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Parabéns, Peter Norman. E perdoa-nos

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Tommie Smith e John Carlos levantam o punho nos Jogos do México, em 1968. O outro homem chama-se Peter Norman

Tommie Smith e John Carlos levantam o punho nos Jogos do México, em 1968. O outro homem chama-se Peter Norman

Bettmann/Getty

A ideia vinha de trás, quando ainda estavam longe de entrar no avião para a Cidade do México. Tommie Smith e John Carlos, negros naquela América que nesse ano tinha visto Martin Luther King ser assassinado num motel em Memphis, prometeram um ao outro que, caso subissem ao pódio nos Jogos Olímpicos, fariam algo. E cumpriam. O primeiro foi ouro, o segundo bronze e no pódio, aos primeiros acordes do "The Star-Spangled Banner", baixaram a cabeça e ergueram o punho com uma luva preta, contra a desigualdade racial, contra as injustiças que diariamente os afro-americanos sofriam. A foto do momento é, ainda hoje, um dos mais poderosos documentos da luta contra o racismo.

Mas há um terceiro elemento naquela foto. Um branco, australiano, aparentemente indiferente, aparentemente de costas para a história, como alguém que aparece sem querer num jantar para o qual não foi convidado. O seu nome é Peter Norman, foi medalha de prata naquela corrida de 200m e se fosse vivo faria esta segunda-feira 78 anos.

E porque é que é importante falar de Peter Norman? Porque uma foto pode não contar a história toda e a história de Peter Norman, mais do que nunca, deve ser contada.

Voltemos então àquele dia 16 de outubro de 1968. A história é descrita no livro "The Peter Norman Story", do jornalista australiano Andrew Webster. Minutos antes de entrarem no estádio para subirem ao pódio e receberem as medalhas, Tommie Smith e John Carlos avisaram Norman do que iriam fazer. Explicaram a sua causa, que iriam descalçar-se para lembrar a todos a pobreza à qual a comunidade negra estava vetada, que iriam erguer o braço pela América negra e pelos direitos humanos.

Norman ouviu atentamente. E no final, para surpresa dos norte-americanos, disse: "Eu estou com vocês".

Não só o disse como pediu aos dois americanos um crachá do Projeto Olímpico pelos Direitos Humanos, um movimento de atletas que lutava pela igualdade. Smith e Carlos tinham apenas os seus mas, por casualidade, Paul Hoffman, atleta norte-americano do remo e membro do movimento, estava por perto. Norman pediu-lhe o seu crachá e colocou-o na lapela. Era a sua forma de tornar visível o apoio à ação. E a razão pela qual Smith levantou o braço direito e Carlos o braço esquerdo? Também se deve àquele relaxado australiano. Momentos antes do trio ser chamado para a cerimónia, John Carlos percebeu que se tinha esquecido das luvas pretas na Aldeia Olímpica e Norman propôs que ambos partilhassem as luvas de Smith.

O protesto teve consequências imediatas para Tommie Smith e John Carlos: por terem tido a desfaçatez de trazerem o que o Comité Olímpico Internacional chamou de "política" para os Jogos Olímpicos, os dois norte-americanos foram expulsos da Aldeia Olímpica. Quando o Comité Olímpicos dos Estados Unidos contestou a decisão, o COI ameaçou expulsar toda a equipa de atletismo. Smith e Carlos acabariam sacrificados e no regresso aos seu país foram tratados como escumalha, párias, traidores, até finalmente já nos anos 80 verem a sua imagem reabilitada.

Já para Peter Norman, a coragem de se ter juntado àqueles homens foi paga com o pior dos tratamentos: o esquecimento. Muito criticado na Austrália, país em que os aborígenes só haviam conseguido o direito ao voto em 1962, pela sua tomada de posição de apoio aos dois atletas negros, em 1972 ficou de fora da seleção australiana para os Jogos de Munique, decisão que o Comité Olímpico do país disse então ter sido meramente desportiva. Mas a dúvida ficou para sempre e só se agudizou quando em 2012 o Parlamento australiano fez um pedido de desculpas oficial pela forma como Norman foi tratado depois de um ato de altruísmo e de amor, como diria mais tarde John Carlos.

