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Estes gajos nunca precisam de ser apertados

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Fábio Martins, jogador do Famalicão, foi para o Twitter conversar abertamente sobre um problema

Fábio Martins, jogador do Famalicão, foi para o Twitter conversar abertamente sobre um problema

JOSÉ COELHO/Lusa

Era quinta-feira, já de noite, o telemóvel acende o ecrã, é uma notificação das milhentas que implica ter o WhatsApp instalado e lá fazer parte de grupos. Cai uma mensagem: "Estes gajos precisam de ser apertados".

O grupo é de bons e antigos amigos, muitos vindos da ancestral infância quando nem sabíamos o que era futebol. Quem a escreve é um benfiquista chateado com o empate do Benfica com o Tondela, apoiado minutos depois por outro que tenho como amigo para a vida, que apenas escreveu "mesmo". Nenhum sabia, ou sequer imaginava, que nessa noite o autocarro do clube seria apedrejado e as casas de vários jogadores pintadas com insultos em muros e paredes.

Não era preciso o primeiro escrever, no dia seguinte, que obviamente não se estava a referir a disto, porque eu e ele conhecemo-nos há muito e entre as razões para sermos amigos é, felizmente, sabermos que a violência, o vandalismo e as ameaças resolvem nada, são resposta para muito menos e vêm de gente que não sabe viver em sociedade, portanto, também não saberão conviver com vitórias e derrotas da equipa que apoiam no futebol, que alteram nada de palpável nas nossas vidas, fora oscilações na bússola do humor e da boa disposição.

Já era sábado e sobre isto falámos como deve ser, em pessoa. Chegámos rapidamente ao subliminar problema que origina barbáries destas quando este meu amigo começou a dizer coisas como "Mas eles não sentem uma vitória ou uma derrota como nós", "Mas eles estão-se nas tintas", "Mas eles ganham milhões, só pensam nisso, têm que aguentar" ou "Mas eles têm que sentir a exigência". Sempre um "mas".

Concordo com a última, pois se os humanos ergueram estádios à volta de campos foi para terem lá adeptos que querem o mesmo que o clube, obterem o dinheiro que pagam pelos bilhetes e irem tendo o que despendem nas quotas de sócios, retribuindo com um clube que reflita os valores da região, da terra, da cidade e das pessoas que o acolhem.

Mas condeno e rejeito todas as outras, em que o "eles", como já devem ter percebido, são os futebolistas, entre os quais haverá cerca de nenhum que se sinta mais motivado e em pulgas para jogar melhor depois de ser ameaçado com violência ou ter a casa onde moram os filhos vandalizada porque perdeu, ou empatou um jogo, e alguém achou que isso era razão para ser apertado.

Isto não é apertar.

Apertar é fazer o que é tolerável por estar no direito de cada adepto que torça, sofra e tem os batimentos cardíacos dependentes das coordenadas da bola no campo: exigir melhores resultados e exibições, criticar, assobiar, apupar ou mostrar tarjas no estádio, por exemplo. São coisas de que os jogadores também não gostarão, com as quais podemos concordar ou discordar, mas que se aceitam, cabem na chapelada que conhecemos como pressão e, tacitamente, um futebolista abraça quando encarrila a vida por este caminho.

De nenhum plano faz parte haver adeptos a apedrejar autocarros e vandalizar casas de jogadores, a invadirem um centro de treinos para baterem em jogadores ou a ameaçarem um jogador com um tiro no joelho se não renovar o contrato com o clube.

A paixão das pessoas é o que germinou os clubes. Até certo ponto, é o que os faz mover antes de entrar a mecânica dos €, mas essa paixão acaba onde começa a visão doentia que distorce o conceito de apertar uma pessoa cuja profissão é jogar futebol e, na grande maioria dos casos, importa-se tanto quanto qualquer adepto se o jogo não lhe dá aquilo pelo qual passou dias e dias a treinar para acontecer.

Não sei se há assim tanto jeito no argumento, mas, quando respondi ao meu amigo que já o vi, não sei quantas vezes, furibundo e a barafustar por perder um jogo da bola entre amigos, indo para casa de trombas quando nada está em discussão e nem há pessoas a torcerem pela equipa em que jogou, e lhe pedi para imaginar o que sente um profissional, ele calou-se. "Mas é diferente", disse, às tantas.

Pois é, claro que é.

