Tribuna Expresso

Perfil

De bom senso não está o futebol cheio

Partilhar

É a fotografia mais antiga que encontrámos de Ronaldo Nazário de Lima, um exemplo de muita coisa, incluindo bom-senso

É a fotografia mais antiga que encontrámos de Ronaldo Nazário de Lima, um exemplo de muita coisa, incluindo bom-senso

Brazil Photos

"Eu me defino como um jogador bastante veloz, sou um jogador bastante habilidoso também."

As favolas para fora, a cratera a dar-lhe uma corrente de ar entre os dentes, ele rendido à introversão, a curvatura da tímidez no corpo como se as palavras que diz fossem um ultraje para alguém e eu, perdido de ideias e inspiração úteis para esta newsletter, a ver o que pode bem ter sido a primeira vez que um adolescente sem a mínima consciência do quão fenomenal era falou para um jornalista e uma câmara. E a triste primeira coisa que me vem à cabeça é pensar como aquele momento seria impossível de acontecer se hoje calhasse ser a altura para se estrear um moleque de 16 anos, dono até então de tantas qualidades em simultâneo jamais vistas num só avançado.

Há uma infinitude de inutilidade nestas conversas de hipotéses hipotéticas e de 'ses', porque mudam nada, mas, haveria Ronaldo Nazário de Lima ter calhado nascer numa altura que coincidisse com uma pandemia destas e não se teria descrito tão desfasado da realidade. Não teria um jornalista tão perto dele, num espaço tão fechado, nem destacaria apenas a velocidade e a habilidade de entre tudo o que fazia a bola perder-se de amores por ele e com ele evadir-se de todas as outras pessoas em campo. O brasileiro estreava-se no futebol profissional há 27 anos certos, num Caldense-Cruzeiro, não sei se a pequena entrevista é de antes ou depois disso, mas, se há elogio que a humildade lhe merece, é a do bom senso.

Ao escolher não se pavonear, nem se ensoberbecer, um futebolista está a fazer a sua parte para que tudo o que possam vir a falar dele se baseie no que o veem a fazer em campo, precisamente o que os adeptos espanhóis não poderão ver mais ao vivo, esta época, e, dado o grande pulo temporal para a frente, aqui apareceu a mais recente prova do bom-senso de Ronaldo, porque o Valladolid foi o primeiro clube em Espanha a dizer que ia reembolsar os adeptos que compraram lugar de época com o dinheiro relativo aos jogos a que não iam poder assistir no estádio, mesmo que a liga fosse retomada (entretanto, soube-se que poderá voltar a 13 de junho).

O Valladolid é o clube que o Fenómeno de jogador decidiu comprar, portanto, a decisão veio ou pelo menos passou pelo brasileiro. Em todo o caso, demonstrou-se bom-senso.

E a falta dele poderia ter estado no arranque deste texto, porque o assunto futebolístico do momento por cá é o futuro que se está a desenhar para Pedro Proença desde que, aparentemente, agiu sem essa qualidade. O presidente da Liga enviou uma carta ao Presidente da República a pedir ajuda para que os jogos da I Liga passassem em canal aberto, isto sem o conhecimento dos operadores e dos clubes, que dependem das receitas televisivas para sobreviver.

Também não terá ajudado a diretora da Liga dizer que "há que proteger quem apoia verdadeiramente o futebol", no caso a a NOS, a Altice, a SportTV, a Vodafone e a Olivedesportos, que patrocinam o campeonato e os clubes, mas sem mencionar os adeptos - sem eles, sem o seu interesse, sem os números que dão às audiências e, em último caso, se não houvesse quem quisesse ver a bola, certamente que essas empresas não quereriam investir no futebol.

De vez em quando, o bom senso parece estar a ser delapidado pela crise imposta pela pandemia. O Benfica e o Cova da Piedade - um residente da direção da Liga, o outro um dos membros diretivos por rotação - já abandonaram os lugares que ocupavam na entidade e o desequilíbrio de julgamento do presidente da Liga está a ter consequências. Que é como quem diz, a falta de bom senso.

Não sei qual foi o contexto da conversa, nem o tema, desconheço a pergunta que lhe fizeram ou quando aconteceu o suposto fórum do qual, este fim de semana, apareceu um vídeo, que também não vi a versão completa, mas ouvi essa carência de bom senso em Domingos Paciência, ao dizer, num alegado evento organizado pela Associação Nacional de Treinadores de Futebol, que é "um problema" haver pessoas "sem curso nenhum" e "às vezes até mulheres" a falarem de futebol.