Depois de falhar os Jogos de Munique, em 1972, a carreira de Norman entrou em declínio. Uma lesão no tendão de Aquiles e uma operação que correu mal fê-lo entrar numa espiral de destruição. Tornou-se viciado em analgésicos e em álcool. Passou períodos de depressão. Nos Jogos de Sydney, em 2000, não foi um dos antigos atletas convidados pela organização, apesar daqueles 20.06 segundos no duplo hectómetro dos Jogos da Cidade do México ainda serem hoje recorde australiano na distância.

Peter Norman já não estava cá para receber o pedido de desculpas do seu país. Morreu em 2006, vítima de ataque cardíaco. Tommie Smith e John Carlos, com quem sempre manteve contacto, levaram o caixão aos ombros no funeral.

"Peter não tinha de usar aquele crachá, ele não era dos Estados Unidos. Peter não era um homem negro, não tinha de sentir aquilo que eu sentia, mas ele foi um homem", disse John Carlos, em declarações citadas pela BBC, sobre o branco que se levantou por uma causa e que por isso pagou o seu preço.

Relembro Peter Norman porque mais de 50 anos depois ainda é preciso dizer que a luta pelos direitos cívicos é um dever de todos e não só de uma comunidade. E que a luta não é contra ninguém, mas sim pela igualdade de todos. E por isso talvez devamos um pedido de desculpas ao australiano, por estarmos a demorar tanto tempo, por não honrarmos a sua coragem. A NFL, depois de anos e anos a vetar Colin Kaepernick ao ostracismo e a criticar e ameaçar todos os atletas negros que se ajoelharam durante o hino, parece ter aprendido. A federação norte-americana de futebol também. Mas foi preciso morrer mais um homem negro.

Trump, esse, diz que deixará de ver os desportos em que os atletas se ajoelhem durante o hino. Para alguns, não há remédio. Alguns nunca compreenderão que isto não é sobre si, ou sobre uma bandeira ou um hino, mas sobre direitos humanos. Mas Trump não fará falta. A história vai encarregar-se de o colocar no seu lugar. E esse lugar não é ao lado dos justos, como foi Peter Norman.

O que se passou

O Benfica voltou a não ganhar e poderá estar aí uma das séries mais complicadas da história do clube. O FC Porto aproveitou e é mais líder. O Sporting também voltou às vitórias.

A Assembleia Geral da Liga terminou com os clubes a confirmarem as subidas e descidas e o aumento das substituições. E Pedro Proença como presidente, pelo menos até às eleições.

Cristiano Ronaldo voltou a jogar e as coisas correram bem e mal. A liga espanhola também voltou, com direito a espontâneos.

O MotoGP já tem um calendário inicial para 2020, com 13 provas.

Lage, que foi ver o mar e ficou a ver navios, também já está a dormir com os peixes lá no fundo

O escritor Bruno Vieira Amaral dedica a crónica desta semana ao treinador do Benfica que disse ter dado um passeio com o seu presidente antes do jogo com o Portimonense

Frasco: “Depois da final com a Juventus, ia para o controlo antidoping, enganei-me e entrei no balneário deles: recebi uma ovação”

Em miúdo deu nas vistas numa praia de Leça da Palmeira, em Matosinhos, quando jogava com os amigos. Começou no Leixões, onde chegou a ouvir que "era pequenito" e que "não ia dar nada", foi cobiçado por dois clubes grandes e acabou por mudar-se para o Estádio das Antas, onde, ao longo de 306 jogos, conquistaria quatro campeonatos, duas Taças de Portugal, uma Taça dos Campeões Europeus, uma Intercontinental e uma Supertaça Europeia. Entretanto, após um Euro 84 onde exibiu elegância e categoria, não quis saber de convites para França e Itália. Depois da vitória de Viena, em 87, até cantou ópera. Em conversa com a <strong>Tribuna Expresso</strong>, o atual treinador adjunto dos juvenis dos dragões recorda os 11 anos como futebolista do FC Porto, o Europeu em França (onde por um acaso feliz jogou com o número do ídolo), os colegas, "o senhor Pedroto", as alegrias e as angustias - principalmente duas, sempre com Platini ao barulho - e a infância