É a curta vida profissional de pessoas cujo trabalho diário é prepararem-se para aquela hora e meia que têm a cada semana, em que têm de carregar as suas próprias expetativas e jogarem pelas de todos os adeptos para quem esses 90 minutos podem bem ser o escape de uma semana de tudo o que lhes ocupa a vida e, naturalmente, se desiludem quando as coisas não correm bem. Mas nada, em circunstância alguma, justifica ter a "casa vandalizada, cabeças partidas, vidros nos olhos ou ser alvo constante de ameaças", como escreveu Fábio Martins, quando se atreveu a conversar sobre isto, sem filtro, numa rede social onde o teclado e o anonimato protegem ódios exacerbados, mas se deu ao trabalho de confrontar e ser confrofado por quem acha que "ELES GANHAM MILHARES, TÊM QUE SE SUJEITAR".

Fábio Martins deu um exemplo de abertura, transparência e diálogo, mais uma vez e muito bem, entre quem faz vida do jogar futebol e quem vive para ter o futebol como um dos seus gostos e hobbies. Foi lendo muitos "mas" e dando resposta a vários. Mas, repetindo, o "mas" que mais devia importar é este: o futebol pode significar tudo para muita gente, mas nada justifica apertar com violência quem anda no futebol. Nunca. Devemos é apertar com a mentalidade que leva alguém a achar-se no direito de ameaçar e violentar jogadores só porque não ficou contente com o que os viu a fazer em campo.

O que se passou

Jorge Nuno Pinto da Costa é presidente do Futebol Clube do Porto há 38 anos e pode bem deixar de o ser quando chegar aos 42, ao vencer, no domingo, o 15.ª ato eleitoral no qual participou. Foi o primeiro desde 1991 em que teve oposição, apenas a terceira vez que alguém se chegou à frente para concorrer contra ele. Ganhou com 68,65% dos votos e terá 86 anos quando terminar o mandato para o qual foi reeleito.

No campo das suposições não confirmadas, a fase final da Liga dos Campeões ('quartos', 'meias' e final) poderá ser jogada em Lisboa, e, no lado das notícias certas, Connor McGregor anunciou a sua retirada dos desportos de combate pela terceira vez em quatro anos. E, emm terreno de investigação, o jornal "Público" publicou um trabalho sobre alegados "empréstimos encapotados" de jogadores entre o Benfica e o Desportivo das Aves, com contratos que levantam muitas dúvidas legais.

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Zona mista

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A entrevista não saiu no fim de semana, já é de 3 de junho, mas o que Toni Kroos disse à revista "QG" alemã é só mais um exemplo do que está mal, ou estaria, no caso da possibilidade de que aqui fala, no futebol, porque se ainda há intolerância, preconceito, xenofobia ou racismo a olhos vistos na sociedade, essas malignidades também vão continuar a existir no futebol ou em qualquer modalidade a que as pessoas se dediquem a acompanhar ao vivo.

O que aí vem

Segunda-feira, 8

Sem eventos desportivos de renome, o melhor que pode ver no conforto do sofá é desafiá-lo a dar-lhe conforto enquanto põe os olhos noutras geografias: há um clássico israelita entre o Beitar de Jerusalém e o Maccabi Tel Aviv, que passa 18h45, no Canal 11, com três portugueses (Diogo Verdasca, nos anfitriões, mais André Geraldes e Jair Amador, nos visitantes) potencialmente ao barulho.

Terça-feira, 9

Primeiro foi a Bundesliga, agora são as meias finais da Taça da Alemanha, em que o sobrevivente Saarbrücken, da quarta divisão, defronta o Bayer Leverkusen, às 19h45 na Sport TV2, num tipo de jogo de pequeno e modesto contra o grande e poderoso que está na espinha tradicional das provas copeiras. Mais tarde, às 21h, arranca a 26.ª jornada da Liga NOS, com o Gil Vicente-Famalicão (Sport TV1).

Quarta-feira, 10

Prossegue o campeonato português com três jogos: o V. Setúbal-Santa Clara (17h, Sport TV1), o Portimonense-Benfica (19h30, Sport TV1) e o FC Porto-Marítimo (21h30, Sport TV1). A Taça da Alemanha também concretiza a outra meia-final, esta sem um tão grande desfasamento de realidades, entre o Bayern de Munique e o Eintracht Frankfurt de André Silva e Gonçalo Paciência, às 19h45 (Sport TV2).

