto por uma ida ao barbeiro.

Saí do meu café da esquina sem qualquer tipo de solução para a paz no mundo, mas enquanto adepta de futebol tendo a acreditar que quando a Premier League pede discussão, a discussão deve ser feita. Como tudo na vida, as regras são mutáveis, ainda mais quando se estão a dar os primeiros passos.

Serve isto, quiçá, para o novo ano que aí vem. Que 2020 nos dê cabeça fria para discutir o que vale a pena ser discutido e para deixarmos de lado as batalhas que não podemos ganhar. O VAR está aí e não irá embora, mas não há mal nenhum em tentar torná-lo um pouco melhor.

O que se passou

A semana entre o Natal e o Ano Novo não costuma ser particularmente pródiga em acontecimentos, mas vamos tentar.

Em pouca conformidade com o espírito natalício, o Mónaco despediu Leonardo Jardim pela segunda vez mas, para compensar, o Borussia Dortmund conseguiu um presente de Natal que foi uma pechincha, o avançado norueguês Haaland.

Barack Obama lançou a única lista de melhores do ano que interessa e há desporto lá no meio.

E o próximo ano o que trará? Estas são as nossas apostas.

Por fim, lá longe, no Dubai, houve muitos portugueses premiados nuns tais de Global Soccer Awards, facto que mereceu esta bela crónica de Bruno Vieira Amaral.

Os mais lidos na Tribuna em 2019

Recorde aqui a nossa produção mais apreciada por si, caro leitor.

“Treino com Ronaldo há anos. Ele esteve dez anos sem mexer um dos dedos do pé. Comigo, em duas semanas, começou a mexer outra vez”

Esta quinta-feira fez exatamente 15 anos da medalha de prata de Francis Obikwelu nos 100 metros dos Jogos Olímpicos de Atenas. Motivo mais do que suficiente para falarmos com o português nascido na Nigéria há 40 anos, que nos levou de volta àquele dia 22 de agosto de 2004, mas também à infância em África, à decisão de ficar no nosso país, de Christian, o filho bébé e até dos treinos que dá a Cristiano Ronaldo e Nelson Semedo. <em>A Tribuna Expresso republica esta entrevista porque foi o conteúdo mais lido em 2019</em>

Edinho: "Onde investi o dinheiro? Comprei um carrossel que costuma estar nas festas do norte. Tenho encontrado gente espetacular nas feiras"

Aos 37 anos, Edinho sente-se com forças e capacidade para voltar a representar a seleção nacional. Recentemente comprou uma máquina utilizada pelos ciclistas da Movistar, para acelerar a recuperação e, inspirado em Cristiano Ronaldo e LeBron James, começou a publicar pequenos vídeos no Instagram, nos quais dá conselhos aos mais novos. Depois da formação feita no Almada, sob supervisão do pai, ex-futebolista, que estava sempre pronto a criticá-lo, rumou ao norte, onde representou SC Braga, Paços de Ferreira e Gil Vicente, antes de regressar a Setúbal. A seguir inicia aventura lá fora, primeiro na Grécia, depois em Espanha e por fim na Turquia. De regresso a Portugal, passa novamente pelo V. Setúbal, e pelo Feirense, até chegar ao Cova da Piedade. Entre várias histórias que metem Fernando Santos e Sérgio Conceição, por exemplo, revela que tem dois filhos, mas que gostava de ainda ter uma menina. E confessa ser viciado na PlayStation

Conceição não cumprimentou Félix? Tudo certo. É que um é pago para ter mau perder, o outro para ganhar bem (por Um Azar do Kralj)

Vasco Mendonça refere-se ao momento em que João Félix estendeu a mão a Sérgio Conceição como o gesto técnico mais bonito do miúdo - além do golo, claro, quando começou a sentir-se "o cheiro pestilento" que antecedia "a chegada do dia do julgamento no Dragão"

“Foi o Veiga que me pôs nos sub-21, porque quem manda nas seleções são os agentes, para valorizar jogadores, interesses. Agora é o Mendes”

Carlitos cresceu na zona da Arrentela com o sonho de um dia vingar no Benfica. Chegou lá, mas nunca conseguiu impôr-se no clube que, segundo ele, preferiu enviá-lo para fora a vê-lo em clubes rivais: “fizeram de mim o que quiseram”. Diz que ainda se encontrou com Pinto da Costa, Carolina Salgado e um agente num restaurante fechado só para ele, mas teve medo do presidente do FCP. Confessa que perdeu a cabeça com roupas de marca e carros, mas assume ter amadurecido depois de estar ano e meio sem receber ordenado, na Alemanha. Dedicado aos negócios da construção, vendeu uma casa a Coates, embora gostasse de continuar a jogar futebol. Aos 37 anos, anda à procura de clube

