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O futebol como um filme de Dreyer

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Olá adeptos, este é o novo futebol. De bancadas vazias, em que se festeja sozinho

Olá adeptos, este é o novo futebol. De bancadas vazias, em que se festeja sozinho

MARTIN MEISSNER

Para mim, o Signal Iduna Park sempre se chamou Westfalenstadion, desde os tempos do Paulo Sousa e do Lars Ricken, mas para mim o futebol também sempre teve adeptos, não ter adeptos era sinal de castigo, mas como a covid-19 nos castigou a todos sem exceção, dos bem aos mal-comportados, se calhar está na hora de começar a falar do Westfalenstadion como Signal Iduna Park, até porque o Westfalenstadion costumava ser um dos mais barulhentos estádios da Europa e no sábado foi um sítio de silêncios, ou se não silêncios pelo menos de sons aleatórios que estamos habituados a ver e não a ouvir.

Como o som seco do pé a bater numa bola, o insulto que escapa e que antes só liamos nos lábios, como o grito do treinador a corrigir um posicionamento defeituoso. São estes os novos tempos.

Normalmente, nada disso se ouve porque para lá do retângulo há milhares e milhares de alminhas a cantar e saltar e sem elas o futebol é um conjunto de silêncios pintalgados por sons desconexos, vazios. E ver o Borussia Dortmund - Schalke 04, um dos mais assanhados dérbis da Alemanha, sem aquela parede de som em tons de amarelo que dantes vinha do topo sul do Westfalenstadion foi desconcertante, no pior dos sentidos possíveis. Sem conseguir abstrair-me daqueles barulhos randómicos, fortuitos, que fazem parte do jogo mas não são o jogo, desliguei-me do dérbi, vagueei à procura de no meu cérebro reunir os pedaços em que se tornou a experiência pós-moderna de ver um jogo de futebol. O futebol está de regresso, dois meses depois, e eu, que nem sou de andar de punho fechado a bater no peito a dizer que sem adeptos isto não vale a pena, estava disposta a desistir.

Acontece que é sempre possível dar a volta a este novo normal. A conselho do meu amigo Diogo Santos, que além de melómano também escreve desempoeiradamente, como eu gosto (e podem comprová-lo aqui e aqui), liguei a coluna e dei uma banda sonora ao jogo. Foi rock, talvez pudesse ser outra coisa, o certo é que cumpriu o propósito, encheu aquilo que era incongruente, deu volume a um estádio cheio de vácuo. E assim voltei a concentrar-me no futebol.

Cada um dá o sentido que pode àquilo que, aparentemente, parece não ter sentido algum.

Há um filme que gosto muito, quase tanto ou mais que dos meus jogos de futebol preferidos. Chama-se "A Paixão de Joana d'Arc" e ainda é do tempo em que o cinema só se fazia de gestos e olhares. Ao longo de todos estes anos, muita gente tentou musicá-lo, Richard Einhorn, Will Gregory e Adrian Utley, a pianista japonesa Mie Yanashita. Nunca vi qualquer uma dessas versões, só a totalmente muda, no breu do cinema, embora reze a lenda que, em 1928, Carl Theodor Dreyer terá imaginado aquelas quase duas horas de martírio da heroína francesa como uma experiência sonora e que só não o fez por falta de dinheiro. Talvez a música tornasse ainda mais agónica aquela viagem, revolucionasse ainda mais as nossas entranhas.

Não sei se o filme de Dreyer precisa de som. Até este fim de semana acreditava que não, que estava tudo nos close-ups e nos olhos de Maria Falconetti, mas talvez a Bundesliga me tenha alertado que todas as experiências podem ser melhoradas, mesmo que na cara de Erling Braut Haaland, nórdico como Dreyer, marcador do primeiro golo do pós-pandemia, haja um nada quase tão grande quanto o silêncio dos estádios.

Ele fez o primeiro de quatro golos com que o Borussia derrotou o Schalke 04 no dérbi do aço e do carvão e festejou ao longe, com uma estranha dança e os colegas à distância. Em outros jogos rapidamente se esqueceram as recomendações, houve abraços e até beijos e, por muito que isso nos preocupe, o jogador é humano e essas são as únicas partes que não precisam de música, porque nos lembram da verdadeira normalidade, aquela de que queremos gozar o mais rapidamente possível. Naqueles abraços há tanta alegria quanto há sofrimento nos olhos de Falconetti e não existe guitarra ou orquestra que hiperbolize ainda mais tal coisa.

Mas, para já, é esta a realidade. Continuarei a dar uma banda sonora ao futebol, para tornar mais suportável o seu silêncio. Nas tão prosaicas quanto pragmáticas palavras de Lewis Hamilton, que também se vê na iminência de tentar um sétimo título mundial na Fórmula 1 sem ninguém nas bancadas a ver, olhem, "é melhor do que nada".

O que se passou

Cá dentro, já há data oficial para o arranque do campeonato. Aponte na agenda: quinta-feira, 4 de junho.

Na Fórmula 1, ainda nem sequer se correu um GP em 2020 e já as cadeiras dançam para 2021. Conta-se assim, de enfiada: Sebastian Vettel não renovou com a Ferrari que foi buscar Carlos Sainz à McLaren que por sua vez contratou Daniel Ricciardo que deixa assim a Renault. Uff.

