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Cancelemos 2020

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Wembley, onde deveria acontecer a final do Euro'2020, em julho. Com as bancadas vazias, como estarão em julho

Wembley, onde deveria acontecer a final do Euro'2020, em julho. Com as bancadas vazias, como estarão em julho

Mike Egerton - PA Images

Os dias de reclusão dão-nos algum tempo para pensar e durante este fim de semana cheguei à conclusão que deveríamos todos exigir desde já o cancelamento de 2020.

Passemos já para 2021, 2020 não trouxe nada de bom. 2020 começou por tirar-nos Paulo Gonçalves lá na Arábia Saudita. O nosso peito apertou um bocadinho. O Paulo, além de tudo o que conseguia tirar de uma moto, era um bom homem, simpático, um companheiro para os colegas, um daqueles que não deixava ninguém para trás naquelas dunas.

Depois roubou-nos Kobe Bryant. Kobe, que nós achávamos invencível, imortal, intocável. E a filha, Gianna, com apenas 13 anos, futura melhor jogadora de basquetebol do Mundo - Vanessa, a sua mãe, disse que sim e eu acredito, porque não haveria de acreditar?

Agora, chegou este vírus, invisível, que ataca à traição, ao mínimo descuido, que se aproveita das nossas fragilidades, que nos fechou em casa, que não nos deixa abraçar os nossos pais ou dançar com os nossos amigos. Pelo caminho - e eu sei que neste momento isso é o menos importante, mas não deixa de doer - roubou-nos o Europeu, o Europeu pan-europeu, ironias das ironias. Então não é que no ano em que íamos ter um Europeu jogado em todo o continente vem um vírus que não nos deixa sequer ir a Badajoz?

Roubou-nos a emoção do final de época que se aproximava, roubou muito provavelmente a festa que pintaria de vermelho a cidade Liverpool. Trinta anos à espera de festejar um campeonato e vai mesmo calhar quando nos deparamos com um dos maiores desafios das nossas vidas, quando nos proíbem os abraços e os beijos e as cervejas trocadas quando se celebra a alegria imensa que é ver a nossa equipa ganhar.

A época terminará, está claro. Só não sabemos quando e em que condições e com quem a assistir.

E vai, inevitavelmente, roubar-nos os Jogos Olímpicos. Não porque não possamos ter esperança que em julho esteja tudo já mais controlado e haja uma qualquer normalidade que nos permitirá, sei lá, beber um copo numa esplanada com outras pessoas sem que tenhamos de nos cumprimentar com o cotovelo. Mas porque a preparação dos atletas está parada ou ferida de morte. Como poderá um nadador treinar sem piscina? Como pode um judoca preparar-se sozinho em casa? Como vai um jogador de voleibol aprender aquela jogada sem os seus companheiros ao lado?

E a nós, vai saber-nos ao mesmo um Europeu e uns Jogos Olímpicos disputados num ano ímpar?

Não sei a resposta para muitas destas perguntas. Só sei que, por mim, cancelava-se já 2020.

O que se passou

Por estes dias muito pouco, a não ser cancelamentos de tudo e mais alguma coisa e notícias de atletas ou ex-atletas doentes.

Fora da orbita covid-19, e para quem segue o futebol americano, Tom Brady deixou meio mundo de boca aberta ao anunciar a saída dos New England Patriots, após 20 anos de glória. Vai jogar agora nos Tampa Bay Buccaneers.

Nove perguntas a Danilo: “Duras do mister nesta fase? Não, ele até já mandou um audio WhatsApp no nosso grupo a dizer que estava orgulhoso”

O capitão do FC Porto responde a nove perguntas rápidas sobre o momento que a equipa está a viver, neste tempo de isolamento. Nesta curta entrevistas, há <em>cameos</em> de antigos colegas, como Felipe, que é um exímio jogador de jogos de consolas

Treinar em casa é difícil para Pepe: a família não está interessada nos duelos mais físicos (a quarentena do FCP, por Lá Em Casa Mando Eu)

Catarina Pereira tem, obviamente, <em>inside information</em> dos seus jogadores preferidos (nem todos) do FC Porto que se encontram a cumprir diligentemente o plano traçado pelo clube. O isolamento é para cumprir; isto é o que eles têm feito

Pedro Proença: “Depois desta catástrofe, o futebol vai mudar, porque vivemos numa bolha especulativa com grandes assimetrias”

O presidente da Liga, em entrevista exclusiva ao Expresso, fala sobre suspensões de campeonatos, recalendarizações e a (quase) certeza de haver um campeão definido esta época

Covid-19. Tsanko: “Treino num descampado, numa rua sem saída, e há um senhor que vem à varanda ver-me lançar o peso durante uma hora”

Tsanko Arnaudov nasceu na Bulgária mas compete por Portugal, sendo o atual recordista nacional do lançamento do peso, com 21,56, marca estabelecida em 2017. Em casa há uma semana por causa da COVID-19 conta como divide o tempo entre exercícios na garagem, a limpeza da casa e jogos de Monopólio ou Uno com a companheira e também atleta Cátia Azevedo, especialista nos 400m.

