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Isto ainda é anormal ou já é o novo normal?

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Novak Djokovic em êxtase ou algures lá perto, ao ganhar em Wimbledon quando, mais uma vez, tudo estava contra ele

Novak Djokovic em êxtase ou algures lá perto, ao ganhar em Wimbledon quando, mais uma vez, tudo estava contra ele

Clive Brunskill/Getty

Stan está refastelado, dá ares de ser no sofá, talvez seja na cama, tem a cabeça apoiada, os olhos semicerrados e quer saber qual foi a vez em que o falador de boné posto, pala para a frente, ficou mais chateado por perder. De inocente a pergunta pouco tem (isso seria consumado pouco depois), mas de normal terá ainda menos se nos agarrarmos à noção comum de normalidade que havia ali até ao início de março, quando um bicho que não vemos virou do avesso um pouco de tudo o que há na forma como vivemos e provocou, indiretamente, que um dos maiores ganhadores na história do ténis seja questionado pela derrotas que o enfureceram e a resposta implique, diretamente, quem lhe perguntou.

No meio dos 1.098 jogos de ténis que já fez, Novak Djokovic só perdeu 187 e admite que os dois que lhe tocaram no nervo foram contra Wawrinka, ali a conversar com ele no ócio caseiro e a insistir nos porquês, até o sérvio lhe explicar que, ao arrebatar o primeiro set a jogar bem e ao continuar a fazê-lo, não foi capaz de acompanhar quando o suíço ligou o modo super-guerreiro, subiu o nível de jogo e o derrotou nas finais de Roland Garros (2015) e do US Open (2016). Vemos um dos maiores tenistas que já houve, com os 17 canecos de Grand Slams arrumados algures lá na casa de onde fala, a ser cândido e eloquente enquanto confessa a fúria que sentiu ao ser superado em ténis jogado por quem já perdeu 301 jogos em 824.

O suíço é um belo de um tenista, portador de uma esquerda titânica, senhor dos seus três majors, mas azarento como 99% dos seus homólogos por coincidir no tempo com este sérvio, um espanhol e outro suíço que todos sabemos quem é, e a quem Djokovic se refere como GOAT, acrónimo para Greatest Of All Time, ou 🐏, se preferirem, já que estes parecem ser novos tempos para comunicarmos e este é o ponto ao qual pretendia chegar - porque se está a normalizar vermos os desportistas que admiramos enquanto comuns mortais e sobre quem escrevemos, nós jornalistas, a combinarem conversas descontraídas entre eles nas redes sociais, deixando cair todas as barreiras da constrição em direto, perante quem quiser assistir.

Outro dia, era Bruno Fernandes a confidenciar histórias-mil sobre a carreira à amiga e cantora Carolina Deslandes. Na mesma noite, que não me falhe a memória, Francesco Totti ligou a Christian Vieri e eis dois grandes jogadores a rirem com as recordações de futebol que arrancavam um ao outro. Antes, foi Sérgio Conceição a atender a chamada de Fabio Cannavaro da China. Kelly Slater tem feito várias tertúlias virtuais com amigos e conhecidos. Já vi o fenomenal Ronaldo a pôr a conversa em dia com Roberto Carlos e David Beckham. Há pilotos da Fórmula 1 a transmitirem corridas virtuais e o respetivo bate-papo que soltam com as guardas em baixo.

Todos descontraíram as defesas, falaram abertamente e desvendaram coisas que não trazem mal ao mundo por se saberem, mas, como qualquer pessoa, se contam mais facilmente estando um amigo do outro lado a ouvir. O que não é a mesma coisa de ter um jornalista a perguntar, que sempre terá outra visão das coisas - exterior, não enviesada e imparcial - e outras perguntas a fazer, sobretudo as que não quererão ser recebidas e, mais vezes do que menos, têm que ser feitas.

Mas, estando o mundo sem desporto palpável há quase um mês, desportistas um pouco por todo o lado têm mostrado que a normalidade de saber coisas deles através de quem pesquisa, pergunta e escreve sobre eles, já não será assim tão normal quanto isso. Com redes sociais na palma das mãos, eles têm normalizado o anormal e, talvez, quanto mais durarem estes tempos anormais, mais normal será vê-los a dizerem e contarem coisas sem intermediários pelo meio e nós a termos que nos adaptar a isso.

De que outra forma ouviríamos o lendário Novak Djokovic, que corre por fora de Nadal e Federer por ter sido a última das lendas a surgir, a admitir que o suíço "é sem dúvida o GOAT" por ser "um tipo adorado em todo o mundo", que "não espera que o público esteja do lado" dele e que "está ok com isso", já que durante muitos anos não esteve e se revoltava contra isso. "Tem mais a ver com a grandeza deles enquanto pessoas do que eu fazer alguma coisa de errado", confidenciou a Wawrinka e aos milhares que estivessem a ouvir. Creio que não ouviríamos tal coisa de outra forma.

E tenho a certeza que muito menos escutaríamos o sérvio a perguntar ao suíço qual o segredo da sua aparente juventude aos 35 anos, ele duvidar que a resposta lhe agrade por "não ser vegan", chegarem à conclusão que é o vinho italiano e uma gargalhada fechar o assunto.

O que se passou

A normalidade destes tempos anormais é mais um fim de semana ter passado, no fundo, com nada a acontecer. É devido ao anormal normalizado que, na Tribuna Expresso, continuámos a apalpar jogos acontecidos eram as coisas normais, a recordar coisas extraordinárias que romperam com o normal e a conversar com quem se destacou.