Roderick Miranda: “Num treino, o Ola John tenta fazer um chapéu e o Jorge Jesus: 'Olha, olha, ainda nem arroz come e já quer comer camarão'”

Diz que não quer voltar a Portugal tão cedo, sobretudo depois de ter sido constituído arguido por suspeita de ter participado num esquema para perder um jogo, enquanto estava no Rio Ave. De regresso ao Wolverhampton, após um ano de empréstimo ao Olympiacos da Grécia, Roderick refuta todas as acusações de que é alvo e explica as passagens por Suíça e Espanha, antes de rumar a Inglaterra. Pelo meio conta histórias de balneário, fala do Benfica, de Jorge Jesus e confessa que nunca foi ao Brasil, a terra natal do seu pai, um ex-futebolista que agora é taxista

“Em Inglaterra, no Ano Novo, até bêbado podes chegar que o treinador não liga. Se o Wes Brown está com os copos, o que posso eu fazer?”

Na primeira parte da longa entrevista que Nani deu a Tribuna, o jogador fala da vida atual nos EUA, da família, do bairro "Sucupira" onde cresceu, do início da carreira no Real Massamá; conta como andou a treinar no Benfica e no Sporting ao mesmo tempo antes de se decidir pelo clube de Alvalade e descreve como foi chegar ao Manchester United, viver com Cristiano Ronaldo e aprender com Sir Alex Ferguson. Pelo meio relembra histórias divertidas, outras mais dramáticas - e fala de tentações

“À porta, o segurança perguntou: ‘Têm a certeza?’. Entrámos, homens aos beijos, era um bar gay. A primeira saída à noite correu tão mal...”

Aos 37 anos Carlos Martins explica na primeira pessoa como foi duro vir para Lisboa, sozinho, aos 11 anos, jogar no clube do coração, o Sporting. Confessa também que dois anos depois, pediu para voltar para casa por não aguentar as saudades dos pais e irmãos. E explica como as lesões constantes na perna direita, uma consulta na Alemanha e o departamento médico do clube de Alvalade acabaram por levar à sua saída, pela mão de Paulo Bento. Amanhã é publicada a segunda parte desta entrevista onde fala da doença do filho Gustavo, que precisou de um transplante de medula, do Benfica e de como Jorge Jesus foi o melhor e o pior treinador que teve. <em>Esta é a primeira parte deste longo Casa às Costas com Carlos Martins</em>

André Ventura é a grande traição ao Benfica (por Ricardo Araújo Pereira, Henrique Raposo, Pedro Norton, José Eduardo Martins e Lucas Pires)

Esta é uma carta aberta escrita para a Tribuna Expresso e dirigida à direção do clube da Luz e é sobre alguém que chegou ao Parlamento e que é "conhecido apenas e só por ser do Benfica"

David Caiado: “Na Polónia, aos 30 minutos racharam-me o maxilar, mas, como ganhava ao minuto, continuei a jogar para não perder 600 euros”

No Luxemburgo, onde nasceu, aprendeu a torcer pelo Benfica, mas foi no Sporting que David Caiado se formou como jogador e homem. Aos 13 anos, já a viver no centro de estágio, sofre a primeira grande cicatriz da vida ao ver o pai ficar numa cadeira de rodas na sequência de um acidente de viação. Depois da estreia no Sporting, de duas épocas no Estoril Praia, euma e meia no Trofense, inicia o percurso além-fronteiras na Polónia, passando por Chipre, Bulgária e Ucrânia, antes de voltar a pisar solo português, no V. Guimarães. Sem conseguir impôr-se devido à incapacidade de lidar com a pressão da expetativa criada, volta a sair, primeiro para os relvados da Ucrânia, depois de Espanha e, por fim, instala-se na Roménia, onde ainda joga. No meio disto tudo é pai, vive de perto a guerra da Crimeia, apanha sustos e foge com dinheiro debaixo dos pés

Triste sina de Félix: os seus golos são celebrados por espanhóis os falhanços celebrados por portugueses. Não é para isso que pago impostos

Vasco Mendonça, de Um Azar do Kralj, analisa o momento paradoxal da carreira do menino que deixou o seu Benfica. Esta é a análise, digamos, disruptiva dos jogadores de Portugal contra a Lituânia

Zona mista

“Joguei cá, fiquei em 4.º lugar e foi o fim do mundo”

Rúben Amorim, o novo treinador do Sp. Braga, ambicioso no momento de uma apresentação sem frescuras e de peito aberto. E sobre isso, também vale a pena recordar esta entrevista.