Os piores FC Porto e Benfica dos últimos anos: marcam menos, rematam mal, falham passes e são mais permissivos

Os dois rivais estão separados por dois pontos, mas há muitos outros pontos a uni-los: estatisticamente, são os piores FCP e SLB dos últimos cinco anos. Os dados são da Goal Point

E que tal uma petição para o Sporting continuar a jogar sem público? Sim, Diogo Faro sabe que é polémico, mas pede para que pensem nisso

O humorista escreve a propósito do Sporting 1-0 Paços de Ferreira, analisando um por um os jogadores que jogaram em Alvalade para as bancadas vazias. Segundo o autor do texto, e face à exibição de Jovane Cabral, talvez manter o estádio sem adeptos não seja totalmente despropositado. Fica a dica

Um Azar do Kralj lembra que o Benfica ainda não venceu um jogo em que Rúben Dias tivesse usado uma bandolete

Continuando em temas capilares, Vasco Mendonça, que depois do empate do Benfica com o Portimonense está com uma certa vontade de voltar a fumar, dá também um toque a Gabriel, recordando o médio que os barbeiros já abriram

O FC Porto é novamente líder e Lá em Casa Mando Eu foi ver o mar, está tudo tranquilo, não há problema nenhum

O FC Porto venceu o Marítimo, por 1-0, mas Catarina Pereira ainda não sabe se alguns portistas já estão em forma, como Marchesin: "Cada vez tenho mais saudades daquele Marchesín dos primeiros meses, com um ar altivo, superior, a defender bolas impossíveis e a deixar os adversários desesperados. Parecia mesmo um crocodilo… será uma lontra?"

Zona Mista

Falei com o presidente, fomos ver o mar, está tudo tranquilo, não há problema nenhum

Bruno Lage, após mais um resultado menos positivo do Benfica, respondendo a uma questão sobre o seu futuro. O mar, esse poderoso conselheiro, também parece ter poderes ansiolíticos

O que aí vem

Muito e bom futebol, com destaque para o regresso da Premier League, da Serie A e para a final da Taça de Itália, entre a Juventus de Cristiano Ronaldo e Nápoles.

Segunda-feira, 15

I Liga
Marítimo - Gil Vicente (19h, Sport TV1)

La Liga
Levante - Sevilha (18h30, Eleven Sports1)
Betis - Granada (21h, Eleven Sports1)

Liga Israel
Maccabi Tel Aviv - Hapoel Be'er Sheva (18h45, 11)

Terça-feira, 16

I Liga
Santa Clara - Portimonense (19h, Sport TV1)
Aves - FC Porto (21h15, Sport TV1)

La Liga
Villarreal - Maiorca (18h30, Eleven Sports3)
Getafe - Espanyol (18h30, Eleven Sports1)
Barcelona - Leganés (21h, Eleven Sports1)

Bundesliga
Borussia M'gladbach - Wolfsburgo (17h30, Eleven Sports2)
Werder Bremen - Bayern Munique (19h30, Eleven Sports2)
Friburgo - Hertha Berlin (19h30, Eleven Sports4)
Union Berlin - Paderborn (19h30, Eleven Sports5)

Liga Coreia do Sul
Pohang Steelers - Jeonbuk Motors (11h30, 11)

Quarta-feira, 17

I Liga
Paços de Ferreira - Belenenses SAD (19h, Sport TV1)
Rio Ave - Benfica (21h15, Sport TV1)

Taça de Itália (final)
Juventus - Nápoles (17h, Sport TV4)

Premier League
Aston Villa - Sheffield United (18h, Sport TV2)
Manchester City - Arsenal (20h15, Sport TV2)

La Liga
Eibar - Athletic Bilbao (18h30, Eleven Sports1)
Valladolid - Celta de Vigo (18h30, Eleven Sports3)
Osasuna - Atl. Madrid (21h, Eleven Sports1)