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1929-2020 Foi o melhor corredor de automóveis do mundo inteiro do século XX e dos 20 anos que já levamos do século XXI. Este é o obituário de José Cutileiro, onde não faltam histórias que se tornaram lendas

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Tem 18 golos esta época, não há português que marque mais em Portugal. Há muito que a Seleção não tem um avançado canhoto e Paulinho espera, e acredita, que será o próximo

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O ATP Player Council, presidido pelo tenista sérvio, está a estruturar um modelo de doações que pode chegar aos quatro milhões de dólares, a serem distribuídos pelos jogadores que se encontram abaixo do número 250.º no <em>ranking</em>. Há cinco atletas portugueses nesse grupo, Frederico Gil é um deles e diz à <strong>Tribuna Expresso</strong> que os gastos que tem “são enormes”

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Zona mista

Não sou um goleador natural. Nunca fui um Gary Lineker ou um Ruud Van Nistelrooy. Como é que bati recordes se não sou um goleador nato? Tempo.

O honesto Wayne Rooney teclou na sua coluna semanal do "Sunday Times" para falar dos 253 golos que deixou no Manchester United e os 53 que fez na seleção inglesa, marcas que o têm como o melhor marcador na história de ambas as equipas. Palpitam-lhe as dúvidas quanto à longevidade do recorde com a Inglaterra, não sobre o quão grisalho poderá ficar a marca no United - "simplesmente, porque os jogadores não permanecem nos clubes tanto tempo como dantes".

O que aí vem

Nada de novo na frente de assentar toda a bacia no sofá, manusear o comando da televisão ou o rato de um computador portátil no colo, olhar para o ecrã e o único troco para o salivar por desporto é tirar o pó à memória. Com tudo quanto é modalidades ainda ligado a sistemas de suporte à sua sobrevivência, aqui vão algumas sugestões do que federações e entidades vão tornando possível recordar.

Segunda-feira, 20

🏀 "The Last Dance" - outra tão banal e entediante espreguiçadela dos dias úteis terá uma valente dose de relevância, porque a Netflix decidiu antecipar a série que reconstrói a última época dos míticos Chicago Bulls com o mito Michael Jordan.

Terça-feira, 21

Argentina-Alemanha, 1986 - FIFA chegou-se à frente com a sua dose de solidariedade de conteúdos e, no YouTube, tem publicado as versões integrais de vários jogos icónicos dos Mundiais de futebol masculino e feminino. É sempre uma excelente desculpa para vermos Diego Maradona no seu estado máximo de existência, na final do Mundial que ganhou, em 1986.

Quarta-feira, 22

🏎️ GP do Mónaco, 1996 - carradas de chuva a cair no mais popular circuito citadino, condições para puxar o melhor que há nos pilotos e não tanto nos carros e a vitória para um francês que nem antes, ou depois, ganhou outra corrida.

Quinta-feira, 23

Portugal-Holanda, 2004 - e quando Maniche foi pedir a bola curta num canto e pumba, chutou-a logo dali, em arco, para o país que nunca ganhara ir à final do Europeu caseiro que ainda não seria a vez para ganhar? A Sport TV1 recorda essa meia-final, às 14h30.

Sexta-feira, 24

🏄🏻 Pipeline Masters, 2019 - não foi o primeiro, tão pouco o segundo brasileiro a ser campeão num mundo onde deslizavam americanos ou australianos à frente de quem fosse, mas Ítalo Ferreira foi o último a consegui-lo, na última etapa, no último heat do ano. A World Surf League mostra-nos agora os bastidores do que aconteceu no Havai para o título mundial de surf ir para Ítalo e não Gabriel Medina.

Sábado, 25

🎾 Open da Austrália, 2005 - ter 24 anos e chegar às meias-finais sem ceder um set, ganhando a André Agassi pelo meio, a caminho da plenitude física, deveria ter sido apenas uma burocracia para Roger Federer chegar a outra final na carreira, só que não. Neste ano, apanhou Marat Safin, quando o russo ainda era um daqueles tenistas que coabitavam com os extraterrestres no mesmo bairro, e perdeu, mesmo tendo match points lá pelo meio dos cinco sets.

Domingo,26

🏉 África do Sul-Austrália, 1995 - foi o Mundial em que Nelson Mandela vislumbrou uma oportunidade para remendar, nem que fosse um pouco, o país estilhaçado por décadas de ódio, racismo e segregação imposta por brancos contra negros. Fê-lo sendo um negro a apoiar o desporto dos brancos que todos os negros odiavam, pelo que simbolizava. E este foi dos melhores jogos que os springboks fariam até ao título.

Hoje deu-nos para isto

JEFF HAYNES

Se quiseres retirar o melhor do Michael, diz-lhe que ele não consegue fazer alguma coisa, então alguém lhe terá dito a 5.2 segundos do fim, como há horas disse por escrito e entre aspas a conta dos Chicago Bulls, que ele, o insaciável melhor entre os melhores, era incapaz de resgatar o sexto anel na última jogada que sua equipa tinha na final da NBA.

O resulto está no épico desmantelar de joelhos que provocou em Russel, dos Utah Jazz, e no lançamento que se seguiu para se escutar aquele majestoso som de uma bola a ser filtrada nas redes. Não vos peço perdão por isto não se tratar de spoilar, porque é retórico saber que clímax da "Last Dance" acabará por ir dar a este momento.

A esse e a outros também acabaremos por chegar, na Tribuna Expresso, onde esperamos que nos leia e acompanhe se estiver para aí virado, durante mais uma semana de confinamento social a que estes tempos nos obrigam.

O último lançamento de Michael Jordan

Faltavam cinco segundos para acabar o jogo quando a bola entrou no cesto, vinda das mãos graciosas do maior basquetebolista que já pisou um <em>court</em> e que deu o último título aos Chicago Bulls, em 1998