Covid-19. O lendário Mike Stewart: “Conseguiria aguentar meses sem mar. Tens de usar o poder da mente, a imaginação, visualizar-te a surfar”

Tem 56 anos, foi nove vezes campeão do mundo de bodyboard e, no início de março, ganhou o Pipeline Classic de bodysurf pela 16.ª vez. Mike Stewart é quase um só com o mar, mas diz que, se a pandemia da Covid-19 o ditar, no Havai, será capaz de ficar longe do oceano "durante meses", usando o poder da mente e da imaginação, como já o fez. Em entrevista à <strong>Tribuna Expresso</strong>, o americano diz não concordar com o encerramento das praias porque "o oceano é um bom escape para as pessoas desde que não se juntem e mantenham as distâncias". E considera o isolamento social como uma oportunidade para "nos focarmos na família e no que é realmente importante, até em nós mesmos"

“No Sporting, apostámos com o Paulinho: aguentar o máximo no banho gelado, só com a cabeça de fora. Ganhou, mas rebentou-se todo com febre”

Diogo Salomão, 31 anos, está desde o início deste ano no Santa Clara, onde diz ter encontrado uma família. A formação foi feita nos clubes perto de casa, Estrela de Amadora, Damaiense e Casa Pia, antes de chegar ao Sporting onde nunca conseguiu afirmar-se. Foi em Espanha que mais jogou, no Deportivo da Corunha e no Maiorca, antes de voar para a Roménia onde representou o Dínamo de Bucareste e o Steaua, com uma passagem pela Arábia Saudita. Com a liga parada por causa do coronavírus, diz que a saúde é mais importante do que o futebol e por isso aconselha todos a seguirem à risca os conselhos dados pelas autoridades de saúde e pelo governo

Traulitada luso-brasileira, o roupão do Fanã, penálti à Luís Miguel, livros do Chico e os Super Wings (por Insónias em Carvão)

O nosso implacável curador da internet buscou e buscou e buscou em todas as redes sociais das figuras do pontapé na bola para nos trazer o que de melhor andam elas a fazer nestes momentos de isolamento

Crónica de um benfiquista em casa que não quer o Benfica campeão (por Um Azar do Kralj)

Vasco Mendonça não sabe muito bem por onde começar. Porque tudo isto é muito complexo e difícil de gerir. Há caos, indefinição. Felizmente, diz este benfiquista, também não há futebol, ou melhor, neste momento não há forma de estragar o futebol português, com comunicados e guerras de bastidores

Zona Mista

"A Itália virou uma nação de corredores. Temos de levá-los a ver os mortos?"

Michele Zasa, médico do MotoGP, numa entrevista à "Gazzetta dello Sport", falando da súbita vontade que agora todos têm de se exercitar ou passear o cãozinho, numa Itália onde ainda neste fim de semana num só dia morreram quase 800 pessoas

O que aí vem

Segunda-feira, 23

Em podendo, fique por casa

Terça-feira, 24

Se tiver mesmo de sair, mantenha sempre a distância social. Dois metros é razoável

Quarta-feira, 25

Não leve as 50 latas de atum que estão no supermercado. Há outras pessoas que adoram atum

Quinta-feira, 26

Caso o seu emprego permita, fique em casa. E lave as mãos amiúde, 20 segundos chegam

Sexta-feira, 27

Fique em casa, se puder

Sábado, 28

Não, ir correr para a marginal ao sol não é boa ideia

Domingo, 29

Caso lhe seja possível, fique em casa

Hoje deu-nos para isto

Permitam-me um apontamento pessoal: odeio paternalismos e, apesar de tudo o que foi escrito nesta newsletter, muito menos tenho pretensões de dizer às pessoas o que devem ou não fazer. Mas também tenho muitos familiares e amigos que trabalham na área da saúde. Alguns deles, já estão no caos. Outros preparam-se para nele entrar. Alguns convivem todos os dias com pessoas que poderão ou não estar doentes. Outros deles tiveram ainda de optar por se separar da família, por deixar de estar com os filhos porque, estando na linha da frente, mais cedo ou mais tarde o vírus poderá tomar conta deles.

Por isso, e apesar de tentar sempre colocar-me no lugar dos outros, gostava de dizer-vos que não tenho lá muito carinho pela vossa "necessidade" de ir "arejar" à beira-mar ou nas marginais. Todos teremos as nossas dores, os nossos problemas, todos vamos sofrer com isto, seja na saúde ou na carteira. Mas os verdadeiros heróis não somos nós, a quem simplesmente nos pedem para ficar em casa.

Que esta primeira página do diário espanhol "Marca" nos recorde disso.