Uma delas é Helena Costa, que costuma comentar futebol na Sport TV e desde há três anos que trabalha como scout no Eintracht Frankfurt, clube onde joga Gonçalo Paciência, filho de Domingos, cuja frase pode bem ter sido e estar a ser descontextualizada pelas implacáveis redes sociais - o vídeo que circula pela internet tem apenas 17 segundos -, mas, seja em que contexto for, o bom senso diria, talvez, que uma frase destas não deveria ser dita da forma que foi.

O que se passou

Houve mais jogos e golos no único lugar onde os podemos ver, para já, e na Alemanha talvez estejamos já a assistir à primeira e mais evidente das consequências de ter estádios cheios de ninguém nas bancadas: o fator casa parece estar a deixar, no fundo, de ser um fator na Bundesliga. Será que veremos o mesmo quando o campeonato for retomado em Portugal?

Jordan não lutava para ser a melhor pessoa de sempre, mas o melhor basquetebolista de todos os tempos. Esse foi um ato de liberdade

O escritor Bruno Vieira Amaral analisa o documentário "Last Dance" que o deixou viciado, emborcando os episódios sobre a última época de Michael Jordan nos Chicago Bulls, com uma sofreguidão atroz, de alcoólico

Há 30 anos, o Benfica esteve pela última vez na final da Taça dos Campeões Europeus. E caiu frente ao melhor Milan que muitos se lembram

Foi no Estádio do Prater, em Viena, que o Benfica jogou a sua última final da precursora da Liga dos Campeões. Do outro lado estava o AC Milan de Sacchi, com Maldini, Baresi, Costacurta, Gullit, Ancelotti, Van Basten e Rijkaard, que haveria de marcar o único golo de um jogo muito equilibrado, tático, praticamente sem oportunidades. Toni e Vítor Paneira recordam à <strong>Tribuna Expresso</strong> aquele 23 de maio de 1990

Sérgio Vieira: “A I Liga precisava do Farense. Lembro-me de 1994/95, quando ficou em 5º. Quero superar o que foi alcançado pelo Paco Fortes”

18 anos depois, o Farense volta à I Liga. O obreiro da subida é Sérgio Vieira, um homem do norte que aprecia a vida algarvia e que acaba de renovar com o clube de Faro por mais três épocas. Depois de um ano difícil, sem campo de treinos fixo - que até obrigou à prática em sintéticos - e com muitos milhares de quilómetros percorridos, há agora objetivos mais ambiciosos para "um histórico do futebol português", com a bitola a fixar-se naquela época de 1994/95, quando o Farense de Paco Fortes garantiu o 5º lugar e a Taça UEFA: "Presenciei ao longo de cerca de 20 anos o crescimento do Sporting de Braga, clube do meu distrito, no qual joguei na formação. Acho que isso é algo que pode acontecer num clube quando as pessoas acreditam"

Lembram-se quando a pandemia ia mudar tudo? Afinal... há impugnações, demissões e o patrocinador a voar (por Lá em Casa Mando Eu)

"E quero acreditar que, quando isto começar, o futebol português também vai saber estar à altura, deixando de discutir contratos televisivos para passar a discutir penáltis, abandonando as impugnações e retomando as conspirações, evitando polémicas com normas da DGS e criando guerras com regras do VAR", escreve Catarina Pereira

Futebolistas com resultado errado no teste à covid-19

Casos identificados como infetados estavam negativos. Denúncia foi feita por um médico do Hospital de São João e aconteceu por acaso. Laboratório tem gestores com ligação familiar à Federação

Diretor de serviço do Hospital de S. João detetou erro nos testes a futebolistas

Foi o diretor do serviço de patologia clínica do Hospital de São João que detetou os erros. O professor universitário informou o presidente do Hospital do caso. O gabinete de comunicação do S. João, apesar de ter confirmado à <strong>Tribuna </strong> <strong>Expresso</strong> a informação como verdadeira, diz agora que oficialmente não a conhece

Apoiante do Chega junta-se ao líder dos Super Dragões e compra o Canelas

Caeser DePaço, recém-exonerado cônsul de Portugal em Palm Coast, nos EUA, quer profissionalizar a equipa

Liga justifica escolha de laboratório que falhou testes de covid-19: "A Unilabs acolheu todas as exigências impostas pela Liga Portugal"

A <strong>Tribuna Expresso</strong> revelou que o laboratório que a Liga escolheu como parceiro para testar jogadores e equipas técnicas, a Unilabs, deu vários resultados errados, mas o organismo que rege o futebol profissional diz que foi o que "melhores condições ofereceu"

Zona Mista

Fomos uns idiotas. É um escândalo absoluto. É paradoxal que um país como Espanha, que foi mais afetado do que França pela pandemia, tenha refletido e encontrado soluções. Acho que também têm um comité científico que acredito seja tão pertinente como o que o presidente Macron consulta.