O regresso do pontapé na bola (que é uma lata de atum, porque o bife do lombo ainda não voltou)

Bruno Vieira Amaral não se contenta com o regresso da Bundesliga à porta fechada: "Nenhum espectáculo que viva da emoção, de uma certa megalomania quanto às suas próprias virtudes espectaculares, pode mergulhar nesta filosofia de tasca – é o que temos"

Peixoto: “No FC Porto levava muita porrada no treino e não havia faltas. O Mourinho combinava com os jogadores e era pimba, pimba, pimba”

A César Peixoto só faltou o Sporting, clube de que gostava quando era pequeno, para poder dizer que jogou nos três grandes de Portugal. Ainda que os tempos de maior glória tenham sido vividos no FC Porto, foi no Benfica que conquistou o título que lhe deu mais gozo, duas épocas depois de o terem dado como acabado para o futebol. Teimoso e irreverente na juventude, explica a mística do FC Porto, fala da grandeza do Benfica e da eficácia de JJ, da sua passagem fugaz por Espanha e de como fez questão de terminar a carreira na posição que lhe dava mais gozo, a de médio. Depois, tornou-se treinador e deixou recentemente o comando do Chaves, mas diz-se tranquilo e à espera de novos projetos

Asereje e Macarena, sim. Tiktok, não. Comentários futebolísticos? Hmmm. Retórica e dialética para sempre (o protocolo de Diogo Faro)

O humorista Diogo Faro alinhavou uma série de novas regras para este futebol que será necessariamente diferente. Antes de mais, sugere que se altere o nome da modalidade para Futebolvid. Mas também deixa uma hipóteses mais ou menos exequíveis, que vão desde o posicionamento na baliza à obrigatoriedade de transformar este desporto de contacto numa outra coisa qualquer

13 de maio de 1985. Quando as pessoas certas foram postas a jogar nas posições certas e o Verona foi campeão de Itália

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Vi que Nélson Semedo, Ederson, Gonçalo, David Luiz, Renato e Bernardo querem regressar. Benfica: diz-me que é impossível depois de tentares

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Zona mista

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Rui Cordeiro, presidente do Santa Clara, confessando numa entrevista à nossa Mariana Cabral um desejo bucólico para o seu clube, agora que os açorianos vão deixar a pacatez do Estádio Rocky Balboa (palavras do próprio) para jogar o que resta da Liga na Cidade do Futebol, no continente

O que aí vem

Segunda-feira, 18

Continua o regresso da Bundesliga: Werder Bremen - Bayer Leverkusen (19h30, Eleven Sports1)

Terça-feira, 19

À falta de desporto em direto, recorde o Sporting - FC Porto de 2006/07 (10h, Sport TV+) e o Portugal - França, a final do Euro 2016 (12h45, Sport TV+).

Quarta-feira, 20

Foi a segunda vitória de José Mourinho na Champions. Reveja o Inter de Milão - Bayern Munique, a final da Liga dos Campeões de 2009/10 (22h, Eleven Sports1).

Quinta-feira, 21

Com a Premier League ainda sem data oficial para regressar, nada como revisitar alguns dos melhores jogos da última década, como o Liverpool - Manchester City de 2017/18 (13h35, Sport TV+).

Sexta-feira, 22

A Bundesliga e o futebol em direto está de regresso. Arranca a jornada 27, com o Hertha - Union Berlin (19h30, Eleven Sports).

Sábado, 23

Continua a 27.ª jornada da Bundesliga, na Eleven Sports:
Paderborn - Hoffenheim (14h30)
Friburgo - Werder Bremen (14h30)
Wolfsburgo - Borussia Dortmund (14h30)
Borussia M'gladbach - Bayer Leverkusen (14h30)
Bayern Munique - Eintracht Frankfurt (17h30)

Domingo, 24

Mais três jogos da Bundesliga, na Eleven Sports:
Schalke 04 - Augsburgo (12h30)
Mainz - RB Leipzig (14h30)
Colónia - Fortuna Dusseldorf (17h00)

Hoje deu-nos para isto

Na derradeiras horas deste fim de semana de Natal, em que houve árvores e luzes nas varandas e em que voltámos também a sentir o entusiasmo de criança, esse entusiasmo que é o de abrir o presente e estar lá um jogo de futebol a sério depois de tanto tempo - e que me perdoem as ligas do Tajiquistão e mesmo a da Coreia do Sul -, falava com a Mariana, minha companheira de luta nesta vida que é a Tribuna, sobre a qualidade da Bundesliga 2, ou seja, da 2.ª divisão do futebol alemão, que também regressou no sábado.

À falta de outro futebol, vários jogos da Bundesliga 2 foram transmitidos em Portugal este fim de semana e não me parece que o subscritor tenha saído defraudado: houve bons jogos, emoção, golos nos descontos, equipas mais pequenas a surpreender gigantes como o Hamburgo ou o Estugarda, que por estes dias andam em divisões às quais não estão lá muito habituados. Deixo aqui um simples e belo golo do SV Wehen Wiesbaden, formação que, confesso, não fazia ideia que existia até a pandemia nos tornar especialistas e conhecedores de coisas que antes nos pareciam tão distantes - e se houver algo de bom a retirar destes terríveis dias, que seja perceber que a nossa visão periférica está cada vez mais alagada.

Cinco toques e um belo golo na 2.ª divisão alemã

Uma jogada rápida do SV Wehen Wiesbaden acabou com o golo de Schaeffler aos 50 minutos