O que aí vem

Segunda-feira, 30

Do outro lado do charco, final de ano é igual a muita NBA: Chicago Bulls - Milwaukee Bucks (1h, Sport TV3), Minnesota Timberwolves - Brooklyn Nets (1h, Sport TV1)

Terça-feira, 31

Enquanto se contam as passas deste lado, nos Estados Unidos joga-se: Indiana Pacers - Philadelphia 76ers (20h, Sport TV1), Charlotte Hornets - Boston Celtics (20h, Sport TV3), Washington Wizards - Orlando Magic (23h, Sport TV1), Milwaukee Bucks - Minnesota Timberwolves (1h, Sport TV5)

Quarta-feira, 1

O primeiro dia do ano trás muito futebol do sítio onde ele não pára.

Na Premier League há Brighton - Chelsea (12h30, Sport TV1), Burnley - Aston Villa (12h30, Sport TV2), Southampton - Tottenham (15h, Sport TV1), Watford - Wolverhampton (15h, Sport TV2), Newcastle - Leicester (15h, Sport TV3), Manchester City - Everton (17h30, Sport TV1), West Ham - Bournemouth (17h30, Sport TV3), Norwich - Crystal Palace (17h30, Sport TV2), Arsenal - Manchester United (20h, Sport TV1)

Quinta-feira, 2

Premier League: Liverpool - Sheffield United (20h, Sport TV1)

Sexta-feira, 3

Após as festividades, regressa o futebol nos campeonatos não chamados Premier League.

La Liga: Valladolid - Leganés (18h, E1) e Sevilha - Ath. Bilbao (20h, E1)

Taça de França: Bordéus - Le Mans (19h55, Sport Tv1)

Sábado, 4

Volta a 1ª Liga com o V. Guimarães - Benfica (20h30, Sport TV1) como prato forte. E ainda: Aves - Santa Clara (15h30, Sport TV5), Boavista - Portimonense (15h30, Sport TV1), Belenenses SAD - Sp. Braga (18h, Sport TV5)

Taça de Inglaterra: Rochdale - Newcastle (12h30, Sport TV2), Birmingham - Blackburn (12h30, Sport TV3), Fulham - Aston Villa (15h, Sport TV2), Southampton - Huddersfield (15h, Sport TV3), Wolverhampton - Manchester United (17h30, Sport TV2), Manchester City - Port Vale (17h30, Sport TV3), Leicester City - Wigan (17h30, Sport TV1)

La Liga: Valencia - Eibar (12h, E1), Getafe - Real Madrid (15h, E1), Atlético Madrid - Levante (17h30, E1), Espanyol - Barcelona (20h, E1)

Taça de França: Monaco - Reims (14h, Sport TV3), FC Bourg-Péronnas - Lyon (19h55, Sport TV4)

2.ª Liga: Leixões - Penafiel (11h, Sport TV1)

Futsal, campeonato: Sporting - Belenenses (16h, 11), Eléctrico - Quinta dos Lombos (18h, 11), Fundão - Leões Porto Salvo (20h, 11)

Domingo, 5

É dia de Clássico na liga portuguesa: Sporting - FC Porto (17h30, Sport TV1). Antes disso há Rio Ave - Marítimo (15h, Sport TV3), Paços de Ferreira - Moreirense (15h, Sport TV4), Tondela - Gil Vicente (15h, Sport TV5), Famalicão - V. Setúbal (20h, Sport TV2)

Liga feminina: Sp. Braga - Sporting (12h15, 11)

Taça de Inglaterra: Middlesbrough - Tottenham (14h, Sport TV2), Liverpool - Everton (16h, Sport TV2)

La Liga: Granada - Maiorca (11h, E1), Real Sociedad - Villarreal (13h, E1), Alavés - Bétis (15h, E1), Celta de Vigo - Osasuna (20h, E1)

Serie A: Brescia - Lazio (11h30, Sport TV3), Génova - Sassuolo (17h, Sport TV3), Roma - Torino (19h45, Sport TV3)

Taça de França: Trélissac FC - Marselha (13h15, Sport TV1), ESA Linas Montlhéry - Paris Saint Germain (19h55, Sport TV4)

2.ª Liga: Farense - Benfica B (11h15, Sport TV2), FC Porto B - Académica (15h, Porto Canal)

Liga grega: Olympiacos - Panathinaikos (17h30, 11)

Futsal, campeonato: Sp. Braga - Benfica (14h20, RTP1), Burinhosa - Viseu 2001 (20h, 11)

Hóquei em patins, campeonato: Benfica - Sporting (15h, BTV), FC Porto - Tigres (15h, Porto Canal)

Hoje deu-nos para isto

Um regresso aos primórdios dos Gato Fedorento, sobre claques, árbitros, pessoas arreliadas e quejandos. Mais uma vez, feliz vinte-vinte, com menos fúria e mais amor.

"O árbitro foi extremamente incorreto", ou a claque dos Gato Fedorento que não entrava no campo do desagradável

Eles não agrediam, não ofendiam, nem aleijavam. Mas agora que até o VAR tira a paciência aos mais apaixonados, na ilha onde não se falava de arbitragens, onde vamos nós encontrar estes adeptos?