Quinta-feira, 11

Dos grandalhões campeonatos da Europa, é dia para o de Espanha regressar e logo com um dos dérbis citadinos que mais faísca faz: há um Sevilha-Real Bétis, às 21h (E1), para reencetar as atividades na La Liga e onde também haverá portugueses envolvidos, porque de um lado joga William Carvalho e do outro Rony Lopes. Do lado de cá da fronteira, o Beleneneses SAD recebe o V. Guimarães (19h, Sport TV1) e o Tondela jogará em casa contra o Desportivo das Aves (21h15, Sport TV1).

Sexta-feira, 12

Porque não há tempo a perder, este será um dia que mais parece já de fim de semana pelo que estará a acontecer em Espanha, onde o Granada de Domingos Duarte e Rui Silva jogará com o Getafe (18h30, E1) antes de mais um dérbi, este da comunidade valenciana, entre o Valência e o Levante (21h, E1). Na Liga NOS, os dois jogos do dia serão o Moreirense-Rio Ave (19h Sport TV1) e o Sporting-Paços de Ferreira (21h15, Sport TV1).

Sábado, 13

A 26.ª jornada da Liga NOS termina com o Braga-Boavista (21h, Sport TV1), a pôr o laçarote no embrulho do dia que será um saltitar entre dois campeonatos. Na La Liga, jogar-se-ão o Espanyol-Alavés (13h, E1), o Celta de Vigo-Villarreal (16h, E2), o Leganés-Valladolid (18h30, E2) e o Real Mallorca-Barcelona (21, E1), onde ainda não sabemos se estará Lionel Messi, arreliado por uma lesão nos últimos dias. Na Bundesliga, haverá uma catrefada de jogos com início às 14h30: o Paderborn-Werder Bremen, o Colónia-União de Berlim, o Wolfsburgo-Friburgo, o Hertha Berlim-Eintracht Frankfurt e o Fortuna Düsseldorf-Borussia Dortmund, todos com transmissão nos canais da Eleven Sports. Mais tarde, às 17h30, o Bayern Munique recebe o Borussia Mönchengladbach.

Domingo, 14

Pela hora de almoço, a encher a barriga e já com ela cheia, haverá um Athletic Bilbao-Atlético Madrid (13h, E1), a que se seguirá o Real Madrid-Eibar (18h30, E1) e o Real Sociedad-Osasuna (21h, E1). Nos intervalos da regressada chuva espanhola, estarão os pingos germânicos do Mainz-Augsburgo (14h30, Eleven Sports) e o Schalke 04-Bayer Leverkusen (17h, E2).

Hoje deu-nos para isto

Björn Borg, o enregelado tenista que ganhava sem aparentar emoções

Björn Borg, o enregelado tenista que ganhava sem aparentar emoções

JACQUES MORELL/Getty

Monocórdico, apaticamente pouco falador, de olhar frio e tão demonstrador de emoções quanto um calhau que possamos encontrar numa praia protegida por uma falésia. Björn Borg era um fabuloso tenista, que dominava do fundo do seu court quem fosse o tenista do outro lado da rede, sem um esgar de prazer, felicidade, cansaço, luta, bom, sem um esgar de nada, e com os anos foram-lhe gabando a calma sob pressão, mas seria mais a frieza gélida sob qualquer momento tenístico que lhe aparecesse à frente.

Antes de Rafael Nadal fazer o que bem lhe apetecesse em Roland Garros, onde já ganhou por 12 vezes, há 30 anos era o sueco quem conquistava pela quinta vez o mítico torneio da terra batida, superfície que nem era a sua relva predileta, mas onde ele também exerceu a supremacia com que fez finca-pé no ténis durante a década de 70 e 80, ainda as raquetes eram de madeira. Borg derrotou Vitas Gerulaitis na final e ganhou em Paris sem perder um set durante toda a competição, um recorde que só seria batido em 2007, por Roger Federer, na Austrália.

Perdoem-me o desacerto histórico entre a efeméride que se assinala e o vídeo que se destaca, mas, se é para falar de Björn Borg, aqui fica a talvez mais mediática final em que participou, lá está, em Wimbledon, quando defrontou na sua quinta decisão seguida um gaiato encaracolado de seu nome John McEnroe, numa disputa que até já deu origem a um filme.

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Aconteceu em 1980, era Björn Borg o tenista mais dominador do mundo a jogar a quinta final seguida em Wimbledon, contra John McEnroe, o tenista que muito conhecido ficaria por barafustar em campo e que tinha, então, 21 anos e aparecia apenas na segunda decisão de um Grand Slam