Bundesliga
Eintracht Frankfurt - Schalke 04 (17h30, Eleve Sports2)
Borussia Dortmund - Mainz (19h30, Eleven Sports2)
RB Leipzig - Fortuna Dusseldorf (19h30, Eleven Sports4)
Bayer Leverkusen - Colónia (19h30, Eleven Sports5)

Liga Israel
Beitar Jerusalém - Hapoel Haifa (18h15, 11)

Quinta-feira, 18

I Liga
Boavista - V. Setúbal (19h, Sport TV1)
Sporting - Tondela (21h15, Sport TV1)

La Liga
Alavés - Real Sociedad (18h30, Eleven Sports1)
Real Madrid - Valencia (21h, Eleven Sports1)

Sexta-feira, 19

I Liga
V. Guimarães - Moreirense (19h, Sport TV1)
Famalicão - Sp. Braga (21h15, Sport TV1)

Premier League
Norwich City - Southampton (18h, Sport TV2)
Tottenham - Manchester United (20h15, Sport TV2)

La Liga
Granada - Villarreal (18h30, Eleven Sports1)
Maiorca - Laganés (18h30, Eleven Sports2)
Sevilha - Barcelona (21h, Eleven Sports3)

Liga Suíça
Young Boys - FC Zurique (19h30, 11)

Sábado, 20

Serie A
Torino - Parma (18h30, Sport TV2)
Verona - Cagliari (20h45, Sport TV2)

Premier League
Watford - Leicester City (12h30, Sport TV1)
Brighton - Arsenal (15h, Sport TV1)
West Ham - Wolverhampton (17h30, Sport TV1)
Bournemouth - Crystal Palace (19h45, Sport TV1)

La Liga
Espanyol - Levante (13h, Eleven Sports1)
Athletic Bilbao - Betis (16h, Eleven Sports1)
Getafe - Eibar (18h30, Eleven Sports1)
Atl. Madrid - Valladolid (21h, Eleven Sports1)

Bundesliga
Hertha Berlin - Bayer Leverkusen (14h30, Eleven Sports4)
Colónia - Eintracht Frankfurt (14h30, Eleven Sports5)
RB Leipzig - Borussia Dortmund (14h30, Eleven Sports3)
Bayern Munique - Friburgo (14h30, Eleven Sports2)

Liga Turquia
Denizlispor - Besiktas (19h, Sport TV3)

Liga Suíça
Sion - St. Gallen (19h30, 11)

Domingo, 21

I Liga
Gil Vicente - Aves (21h, Sport TV1)

Premier League
Newcastle - Sheffield United (14h, Sport TV1)
Aston Villa - Chelsea (16h15, Sport TV1)
Everton - Liverpool (19h, Sport TV2)

Serie A
Atalanta - Sassuolo (18h30, Sport TV1)
Inter - Sampdoria (20h45, Sport TV4)

La Liga
Celta de Vigo - Alavés (13h, Eleven Sports1)
Valencia - Osasuna (18h30, Eleven Sports1)
Real Sociedad - Real Madrid (21h, Eleven Sports1)

Liga Turquia
Kasimpasa - Fenerbahçe (16h30, Sport TV2)

Liga Grécia
Olympiacos - Panathinaikos (19h30, 11)

Liga Coreia do Sul
Jeonbuk Motors - Gwangju (10h, 11)

Hoje deu-nos para isto

Numa altura em que os homens fortes da Fórmula 1 colocam Portimão como uma das possibilidades para o renovado e de recurso calendário de 2020 - e em que o próprio Autódromo do Algarve garante que é um dos preferidos das equipas -, recordemos o último GP Portugal, no Estoril, em 1996. A vitória foi para o rookie Jacques Villeneuve e a prova portuguesa veio trazer alguma emoção ao Mundial: o GP Portugal era a penúltima corrida do ano e o triunfo do jovem canadiano acabou por adiar a coroação do novo campeão para a última prova, em Suzuka, no Japão. E aí, o mais experiente dos dois pilotos da Williams, Damon Hill, tornou-se então no primeiro filho de pai campeão do Mundo a ser também ele campeão.

Villeneuve, o filho: o último conquistador do Estoril

Jacques Villeneuve foi o vencedor do último GP Portugal, em 1996