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O silêncio de quem não quer ser negro

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Da Alemanha para os EUA: Marcus Thuram, jogador de 22 anos do Borussia Mönchengladbach (e filho do internacional francês Lilian Thuram) ajoelhou-se em protesto depois de marcar um golo frente ao Union Berlin

Da Alemanha para os EUA: Marcus Thuram, jogador de 22 anos do Borussia Mönchengladbach (e filho do internacional francês Lilian Thuram) ajoelhou-se em protesto depois de marcar um golo frente ao Union Berlin

Christian Verheyen

Pespineta. Já tinha ouvido o termo, aqui e ali, aos anos, sem saber precisar onde, até o ter compreendido finalmente num texto da Fernanda Câncio. A forma correta é, afinal, pispirreta, mas isso não muda o teor da palavra, que só se aplica, ao que parece, no feminino: rapariga empinada, insolente, atrevida.

É fácil perceber por que razão este tipo de impertinência só se aplica ao sexo feminino: as raparigas sempre foram educadas, geralmente, para serem polidas, dóceis, até submissas; os rapazes, pelo contrário, atrevidos, corajosos, fortes. No fundo, cada um(a) no seu lugar, aceitando os seus respetivos papéis, ninguém se chateia e assim gira a Terra à volta do Sol.

Mesmo no século XXI, o mais fácil é, sempre, ficar calada(o), sob pena de nos prejudicarmos perante quem nos ouve: os amigos, a família, os colegas, os leitores, os fãs, enfim, o mundo.

Não tenho por hábito, perante situações que considero injustas, ficar em silêncio. Posso até indicar a mais recente dessas situações como o teto salarial imposto pela Federação Portuguesa de Futebol (€550 mil por época, por plantel) no campeonato feminino de futebol, uma prova amadora que nem salário mínimo tem, precisamente por não ser profissional. Não antevejo que haja muita gente a importar-se com este assunto, mas eu importo-me, porque considero-o a perpetuação da menorização da mulher no desporto, mascarada de incentivo à competitividade.

Esta opinião não me trará amigos em lugares influentes, bem pelo contrário, tendo também eles a legitimidade para pensar exatamente o contrário do que eu, mas considero que o meu umbigo não vale mais do que todos os outros umbigos que eu sinto como meus, de jogadoras, de mulheres, de quem gosta de futebol e desporto feminino.

E este longo intróito, em jeito de parco exemplo, traz-me, claro está, a George Floyd e ao racismo. Houve gente, de facto, que nunca ficou em silêncio, como Colin Kaepernick, mas há agora quem fale sem nunca antes se ter comprometido, como Michael Jordan, e quem já peça por mais solidariedade, como Lewis Hamilton: "Ninguém mexe um simples dedo no meu setor, que é verdadeiramente um desporto dominado por brancos."

Este fim de semana, na Bundesliga, os futebolistas Marcus Thuram, Jadon Sancho e Weston McKennie pediram todos "justiça" para George Floyd, ao mesmo tempo que se manifestavam contra o racismo. Os basquetebolistas LeBron James e Stephen Curry fizeram o mesmo. E isto é importante porque o desporto é um importante veículo de sensibilização social. E os desportistas não são bonecos de plástico sem opinião que só servem para rematar ou lançar bolas.

Em Portugal, comprovámos isso, recentemente, quando Ricardo Quaresma decidiu - muitíssimo bem - defender a comunidade cigana contra o racismo de alguns. De resto, ou eu procurei nos sítios errados ou apenas há... silêncio. E não vale a pena pensar, aqui, que George Floyd é "um problema lá dos americanos". Sim, o racismo é um problema estrutural nos EUA. Mas ainda nos lembramos do que aconteceu, em Portugal, a Moussa Marega? E a Cláudia Simões? É um problema "deles"? "Eles" quem? Os "negros"? Utilizando uma pergunta simples, feita pela ativista norte-americana Jane Eliott: "Aceitaria, enquanto cidadão branco, trocar de lugar com um negro e ser tratado pela sociedade como um cidadão negro?"

Não podemos continuar em silêncio. #BlackLivesMatter

O que se passou

Michael Jordan pareceu ter esquecido a célebre frase "os republicanos também compram ténis" e finalmente emitiu uma opinião que o vincula a alguma coisa; Gasperini foi a jogo com a Atalanta aparentemente já infetado com covid-19; o Shakhtar Donetsk de Luís Castro e companhia derrotou o Dínamo de Kiev, por 3-1, e já tem uma mão no título ucraniano; a Liga lamentou a posição do Marítimo na questão das cinco substituições e, por consequência, a sua própria ineficácia; e Pinto da Costa endossou Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, como seu sucessor no FC Porto.

“Isto é um escape à realidade”: estivemos dentro do treino do Belenenses SAD para perceber como se treina em pandemia

O Expresso esteve no terceiro treino conjunto com bola que o Belenenses SAD conseguiu fazer desde que começou a míni pré-época até a I Liga voltar, a 3 de junho

O recandidato à presidência do Benfica fez "uma promessa": trazer José Boto de volta. Problema: voltar a Portugal "não está nos planos" dele

Bruno Costa Carvalho escreveu, este sábado, um <em>post</em> no Facebook no qual promete que, se for eleito presidente do Benfica, promover "o rápido regresso" de José Boto ao clube. "Não falei com ele nem preciso. Sei que terei argumentos para o trazer de volta", assumiu. Mas o diretor de <em>scouting</em> do Shakthar Donetsk diz à <strong>Tribuna Expresso</strong> que "voltar a Portugal não está nos seus planos"