Jean-Michel Aulas, presidente do Olympique de Lyon, queixando-se do cancelamento desta época no futebol francês, agora que viu a forma que a Alemanha arranjou de chutar outra vez numa bola, a maneira como Portugal vai seguir o exemplo, a data que a Espanha já definiu para o fazer e as conversas que em Inglaterra se vai tendo para seguir a toada.

O que vem aí

Segunda-feira, 25

Há ressacas que custam a abandonar o corpo e esta é a semana de incontáveis que se seguirão sem novos pedaços de bastidores do que foi a carreira de Michael Jordan, em forma de documentário. Para o amenizar, pode-se vislumbrar aquela vez em que LeBron James, um tipo nosso contemporâneo que muitos ousam comparar a MJ, marcou 56 pontos num jogo - é às 20h, na Sport TV2, que passa o Toronto Raptors - Cleveland Cavaliers.

Terça-feira, 26

Feitos dois dias de descanso para as pernas, eis a 28.ª jornada da Bundesliga:

Borussia Dortmund - Bayern Munique (17h30, E1)
Bayer Leverkusen - Wolfsburgo (19h45, E2)
Eintracht Frankfurt - Friburgo (19h45, E1)
Werder Bremen - Borussian Mönchengladbach (19h45, E3)

Quarta-feira, 27

RB Leipzig - Hertha de Berlim (17h30, E1)
Augsburgo - Paderborn (19h30, E4)
União de Berlim - Mainz 05 (19h30, E3)
Fortuna Düsseldorf - Schalke 04 (19h30, E1)
Hoffenheim - Colónia (19h30, E2)

Quinta-feira, 28

Em 2012, sem o sabermos, ouvimos o canto de um cisne viciado em fazer passes, ser um ditador da bola e repercutir-se em vários pequenos futebolistas para o fazer. O Europeu deste ano foi o terceiro título seguido que a seleção espanhola conquistou em quatro anos, este à custa da Itália de Andrea Pirlo, o futebolista com pinta de bucólico e boémio que mandava em tudo o que tentaram fazer para evitar o inevitável: perder para uma equipa melhor do que eles, no auge deles. O jogo passa às 20h, na Sport TV+.

Sexta-feira, 29

Friburgo - Bayer Leverkusen (19h30, E1)

Sábado, 30

Mainz 05 - Hoffenheim (14h30, E3)
Hertha de Berlim - Augsburgo (14h30, E4)
Schalke 04 - Werder Bremen (14h30, E2)
Wolfsburgo - Eintracht Frankfurt (14h30, E1)
Bayern Munique - Fortuna Düsseldorf (17h30, E1)

Domingo, 31

Borussia Mönchegladbach - União de Berlim (14h30, E1)
Paderborn - Borussia Dortmund (17h, E1)

Hoje deu-nos para isto

Al Bello

Porque se cumprem esta segunda-feira os 27 anos da estreia de Ronaldo Nazário de Lima num Caldense-Cruzeiro do campeonato estadual mineiro no Brasil.

E porque o primeiro Ronaldo e o único alcunhado de Fenómeno marcaria 44 golos nos 355 dias que se contaram no tempo que durou a sua primeira época como profissional. Seria logo convocado para o Mundial que é sinónimo de tetra para o Brasil, não jogou, mas estava lá, com os seus 17 imberbes anos, a ver Romário e Bebeto obrigarem o mundo a esperar mais um pouco para descobrir o avançado que estava ali tão perto.

Se ainda não o fez, assine o Expresso, e, se puder, leia a Tribuna diariamente e siga-nos no Twitter, no Facebook e no Instagram: @TribunaExpresso.

Quando o Fenómeno se estreou

Faz 27 anos que Ronaldo Nazário de Lima jogou pela primeira vez pelo Cruzeiro, tinha ele 16 voltas ao sol contadas