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De maneiras que o exemplo tem sempre de partir de cima. E nem sempre isso acontece

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Philipp Schmidli

Um dos últimos artigos que li sobre Gianluigi Lentini dizia que ele agora era apicultor, produzia mel, que a sua empresa se chama “Méis Lentini” e ficava na Carmagnola, perto de Turim. Criar abelhas é uma atividade nobre, bucólica e dada à contemplação, e não entraria no topo da lista das estranhíssimas reviravoltas de vida de antigos futebolistas que se veem nas rubricas jornalísticas “o que é feito de...”, “lembra-se de…”.

Mas convenhamos que ver Lentini de carretilha na mão a fixar ceras e a vistoriar colmeias artificiais estava longe de tudo o que poderia imaginar para este meu ex-ídolo. Que é muito mais importante para a história do jogo do que o seu percurso inconsistente pode sugerir.

Para mim, e para outros também, o futebol entrou noutra era quando o AC Milan de Silvio Berlusconi pagou 30 milhões de euros ao Torino por Gianluigi Lentini. Foi em 1992 e durante quatro anos Lentini foi a transferência mais cara do mundo. Só que o extremo habilidoso, errático e boémio não justificou o investimento, ficaria entre a vida e a morte após um desastre de automóvel, em 1993 - o seu Porsche bateu a mais de 200 quilómetros por hora - e a carreira afundou-se.

Mas o preço ficou gravado na pedra - e o futebol deixou de ser um jogo.

Hoje, este desporto é uma indústria de muitos milhões e de vários milionários. Fundos legais e outros mais opacos, oligarcas, homens do betão e das finanças, príncipes árabes, bilionários chineses, empresários norte-americanos, operadores de televisão, marcas desportivas, bebidas energéticas e alcoólicas, bancos e até países decidiram entrar no negócio. E este cresceu a um ritmo imparável que se julgava até irresistível: porque, na verdade, ninguém resiste a um bom jogo de futebol e especular em cima disto isto tornou-se relativamente fácil.

Os adeptos pagavam bilhetes e camarotes, compravam camisolas, assinam canais de TV premium um pouco por todo o mundo; e as audiências dispararam e isso atraiu patrocinadores e publicidade - e, obviamente, dinheiro.

Depois, apareceu a covid-19.

Agora, nada vai ser como era, porque nem o futebol é imune a uma crise global que vai implodir vários setores da sociedade. Não será como em 2009, quando, em plena crisem Cristiano Ronaldo trocou o Manchester United pelo Real Madrid por 94 milhões de euros, um número então impensável, mas que acabaria secundarizado nos anos que se seguiram.

Pelo contrário, a ordem agora é cortar e há uma sequência lógica de acontecimentos que terminará na pouco pacífica ida-ao-bolso.

Comecemos pelos operadores de TV:

Em França, os canais que transmitem os jogos decidiram pagar março, mas pagar abril está fora de questão; o problema é que 47% dos orçamentos da generalidade dos clubes franceses estão sustentados nestes contratos. Em Portugal, Altice, NOS, Vodafone e SportTV cumpriram os contratos em março, com intervenção da FPF, mas não está garantido que o façam em abril. E a nossa realidade não difere muito da francesa - sem a TV, os emblemas nacionais vão abaixo.

Além disso, com a desvalorização dos jogadores e com a contração do mercado, a venda de jogadores, a grande fonte de receitas, será irremediavelmente revista em baixa. Depois, bom, depois, se não há jogos, não há bilheteira e também não há merchandising, pois ninguém vai á loja ou ao estádio - e entre lay-offs e despedimentos, encomendar a camisola do Ronaldo não parece prioritário.

Ou seja, dentro de pouco, não há dinheiro a entrar nos clubes e a revisão salarial parece inevitável. E naturalmente polémica.

Em Inglaterra, a Associação de Futebolistas Profissionais rejeitou a medida proposta pela Premier League, que quer impor uma redução salarial de 30% em todos os jogadores de todos os clubes. Argumentou a associação que isso privaria o estado britânico de milhões em impostos e que o sistema nacional de saúde sofreria com isso. Wayne Rooney, um dos melhores dos últimos 15 anos, disse que os jogadores “são alvos fáceis” e Danny Rose achou “bizarro” que o Parlamento inglês quisesse mexer nos seus rendimentos.

Há duas formas de olhar para isto, a primeira é que os futebolistas ganham bastante dinheiro e portanto podem cortar uma percentagem do ordenado, permitindo aos clubes manter os empregados anónimos, atrasando lay-offs. A segunda é que ninguém gosta que lhe mexam no bolso e os futebolistas não ganham todos o mesmo.

Se uma sociedade justa prevê uma tributação progressiva, em que quem ganha mais e mais tem, pague mais em impostos, exigir cortes igualmente progressivos, indexados aos ordenados, é provavelmente mais aceitável - e talvez exequível.

Porque Rooney também tem alguma razão no que diz quando lhe exigimos que abdique do que é seu. É realmente mais fácil, estamos emocionalmente ligados a ele, gastamos do nosso dinheiro para que ele ganhe o dele a dar pontapés numa bola. Mas, acima de Rooney, estão os outros: não há um futebolista ou sequer um atleta na lista dos bilionários da Forbes, onde está, entre outros, Stanley Kroenke, dono do Arsenal e dos Denver Nuggets - e de várias equipas de desportos americanos.

Pois que o exemplo tem sempre de partir de cima. Sempre. E nem sempre isso acontece.

O QUE SE PASSOU
Francamente, pouco se passou, pois o desporto está congelado - a não ser no longínquo Tajiquistão, é verdade. Mas nem por isso a Tribuna Expresso deixou de produzir conteúdos a pensar em que a lê. Temos entrevistas, notícias, efemérides, novas rubricas e opinião. Para quem não sabe, o mês de março foi o segundo melhor mês em termos de audiência da Tribuna Expresso - e o futebol parou nos idos de março. Continue connosco.

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