Fisco recusa desconto no IRS para ‘cérebros’ a Julen Lopetegui

Antigo treinador do Porto quis pagar apenas 20% de IRS ao abrigo do regime para atrair “cérebros” para Portugal

O que as juízas escreveram sobre Bruno de Carvalho

Acórdão do tribunal esmiúça os episódios mais polémicos que envolveram o ex-presidente do Sporting. Sempre em sentido contrário da acusação

“No Benfica mandava o Veiga, o Simão dava-me as chuteiras dele, que tinham os nomes dos filhos. E eu abusava das noitadas”

À beira dos 35 anos, Hélio Roque não é um nome sonante, faz parte do grupo de jogadores que chegou cedo a um grande, mas não conseguiu afirmar o seu valor e preferiu tentar a sorte lá fora. O futebol também se faz destas histórias, que são aliás a maioria invisível. Hélio não se arrepende das opções que tomou num percurso que o levou até ao Chipre, onde conheceu a mulher e mãe dos dois filhos e passou por Angola, a terra que o viu nascer mas da qual não guarda recordações de menino. Regressou há dois anos para jogar o Campeonato de Portugal. Diz que um dia vai ser treinador, mas que ainda é cedo para pendurar as chuteiras.

Zona mista

"Iremos estar no estádio e no caminho do hotel até Famalicão. Pelo caminho teremos bandeiras e tarjas de apoio à equipa. No estádio, iremos receber a equipa e ficaremos cá fora a apoiar para que seja percetível a nossa presença."

- Fernando Madureira, líder da claque portista Super Dragões, em declarações ao "Record", revelando uma intenção que vai claramente contra o que foi pedido pelas autoridades

O que aí vem

Segunda-feira, 1
Continua o campeonato que tem sido a nossa salvação nestas últimas semanas de privação: a Bundesliga. Às 19h30, há Colónia-RB Leipzig, na Eleven.

Terça-feira, 2
Aposto que o estimado leitor nunca viu um jogo da Liga israelita, mas há lá portugueses - Miguel Vítor, Josué, David Simão, Verdasca - e é por isso que o Canal 11 vai transmitir, às 18h45, o Hapoel Tel Aviv-Beitar Jerusalem.

Quarta-feira, 3
Finalmente, depois de umas quantas cambalhotas, à boa maneira portuguesa, que nem permitem, por exemplo, que haja cinco substituições, lá recomeça a I Liga. Para ver na SportTV, em canal fechado, claro está, que isto de termos a BBC a transmitir jogos da Premier League em canal aberto é claramente porque os ingleses não pescam nada disto. Ora temos então, às 19h, Portimonense-Gil Vicente (e secretamente espero que o tratador da relva de Portimão faça mais um daqueles bonitos desenhos para nos animar, quiçá um arco-íris) e, às 21h15, Famalicão-FC Porto.
Às 19h30, na Eleven, há Bundesliga: Bremen-Eintracht Frankfurt.

Quinta-feira, 4
Prossegue a 25ª jornada da I Liga: às 19h, Marítimo-V. Setúbal (SportTV); às 19h15, Benfica-Tondela (BTV); às 21h15, V. Guimarães-Sporting (SportTV).

Sexta-feira, 5
A Cidade do Futebol estreia-se como anfitriã de jogos da I Liga, com o Santa Clara-Sporting de Braga, às 19h. Às 21h15, há Aves-Belenenses SAD. Às 19h30, na Eleven, há novamente Bundesliga, entre Freiburg e Borussia Mönchengladbach.

Sábado, 6
Prossegue a 30ª jornada da Bundesliga, com a Eleven a transmitir quatro jogos às 14h30: RB Leipzig-Paderborn, Frankfurt-Mainz, Fortuna-Hoffenheim e Bayer Leverkusen-Bayern Munique. Às 17h30, há Dortmund-Hertha. Na I Liga, às 21h15, há Boavista-Moreirense, na SportTV.
Começam as eleições no FC Porto, que decorrem sábado e domingo, no pavilhão Dragon Force, e contam com quatro listas: a A, de Pinto da Costa; a B, de Nuno Lobo; a C, de José Fernando Rio; e a D, que concorre apenas para o Conselho Superior e é dirigida por Miguel Brás da Cunha.

Domingo, 7
Finalmente termina a 25ª jornada da Liga, com o Rio Ave-Paços de Ferreira, às 21h. Às 12h30 e às 14h30, há mais Bundesliga: Bremen-Wolfsburg e Union Berlin-Schalke 04, respetivamente. Às 19h30, no 11, há Liga grega: AEK-Panathinaikos.

Hoje deu-nos para isto

Thearon W. Henderson

Primeiro, deixou-se ficar sentado. Depois, começou a ajoelhar-se. Em 2016, Colin Kaepernick, então quarterback dos San Francisco 49ers, decidiu, ao contrário do que era habitual, não se levantar para ouvir o hino americano, um gesto que foi entretanto repetido por vários outros atletas de outras modalidades. O objetivo era simples: chamar a atenção para o racismo gritante nos EUA. "Não me vou levantar para mostrar orgulho numa bandeira de um país que continua a oprimir os negros. Para mim, isto é maior do que o futebol americano e seria egoísta da minha parte vê-lo de outra forma", disse então Kaepernick.

No final da época, ficou sem equipa. Até hoje. É o que acontece a quem não fica em silêncio?

Ele não se levantou e conseguiu o que queria: perturbou a América. Porque a América o perturba

Este homem mexeu com a sensibilidade da América: não se levantou quando o hino começou a tocar. Ele conseguiu o que queria: perturbou o país. Porque o país o perturba

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E não seja racista. Nem sexista.